quarta-feira, 3 de junho de 2020

A bota e a botina



A botina lamacenta já não reclama mais
Como devia.
A bota austera e elegante
Continua a pisar sobre ovos
Num inverno que serve de alimento
Àqueles que observam pelas janelas
O evaporar dos automóveis.
“Ó, mais uma olhadinha”,
A botina com sola de pneu, empoeirada grita,
Só que já não sabe por que grita!
“Ó, o ar fresco que se aproxima”,
Talvez traga alguma resposta
Ou, no mínimo, grita pra que a gente fuja
Dessa doideira.
A bota agora sobe as escadarias,
Atravessa escombros,
Rompe atmosferas,
Aquece-se.
Esvai-se.
Perfumada e eloquente, discursa.
Amarela, frouxa.
Verde, cai, ainda verde.
Azul, congela.
“Ó, veja ali”,
A botina rastela a terra escura,
Bate o martelo,
Cada martelada uma permuta
Pela esperança de chegar em casa
Ainda viva e encontrar o filho
À sua espera, com um olhar melancólico
Como a suplicar:
- Papai, você faz um martelo pra mim?