quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Ato número III




Chamo-me ausência;
Algo perdido que se perdeu,
Tempo envolvido que voltou
E misericordiamente, sopro.
Eu aumento meu volume
Com a exaustão do tempo,
Transformo tudo e todos,
Os movo para qualquer lugar,
Chamo-me quase amor
E de forma perdida:
Quebro a cabeça como sombra.
Chamo-me envolvido;
Faço-me de dois tempos:
De sonho e de horas.

As notícias correm
Em velocidades acendidas
Com intuito de aumentarem
A todo instante.

Cada velocidade
É uma cidade que se difere
Do meu credo exato.
Deixo as estrelas se transformarem,
Acredito no espanto cruel
Das promíscuas simpáticas,
E desbravo com muita força
O sexo oposto ao meu,
Porque sou forte
E pegajoso,
Sou instrumento de força e de atos.

Fecho meu ato em número III
Com nome final.
Diminuo o volume da ideia,
Ponho meu sonho para
Fora da plateia,
Estou com outro ideal.
Um mais real:
Chamo-me crueldade
Sem fim.
Raios. Trombetas. Sanfonas.
Seus seios me divertem,
Enlouqueço com a paz,
Morro de guerra
Vivo em busca de luz,
Brilho pelo sol
E chamo-me agora um sinal.

Era


Eu vinha vindo de longe
Vinha do campo do pó
A cantarolar em ré menor
Maior que o sonho
Esquisito que me vem
Na memória depois
Do carnaval.
Era um dia normal como a vida,
Infinito,
Intimo,
Preso... Amarrado... Queimado...
Um caminho puro que só me vejo de dentro.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Aquele amor




Aquele nosso amor inseguro.
Eu lembro tanto que até penso
Se o dia de amanhã fosse verdade
Levaria tudo sobre os ombros.
Levaria as escadas e as flautas...
Um ritmo contínuo
Agora seria adocicado e relembrado.
Aquele nosso amor se desse certo,
Porque agora também o lembro

Aquele nosso amor inseguro
Que teimava em sobreviver
Estava prestes a transparecer
Sobre os bustos leves e tortos
D’ outro lado da rua...
Aqueles bustos e o poste
Grande prendido sobre travas
De falso engrenamento

Aquele mesmo nosso amor
Que não deu certo se desse certo
Aquele inseguro amor!
Seria durabilidade embalsamada
Quase dita ao nada que por fim
Levaria casas e montanhas ao
Ponto de onde partiu...
Aquele amor se desse certo
Ele estaria como poste de cedro
Firme e co-decorado pelas luzes
Dos postes a noite.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

A Educação



É de ficar tresloucado com as desventuras que ainda nos cercam. Talvez hoje, (num respectivo ato sincrônico de tempo), as pessoas não deem tanta importância ao que chamamos de Língua e/ou Literatura, ainda, Linguagem. Já que é necessário apenas como um aspecto intermediário entre uma e outra pessoa. Por que estudá-las?
A maior dificuldade do professor de Linguagem em sala de aula está sendo justamente veicular esta ordem – inclusive, de importância fundamental para jovens mentes – pois o mercado vem crescendo e junto a este crescimento, as interrogativas dos alunos. Por que estudar isso? Se eu já sei falar?

Por que fazer o certo dentro dos padrões sociais, se o errado é muito melhor e mais fácil?

Partimos então do princípio de que a Língua que adquirimos é simplesmente a forma de comunicação da qual mais necessitamos.
Em contraposição a estes aspectos, encontramos pessoas desfavorecidas, onde seu maior desejo seria Estudar, com E maiúsculo. Achamos as frases mais famosas até hoje na boca dos mais velhos: “Estude, estude porque senão você não será ninguém”.
E ninguém mais se comove com tanta “burocracia”. Isso não é um retrocedimento ao Regime Militar, de forma alguma, e o autor deste texto não é porventura um neonazista. Mas o que quero por convencionalismo deixar explícito são as maneiras de certa forma, forçosas por onde a escola brasileira caminha.
Primeiro, a falta de interesse dos alunos para com os estudos. Para eles isso é um fato sem relevância alguma, (por enquanto), porque são jovens e mandam no mundo (apenas não conseguem arrumar seus quartos sozinhos).
O segundo aspecto a questionar é a imponderabilidade dos pais em vista dos assuntos que marcam o cotidiano dos filhos. A eles me faltam exemplos para sutil empatia.
Em finalização, a ineficiência e ineficácia das Universidades (principalmente públicas), onde a maioria de seus Reitores (em exemplo de Rubem Alves) não passaria nos vestibulares por eles formulados.
É de arrepiar com as ofensivas questões que nos deparamos (onde pessoas que dispunham de tempo e verba para fazer cursinho preparatório se saem bem), tudo pelo pródigo fato de no vestibular saberem algo do tipo “a estrutura dos espermatozoides . Em contração, infelizmente as que têm um acarretamento de ideias também amplo, e por ventura muita capacidade intelectual, não conseguem por pequenos descuidos à forma como são acusados na mesma instituição.
Talvez isso sirva apenas para basear-nos a que estrada e para qual rumo partimos com a Educação. Parece já não ser uma perambulação de pessoas e sim, uma deambulação. Por que escrever, se eu já sei ler? E por que ler se às vezes eu escrevo? O que nos mede a rodear as mesmas questões é realmente o cuidado com o que pode vir à nossa frente. Se é que o medo nos afronta.  

Everton L. Bastos - 2007

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cordilheira do trabalho




Quando pela manhã eu me levanto
Levanto e meio me arrumo
Ponho sapatos calças e palitó:
- obedeço ao trajeto.
Vou pro subúrbio.
Não há imagem nisto,
Não esperança,
É dia de trabalho,
Saio com remelas nos olhos
Pasta no canto esquerdo da boca,
Terça feira,
Passo na feira
Como um pastel e tomo um café preto
Sem açúcar; sem sal; nem bem, nem mal,
Ouço a buzina dos carros a passarem
Como foguetes ao lado do meu bonde,
Trepo em seguida no terminal,
Uma fila gigantesca se faz
De trabalhadores com seus desodorantes frescos
Do sereno.
Vou apertando o sinto;
Vou espremendo minha língua,
A sentir uma agonia, um balanço
Como de esperança.
O suor já bate nas costas,
Dou meia volta volto e meio
E me aproximo do meu espaço,
Eu dentro de mim levado



Quando me viram deitada ao chão
A me chamarem por diversos nomes horrendos,
Eu me aproximei do poste, urinei, me desfiz em pranto.

Quando comecei a correr,
Meus filhos a me ver,
E eu já morta da canseira de suor em minha língua,
Não tive mais coragem,
Eu estava no fim:
- A carrocinha me levou.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O homem mais amado




Meu Deus, meu Deus!
Quando brotou o amor em meu peito,
Eu nem sei direito se foi sábado ou domingo,
Mas qualquer dia que fosse, seria o amor.
Ah, o amor, isto que é como uma púrpura neblina
A invadir a imensidão do momento,
Invade a emoção quebrada da noite pro dia,
E como numa agonia, faz reter o choro
De anos segurado.
O dia bem amado,
O homem mais amado:
Aquele que se diz do amor vencido.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Quase




Eu queria tanto elaborar um poema que falasse de amor Mas quando o amor sente que o medo é maior Eu moro em Roma Eu sou filho de condignos alemães com japoneses Misturaram meu sangue no dia em que vivi Fui pego de surpresa Saí pelo canto esquerdo da vida de meus irmãos Eu vivo distante Sou além Sou qualquer um Quase apronto de mim mesmo um grito Estou distante do paraíso Estou distante do inferno Eu quero o sopro do vento Vou atrás da porta torta O galho quebrado A luta vencida O dedo entortado Eu morro em Roma porque me perdi de romã Eu quase estrangulo meu peito Eu sou feito de aço Eu sou torto desde a raiz Sou um filho aprendiz Desfaço todo o preço Não acredito no país Não acredito nem em meus pais Não creio que exista paz Eu sou chumbado de nervo Sou na terra um peso Quase digo besteira Porque a todo o momento quem eu mais penso é no meu departamento Eu aprendo que não sou assim tão louco Um pouco solto Torto Tonto Medo Susto Pulo Grito Corro agito enfim amém

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ontem, hoje e amanhã




Hoje acordei ontem
Amanhã serei eterno
Escrito num caderno
De páginas em branco.

Amanhã levantei hoje
Com cara de ontem
Mal lavado feito anteontem
Quase me bati com a semana que passou.

Hoje, dormi ontem
Com planos para amanhã,
Levantei agora, de manhã
E estava com tempo demais.

Depois de amanhã
Acordei hoje tarde
Quase noite dormi cedo
E despedi-me ontem.

O relógio toca:
Agora que chegou
Minha hora chegou
Não demora, chegou
Oras! Chegou.

O sorriso de ontem
Dormiu cedo;
Acordou tristeza de madrugada
E sonâmbulo hoje.
Iniciou um riso gratuito para amanhã,
Num espetáculo incrível
De velocidades, agora ou nunca mais.
Ontem, semana que passou
E amanhã, deixa comigo que consigo. 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Em meio




Aqui
Em meio a este todo barulho
Eu pressinto os pombos no chão
Pressinto a mulher da feira gritar
Aqui
Neste todo sufoco
O banco dos pombos é tomado por loucos
E os pássaros voam e as
Crianças alegres e os animais
Choram...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

modus



Falseabilidade
Falsificabilidade
Refutabilidade
Coisas da idade
Ausência de novidades
E provo ainda os extras
Todos os encaixes
Ajustes
Tendo a ser discreto
como objeto
Creio
Entendo
Se sou poema
falso
Descreio
Se viver, serei eterno
Sou eterno
portanto, vivo.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Noite de Insônia




Quase meia noite quando me acordei, fiquei mórbido e sem lembranças na cabeça, parecia que havia deixado de viver enquanto sonhava coisas das quais não mais me lembrava neste instante. Agora parece que ainda estou tonto daquela noite de insônia. Permaneço lúcido, mas fora do eixo. Tenho uma vida boa, acordo sempre bem cedo para preparar o café da minha amada. Em seguida, ainda no escuro, ela vai ao trabalho, pega o primeiro ônibus em três quadras de nosso apartamento, depois desce na estação Ruy Barbosa e toma outro ônibus até a repartição. Observo-a ao longe, usurpada e sem coragem, mas no fundo arraiga uma coragem despida para enfrentar um novo dia de luta.
            Volto à minha cama, cabisbaixo, levanto-me novamente e preparo um leite com chocolate. Pego o controle remoto e coloco em canais simultâneos que não me levam a lugar nenhum. O telefone toca três vezes, na quarta quando estou a pensar com meus botões se atenderei ou não, a ligação para sem respeito. Compreendo dentro de mim um mundo de frequências elétricas que me deixam quase fora do meu próprio eixo. Minha mulher chegou no serviço, imagino, então é hora de me levantar da cama ainda com o cheiro do nosso amor e escovar os dentes, olho-me diante do espelho e noto uma barba maior, mais sombria e cheia de espinhos. Minha pele ressecada é vista da tramela do reflexo e neste instante a maior vontade a reproduzir em minha vida é a de tomar o creme de minha mulher e passar no corpo inteiro, não daria tempo para isso, preciso ir ao trabalho, passo duas camadas, somente na face e nas mãos, dou alguns tapas na pele e saio do banheiro com cheiro de limpeza.
            Tranco a porta do apartamento e realizo mais uma experiência: viver um dia sem saber o que será. Na rua abasteço meus olhares com a playboy da esquina, ao encontro de um conhecido de vista aceno com a mão e um olhar sorridente, depois me volto ao ponto de ônibus, no qual vem um amarelo com um itinerário embaraçado, ou sou eu que ando precisando de óculos. Ao passo que o veículo se aproxima, consigo entender a descrição, concluo a contagem de minhas moedas e entro na embarcação com um destino torto. “Dê preferência a pessoas idosas, gestantes e deficientes”, depois desta mensagem, observo que ao canto existe um senhor de aproximadamente setenta anos em pé, com um olhar exausto e um queixo caído de sono, em sua frente há um garoto de quase vinte anos com a cabeça baixa, mole e sem molas nem nervos, dorme ou finge dormir para não ceder lugar em uma hora tão delicada da vida. Este instante passa-se despercebido aos olhares das pessoas que ali se encontram.
            Ao chegar no meu trabalho esmoreço, sinto uma dor de barriga tremenda e vou logo ao banheiro antes de atender o primeiro cliente, uma bela senhora e me olha de canto de olhos como a pensar que sou um estúpido. Acredito que o jantar da noite passada tenha me feito mal. Meu estômago anda encrencado, por sorte consegui chegar no escritório a tempo de explodir. Limpo o rabo e puxo a descarga, nada mais me aflige porque a melhor sensação na vida do ser-humano é sentir-se por completo feliz. É feliz quem tem fome e por conseguinte, comida. É feliz quem treme de vontade de fazer sexo toda semana e, por conseguinte, tem alguém a quem se doar. No mais a vida é enjaulada em pareceres que se misturam muito bem aos escândalos públicos, a vida é algo individual que se torna de forma inapropriada um dever de todos.
            Ao meio-dia em ponto minha mulher me liga, o celular toca três vezes e na quarta quando vou atender através de um toque misto no celular ela desliga, em seguida tento entrar em contato mas só dá na caixa postal, que vá à merda, quem sabe o que faz é rei dos próprios passos.
            A história de minha mulher é longa para ser contada em poucas palavras, mas estamos juntos a mais de vinte ano e até hoje, por incrível que pareça, ela diz nunca ter sentido orgasmo, não sei se pelo fato de eu ser homem mas, consequentemente me sinto bajulado com suas histórias. Ela fala num tom retroativo querendo me impor que o dever de cada homem é dar prazer à mulher, ora, eu tento de tudo quanto é jeito, mas ela não vai, ela é de ferro, parece uma estátua que ameaça a qualquer instante desabar.
            Amanhã completo mais um ano de vida, meu aniversário. Ater agora ninguém falou nada sobre a data, mas tenho certeza de que aqui no escritório cantarão os parabéns e depois sairão falando mal pelos cantos, toda empresa é assim e aqui, por exatidão nas minhas finas palavras, não é diferente.
            O dia voa. Não sei por que razão é que o tempo passa tão longe de minhas memórias. Minhas lembranças se apoiam em realizações mal finalizadas. Eu bem pareço um Da Vinci com suas obras intermináveis e por falar nele, tenho meu vídeo-game como ele tinha a Monalisa, carrego esta máquina debaixo dos braços com muito carinho. Estou para fechar mais três joguinhos e dentre eles o principal é o Campeonato Brasileiro 2010. Chego em casa e a primeira coisa a se fazer é ligar a TV. BBB com todo talento. Uma mistura de zoológico com manicômio. Os homens de lá se parecem muito com cavalos porque são sedosos e grossos, simpáticos e elegantes e por outro lado olham somente à frente, já as mulheres são revertidas, umas gostam de salgado demais e outras doce demais e como toda novela o final é sempre o mesmo. Desligo a droga da TV e ligo o rádio na Ouro Verde, passam-se canções de minha época de guri. A melhor parte é a lembrança porque é exatamente nela que esqueço de lembrar que amanhã será um novo dia. Cochilo sob o colchão úmido e às 19h30min minha mulher chega aos berros. Acordo assustado.
            Ao nos beijarmos intensamente iniciamos uma briga sem motivos. Ela pergunta sobre o jantar, eu respondo que iniciei, que descasquei as batatas porém, as batatas acabaram, então peço para que ela ajude-me. Cansada reúne o pensamento em silêncio que bota em mim um medo sem explicação. Neste instante ouço uma voz gritar lá debaixo pelo seu nome, vou até a janela e vejo na esquina um homem vestido numa jaqueta de couro marrom, um óculos escuro àquela hora encostado sob um opala preto. Olho para minha mulher com desgosto e ela, aos poucos, vai se contorcendo de nervos, parecendo mulher com vontade de urinar, então eu penso em matá-la, por um instante, penso em bater nela por muito tempo e nada me sai da garganta nem dos braços, ela pega somente a bolsa, resgata atrás do rádio um batom verde-musgo e bate à porta em minha face, grito por instantes seu nome, para que volte e ela não volta, nada volta.
            Vou até a cozinha, preparo meu leite com chocolate e procuro a lista telefônica. Encontro alguns anúncios no jornal e encontro uma ótima pizzaria, peço uma promoção da noite acompanhada de uma coca bem gelada. Depois, ainda com a lista em mãos, destaco alguns telefones e entro em contato com uma menina, peço para que venha até minha residência, estou só, a noite apenas começa e no outro dia acordo sem nada. A menina que me concebeu uma noite de amor rachado na noite anterior levou minhas memórias, meus cigarros e meu dinheiro. Minha mulher toca a campainha pelas nove da manhã e só então me dou conta de que ela havia saído com o irmão mais novo em busca de um coração para o pai que está internado no São Vicente à espera de um transplante. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O cheiro da primavera




Tempo de primavera quando as flores começam a aparecer. O cheiro que aumenta no ar é de liberdade, a natureza em sua coragem em dizer o que pensa. E é assim o tempo inteiro durante o dia. Quando chega a noite a coisa aumenta, a lua em sua imensidão diz boa noite em tom singelo.
Eu caminho pela madrugada, ando uma distância incrível até chegar ao Rio Açude. Lá me escondo por entre arbustos e resolvo me visitar. Chego a pensar que deliro mas, no fundo, a coisa é outra. Encontro-me de frente com uma donzela de cabelos reluzentes, olhos que brilham como estrelas e um jeito de musa. Aproximo-me para de fato saber se é real ou ilusão. Ao passo em que penso que talvez tudo aquilo seja uma confusão porque até poucos minutos atrás eu estava sozinho no silêncio da mata.
O cheiro me abastece de uma alegria imensurável, e de pouco em pouco a figura daquela mulher some sobre o rio. A fantasmagoria de minha cabeça criou uma vida inteira para depois, no silêncio, não abstrair nada ao mundo material. 
Desço uma barranca em passos largos até chegar a uma balsa velha de cor azul. Ligo seu motor e fujo sem rumo. Em pouquíssimos instantes me deparo com pescadores na barragem, olham-me de viés e tropicam algumas palavras:

- O que foi? Está perdido?
Eu, ainda inconsciente, ébrio respondo que não.
- Cara maluco – ouço vozes baixas e me vou aos poucos rio acima.
Chego a uma tribo de pessoas que não me reconhecem, mas, sou parte deles. Em tempo de segundos começam a me perseguir, falta-me fôlego, falta-me voz e força. Na hora em que esparramo coisas sobre o chão para se ter alguma saída os meus olhos se abrem. Tudo não passou de um sonho. Vou até a cozinha rapidamente, ligo a TV e no mesmo instante sinto um cheiro de primavera e novas perspectivas reaparecem na rua. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Coisas de Política





Estava à toa na vida o meu amor me chamou pra ver o mar. Um dia de sol, lindo com uma vista magnífica. Vislumbramos por horas aquelas paisagens e voltamos à cidade. Esta loucura não cessa. Ela deita-se sobre o sofá calmamente com o controle remoto na mão liga na Rede globo. Passa uma novela que a meu ver todos devem amar, pois sua audiência é mil. Dormimos, enfim, após o cansativo dia de passeio.
Acordamo-nos dispostos num sábado de frio e resolvemos passear pelo calçadão, é sempre bom fazer uma caminhada pela manhã, mas, esquecia-me de que estamos em época de política e, por falar nisso, ao passo que nos aproximamos da praça, surgem bandeiras, adesivos, cartazes e carretas com as piores paródias possíveis de candidatos. Amedronto-me por alguns instantes e continuo a caminhar de mãos dadas com meu amor. Neste momento chega mais para perto um homem de estatura baixa, um pouco tímido, entrega-me um folheto e diz: “Vote em mim, sou honesto”. Eu o observo de canto e respondo que sim. Em seguida vem outro, um pouco mais alto, feio que se parece com uma baitaca, um pouco gago, reluta-se e diz: “Eu já fui da polícia, fui da política e já fiz mais de cem partos, salvei mais de trezentas criancinhas, conto com sua ajuda”, eu ainda trôpego sorrio alto e o sujeito não acha nada engraçado, levo um belisco do meu amor e continuamos a caminhada. Respondo que sim.
Depois, ao lado da padaria em que estamos a degustar alguns doces, passa um cara parecido com o Seu Madruga a pedalar sua bicicleta e jogar “santinhos” por todo calçadão, e o detalhe que na parte de trás de sua bike há uma caixa de som, pela qual sai uma sinopse de Michel Teló ou coisa do gênero, quase me afogo com o doce. Percebo que a coisa começa a se complicar. Respondo que sim, antes dele se pronunciar e faço que sim com a cabeça. Pergunto-me, por que será que estes anúncios impressos de políticos se chamam “santinhos”? (sem resposta. Apenas silêncio).
Recebo por fim uma revista de três partidos. Chegamos a casa e folheio algumas de suas páginas, percebo que um homem “sério” que contava dinheiro se candidatou, o faroleiro também. A moça triste que vivia calada se candidatou e a meninada toda se candidatou. A situação está ficando um horror. A cidade toda se enfeitou de colorido, parece natal, porém, sem presentes. À tarde recebo visita inesperada, um grande amigo de infância. Ao vê-lo me felicito e pergunto na maior e mais ingênua brincadeira: “Você se candidatou também, para vir me visitar”? E ele responde no ato: “Sim, meu caro amigo, aqui está meu número e o “santinho”, conto com seu apoio”. Me dá a mão para um simplório cumprimento. Faço que sim e sorrio. E cada qual no seu canto, e em cada canto uma dor depois do candidato sair falando coisas de política. 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Por um instante




Aviso que na hora do grito ela chega toda molhada e escandalosa. Mulher louca dos gênios das quiçaças e, quem sabe, dos saraus. Saio de madrugada aos pulos porque ela me tira de casa, diz o tempo inteiro que tenho outra, mas, discordo, não tenho nada. Encontro-me com o Zé àquela hora, depois aparece Tonico, conversamos de futebol, nossos times não andam bem, bebemos uma cerveja, depois outro e quando notamos estamos na décima rodada, passamos o Campeonato brasileiro brincando.
O meu celular toca inesperadamente, vibra e cai do bolso, apresso-me para pegá-lo. Estou sentado numa destas cadeiras maciças de plástico amarelo de bar, alcanço o aparelho e derrubo-o novamente. É a mulher que me liga. O Zé diz “deixa essa droga aí”, e eu faço o que ele me manda. Deixo o celular que toque em seu último volume no chão.
Ao voltar a casa quase de manhazinha, ainda sinto uma leve ardência nos lábios, os meus olhos estão murchos de sono e não consigo enxergar muita coisa, tudo está nublado. Passo pelo parquinho da praça onde crianças gritam e seus gritos me machucam porque meu filho não grita. Estou acabado, roupas sujas, calça rasgada. Continuo em silêncio pela estrada que me leva a uma amargura sem fim.
Depois de horas de um desespero errôneo encontro minha mulher, passa e não me olha. Como se eu fosse invisível ela demora e depois de duas horas vem em minha direção. Manda-me um tabefe na cara e sai pelejando, a caminhar torta pelo acostamento da BR.
Depois vem a sogra, depois o sobrinho e por fim a prima, ambos me condenam, dizem em alto tom que não presto. Enfim, presto minhas últimas palavras ao contador de água que passa neste momento em frente a casa. Tem um olhar por sobre os óculos, faz uma cara de medo com relação à mulher e continua seu trabalho (a ser atacado por cães vira-latas).
Já é noite, encontro-me de volta com o Zé. Fala de futebol, estou por fora, meu time está horrível. Depois de alguns instantes embriago-me, estou servido de cachorros por todos os lados, amigos errados e condutas mal esclarecidas. Sou um homem do asfalto, da pedra que se amassa diariamente sobre a cidade, da água que evapora nas calçadas, da fumaça que se extingue pelas fendas dos becos. Não sou o beco, sou o cerrado fora de casa. Perco tudo, mais uma vez não me sobra nada. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Mar




Amor além de amor é doce
Que se ama como se fosse,
E não se esquece como se desse.

Amor que é amor assim tido
Amor bandido de elenco
Eu não desdenho, só desenho
Porque é desejo de amor amado.

E destes quatro anos
De quatro em quatro
Mais os meses, mais ou menos três, quatro, cinco
E assim por diante
Se vai amando cada vez mais potente.

Dia radiante
Dia azul amado também por ser azul
Ou pavor, sem loucuras com tédios:
- Milagres, conselhos e estrelas.

Um toque de música no frio
Um sentido abuso
Um instante actínio
Lembro-me das lembranças de amor.

Sem gramática nem matemática;
O amor (este nosso amor) além de filosofia
A fisiologia, a sociologia de um carinho gigante
Sem amêndoas, parceragem;
Amor de camaradagem...

Conte comigo do amor envolvido
Sou teu amor
És minha princesa.
Vamos sair por aí
Pra ver os preços;
Quem sabe eu enlouqueço
Mas não deixo de te amar do tamanho do mar.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Questão




Ondas entretidas
Alegres Noivadas
Algodão de beira-estrada
Milho questão; feijoada

Roça Corta mole
Nuca encerrada
Meu nome:
Significado
Sobrenome:
Além de nome.

Hora atrasada
Tempo perdido
Sou questão de momento
Por isso que morro assim
De tempo em tempo

Sonho sempre e medo.
Meto-me nas estradas
Mas dos pensamentos

São rumores
Dores
Minhas melhores coisas.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Aurora





Eu não via a hora da aurora chegar
Toda dissimulada em cima da hora
Eu tinha dentes e arrepios
E eu sentia saudades de tudo o que fosse seu.
A minha demora talvez
Anunciasse um mar reflexivo como um poema
E a demora que vinha da aurora me confundia.

Era como o meio dia de lembranças e alegrias
Dias vindouros de um passado neutro,
Mas, quase de súbito a luz sem queixa de sombra
Reaparecia; era ela, a aurora
Que de tempos em tempos me sorria.

Os passos eram desconcertantes
E a medida do carinho era um paraíso.
Sorriso sobre sorriso em nuvens
Após as chuvas de dias infindos.

E lá no finzinho da estrada vinha ela mais uma vez
Despida de um sol maduro e belo
Cabelos tranquilos em um olhar sorridente
Dentes esbranquiçados como leite
E uma foto nas mãos escondia a sua presilha;
A aurora que vinha num vestido longo e sujo
Mas tão querida e esperada por mim
Numa solidão esquecida e amanhecida
Que eu até não sabia se era ela ou se era eu.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vidas




“Bom dia” – vinha dizendo a moça pela estrada.
”ora, bom dia aos diabos” – o homem de cavanhaque. O rapaz da esquina parado em frente à farmácia, com a perna direita recostada à parede e um cigarro na mão esquerda – “se dane”.
A moça era Gislene, vinha feliz, sorrindo e correndo porque havia se distraído a semana toda, já não lembrava de sentir-se mal porque acabara de encontrar um amor, assim ela o chamava.
Trabalhava na firma da Concritude, onde as belas meias de algodão eram exportadas. O auxiliar Gusmão de nome reconhecido era intermediário quanto às façanhas aprontadas em horários de disfunção, cada um tinha um apelido e
Gusmão passava sempre a ser chamado de charlatão, por entregar quem se alimentava no expediente.
A moça conhecida, a tal de Gislene, há quatro dias estava namorando, havia descoberto a tampa da frigideira, dizia estar ausente de corpo, mas de alma era inteira. O rapaz, seu namorado, não sei o que dizer, pois não sei motivos, minhas relíquias de pensamento não absorvem tanto quanto pudesse abster de pecados, contraignorância supérflua, ao que diz é respeito e o que diz é um repito.
Lá do rapaz de cima, de cavanhaque a vida era inconstante, ele havia perdido o emprego há três horas e pensava no que faria para tratar das filhinhas de pequenas idades. O rapaz da farmácia perdera a namorada para outro em apenas duas horas, estava disposto a dar fim na vida, mas via que no outdoor de frente da calçada estagnava um aviso: Cuide bem do seu amor, seja quem e como for. Era a música dos Paralamas.
A identificação aconteceu à soberba, e sobrou espaço para o café da sesta.
Na Concritude tudo ia bem, Não pelo fato de as coisas serem todas concretas, mas, pela estagnação de cada membro que funcionava em braços lá dentro, o barulho da sirene pela manhã dava o aviso: “comecem!” No horário de almoço à ruaça, os funcionários saiam para pagarem suas contas e tirarem suas conversas da caixa presa. Uma da tarde, e ao fim desta tarde, outra buzina inacabada que parecia um trem, fim do expediente, todos saiam na melhor ora do capitalismo humano. Gislene com as companheiras e as companheiras também felizes.
 Na rua uma velhinha de mais ou menos oitenta e cinco anos pedia alguns trocados, quando recebia, logo respondia: “Deus abençoe”.
Na avenida Urbana um palhaço fazia malabaris, as crianças todas achavam aquilo impossível, por isso mesmo é que abriam tanto suas bocas. Os pais sentados no parquinho apenas conversavam sobre os futebóis e as novelas.
Atrás da esquina da panificadora tinha um senhor de guarda-chuva. O menino que passava junto a sua mãe dizia: “olha, olha mãe, é o Papai Noel”, e a mulher já lhe entregava uma palmada na orelha. O velhinho apenas se dava por louco e ia olhando até o fim da calçada, aonde quase fora atropelado por um ciclista que vinha de cima.
Mas Gusmão da fábrica também consegue esconder suas bolachinhas, apenas se dá por biruta, mas é mais esperto que muitos da Concritude. A salvação de cada indivíduo de lá é que as vendas vão bem, porque senão estaria tudo perdido como o trigo foi aos milênios de tempos na antiga Grécia.
O amor de Gislene é um homem honesto, acredito porque ela diz, e quando ela diz é porque acredito. Tudo o que uma mulher como ela diz é verdade, e caso seja mentira, tudo muda de lugar e torna-se verdade. Gislene é calma e abusiva, mas às vezes impaciente e atrativa, talvez esses sejam motivos para escrever qualquer coisa sobre uma pessoa como ela, que merece uma gratificação do fundo d’alma.
Na rua, no sábado, todos os seres humanos passam como se fossem à guerra, uns pisam nos pés dos outros, outros chutam a obra ditosa da caverna, as obras todas são constituídas de títulos, e os títulos reverenciados aos autores das respectivas. Ao fim de tarde, a mesma possibilidade de desventura da face incapacitada de supostos cidadãos.
Em quase anoitecer, passam uns pelos outros e não se reconhecem, ao final de mente em alma e corpo. Gislene se encontra com seu namorado Adalberto, que passam pelo cemitério São Joaquim e encontram um velório do homem que era encostado à farmácia e perdera sua namorada. Passam também pela rua Justina, na qual um homem chora junto a sua mulher e filhas, o de cavanhaque, berra e se agita, os armários estão todos vazios e não há comida nem emprego.
Ao finzinho deste mesmo dia, a sabiá e o canarinho da terra ainda cantam explorando o axioma da revelação da vida.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Uns e outros



Alguns param
Outros vão
Outros não
Uns até se importam
Outros não
Uns apóiam
Gritam
Festejam
Aplaudem
Beijam
Abraçam
Outros não
Outros relutam
Transmutam
Intermedeiam
Alguns sabem
Uns festejam
Pedalam
Sofrem
Outros não
Outros morrem
Alguns vivem
Uns e outros passam
Alguns ficam
Outros e alguns são
E uns não
Alguns nascem
Uns nascem
Outros nascem.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O Garoto perdido (baseado na história sobre Don Puz)


Eu não entendia direito o que ocorria. Quando adentrei na mata me deparei com a imagem mais robusta que poderia ver na vida.
Conta-se que há quase cem anos atrás um garoto chamado Don Puz saiu para pedalar com sua bike pela mata próxima de sua casa. Ao se deparar com tamanha natureza acabou se perdendo e, neste instante, encontrou uma caverna na qual entrou lentamente. Ali percebeu que havia mil criaturas místicas, homenzinhos coloridos que o chamavam pelo nome, porém, o garoto despercebido e contido por uma espécie de sonolência adormeceu tão logo que notou aquelas criaturas.
Não se sabe quanto tempo permaneceu ali, mas quando acordou estava nu, havia perdido suas roupas e sua bicicleta. No entanto, não notara mais os pequenos homens no local, apenas gotas de água que desandavam pelas rochas demoradamente. Puz levantou-se tímido de si, começou a caminhar tentando encontrar em algum lugar suas vestimentas e bicicleta. Não mais incomodado, gritava arduamente e do seu grito ressoava do outro lado apenas um eco líquido. Notou que estava sozinho ali.
Demorou algum tempo e depois de alguns instantes apareceu um vulto por destras de uma árvore espessa, Don Puz correra em sua direção, porém, o vulto evaporou de uma hora para outra. Na vila onde ele morava, muitos o chamavam, o procuravam, foram à polícia e nada, o pequeno garoto havia sumido de fato.
A mata era muito fechada e quando o menino acordou de seu profundo sono, estava ainda mais suja e escura. Muitos bichos viviam naquela região que por sua vez, era cortada por imenso rio negro.
As flores naquela época se abriram com mais compaixão, suas cores eram muito mais fortes e sensacionais. Presumivelmente, o céu iniciou precipitar-se em uma escuridão sólida e neutra ao mesmo tempo. O garoto Don Puz não conseguira nunca mais sair da mata.
Dizem as más línguas que ainda hoje, quando há ecos na mata ou qualquer barulho, ser a voz do garoto perdido. Ninguém consegue adentrar-se na floresta por ser perigosa e conter muitos precipícios.
O mito permanece tão vivo quanto as flores que ainda se abrem na estrada que leva às montanhas esverdeadas. O vilarejo onde Puz vivera tornou-se hoje uma grande cidade cortada por trânsitos, metrôs e prédios. Do trigésimo andar, no prédio mais alto da região se pode notar ao longe as montanhas e uma fumaça que delas evapora nos dias de frio. Dizem os executivos ser Don Puz a construir seu fogo diário para o café da manhã.
Juan, o homem mais velho da cidade que, inclusive viveu o seu crescimento, diz ter conhecido o garoto Puz. Também afirma, embora todos o achem louco, ter visto uma vez, quando entrou na mata sozinho, o garoto que já estava mais velho com barba muito grande e nu. Puz não o reconheceu naquele instante e tentou agredi-lo, no entanto, Juan correu até chegar a um local em que uma bicicleta encontrava-se penetrada totalmente por uma árvore. Ele afirma que a bicicleta era a mesma utilizada por Puz, e também afirma que o antigo garoto tornou-se parte da mata, muito mais que isso, é, hoje, o rei das montanhas esverdeadas. A grandiosa mata o absorveu como essência e hoje a lenda é tão viva quanto a história de Juan. 

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Se sou


Se sou tempo eu espaço
Me traço de verde
E outras vezes de sentimento.
Sou eterno momento
Eternamente alento
Sem contentamento
Mas, azul de mar e céu.

Se for eu mesmo quem
Almeja escrever entrelinhas
Me pinto de estrelas
Da mesma maneira que seria eu mesmo
Se fosse outro, quem saberá!

Se sou magia ou alegria
Não importa, menina,
Creia aqui só neste simples tempinho
Que leva horas pra acontecer.

Acredite que se sou eu
Sou eu por mim
e me levo a todo lugar
Me busco
Me desprendo
Me compreendo.
Se sou, sou sendo solto
Sem sentinelas.  
Sou, só isso. 

terça-feira, 12 de junho de 2012

Dia dos Namorados ou Dia de João Dória?




O dia amanhece frio e nostálgico. Coço a cabeça ao levantar-me da cama e lembro que é dia dos namorados e, infelizmente não estou perto de minha noiva, pois ela mora a certa distância.
Porém, ligo em seu celular logo cedo dizendo que a amo e que me sinto feliz ao seu lado.
Em seguida entro no facebook. É um sistema que foi automaticamente estragado por conta dos brasileiros que não souberam seu verdadeiro sentido, mas isso é outra história, preciso de foco. (“os facebookianos talvez, ao ler isto, me trarão um foco. Perderam completamente o sentido de semântica e pragmática”).
Outrora, aparecem e reaparecem infinitas mensagens de “eu te amo” daqui, “eu te amo dali”, “dou-te meu coração”, imagens absurdas e requerimentos apaixonados, logos de flores, recados com poeminhas (alguns feitos nas cochas, outros roubados sem citação e por incrível que pareça a namorada muitas vezes acha que foi o cara quem fez a coisa, isto é loucura).
No entanto, com estas palavras alusivas, quero apenas destacar que esta data tão importante aos namorados, noivos, casados, compadecidos, amantes e loucos foi criada pelo tão conhecido, assim como muitos filósofos de renome neste mundo, Comércio Paulista, nome e sobrenome. Foi adquirida por outras partes do Brasil para surtir o mesmo efeito do dia de São Valentim, que incentiva a troca de presente entre os apaixonados.
A origem do Dia dos Namorados encontra-se na Roma Antiga, por volta do séc. III. O Padre Valentim desobedeceu às obrigações junto ao imperador Cláudio II, o qual havia proibido o casamento durante as guerras crendo que os solteiros fossem melhores combatentes (Acho que deveriam fazer isso hoje com os jogadores de futebol, proibir mulheres e bebidas). No fim das contas descobriu-se que o padre continuava realizando casamentos às escondidas, recusou-se a renunciar o Cristianismo e como castigo, Valentim fora condenado à morte. Enquanto aguardava sua prisão no cárcere, apaixonou-se pela filha cega de um carcereiro, Asterius que, milagrosamente, devolveu-lhe a visão e escreveu-lhe uma carta na qual assinava: “seu namorado”.
Já no Brasil a história mudou poucamente, a data mais romântica do calendário surgiu, como prescrita, em São Paulo em 12 de junho de 1949, com o publicitário João Dória por conta das lojas Clipper. O sujeito realizou uma campanha para melhorar as vendas no mês de junho, contando com o apoio da confederação de comércio de São Paulo criou-se a frase: “Não é só de beijos que se prova o amor”. Escolheu-se o dia 12 por ser véspera de Santo Antônio e a partir desta data virou moda e passou a ser um dia comemorado pelos namorados e muito mais pelo comércio.
Agora quem me lê talvez diga com olhos vermelhos de raiva: “Que insensível, que homem desapaixonado”, mas não. Eu acredito nos dias dos namorados, assim como nos dias dos pais, pelos quais me refiro, são todos os dias. O comércio é uma podridão que eterniza e flagela a sociedade num todo. A midiocracia, a tecnologia, a informação emancipada são doenças incuráveis no Brasil.
E se minha noiva me lê, digo e repito incessantemente que a amo, mas que estas palavras repetidas nunca provarão nada como o farão os meus atos diante dela. O amor se prova com atos, com carinhos, com surpresas e relíquias. O amor se reinventa todos os dias. Refaz-se de milagres e tem por combustível o companheirismo, a saudade, a paixão. O melhor dia dos namorados é o estar junto e sentir o calor do outro. É se sensibilizar com pequenos atos e ter como fonte regeneradora: Deus.
Ingrid, minha noiva princesa. Queria passar o dia todo junto de você, porém, como o sistema capitalista me impede (preciso trabalhar e não sou rico, sou apenas parte do proletário) digo que te quero sempre, minha grande felicidade é te ver feliz e bem. Para você eu digo sim...

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Charla




Abichornado neste achego tipo um cusco
Eu me comparo a um flaquito.
Tímido e trôpego, hoje distante do taura
E saudoso da vacaria longa entre as guampas.

No parecer de um tempo entre invernadas
Eu me custo a dobrar a guaiaca
Para no fim de toda tarde saudar a linda prenda...
Mesma querela qual me alimenta
E me bota como taco.

Não sou de ludibriar minha querência
Ainda que o mal custe a deixar-se vencer
Sorvo meu mate amargo em uma porunga antiga
E desta vida aprendo aos poucos a me domar.

Quando me tombo embretado numa cincha velha
Não me assusta o maula.
Tchê! Digas por fim se tu te pareces a um maludo
E entras nesta minha quincha.

A china vestida agora és minha
Sobre o desvalido de minha lábia tão bem querida.
Cupincha, Se aprochega gaudério
Pois tua barbaridade não incomoda
Os meus quilombos.

Aqui se sente a água-de-cheiro do mato
Se abanque e escute o bugio velho que te fala,
Embora este mundo antigo esteja uma valha
Ainda vale uma daga...
Uma mesmice de minha charla.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Paixão esquiva




A noite tinha em seu teor um barulhinho de solidão e aproximava-se ao passo que Eulita caminhava em direção do freezer. Em seguida as baratas que atormentavam sua paciência e depois ela voltava em passos lentos para a cama da qual não saia há 25 horas.
Eulita na realidade fora apaixonada por Antonio, mas eles terminaram faz três dias, ele encontrou outra mulher, mais jovem, ardente e bonita.
As meninas amigas a visitavam, arrumavam seu quarto, davam comida e nada daquilo fazia a diferença. A ausência de Antonio era maior do que qualquer coisa no mundo, maior até mesmo que o mundo.
Depois do almoço vinha uma vertigem de coragem em sair da cama, contudo, o pensamento reflexivo naquele homem grande e forte chegava como tormenta e a declinava mais uma vez. A tímida menina esquivara-se da TV, rádio, livros dos quais nunca vivera sem, também deixava de comer e beber.
A coisa da paixão quando ataca de surpresa mesclada ao sofrimento quase mata, entretanto, em palavras simples, o “quase” mata muito mais do que a própria morte.
No mais, o tempo passara e nada mudou a opinião de Antonio nem a estrutura abalada de Eulita.
Dia desses, quando ela estava no parque a caminhar com seu cãozinho, encontra o ex de mãos dadas com uma piriguete. Fecha os olhos, ele vem ao longe, ela segura mais firme o cordão que segura o cão, serra os dentes com espaços de amargura e solidão, sem compaixão se aproxima cada vez mais, enquanto o casal não a nota, apenas sorriem um ao outro como dois apaixonados, assim como ele um dia fez para Eulita, fazia neste momento para outra sem moral e, quando encontraram-se, ela acusou apenas uma renúncia esperançosa, enrolados num silêncio fraco circundando o lago do parque. Em seguida ele teve remorsos, pois notou que ela estava linda demais, olhou para trás enquanto já estava sentada num banco vazio a notar o lago imenso. E o lago era ela, vazio, e a esperança cheia de contágios e era frenética a loucura da paixão.
Chegara mais uma noite e Eulita estava novamente na cama a lembrar do seu dia, do rosto daquele homem pelo qual fora apaixonada. Mas, ainda estava apaixonada e mentia a si mesma. Enganava-se, sobretudo, às escondidas. Havia um combate indestrutível entre razão e coração, no qual o segundo sempre vencia e sua felicidade permanecia distante.
Um novo dia amanhece com novas vidas e novos pensamentos. O telefone de Eulita toca até parar, ela ainda deitada um pouco sonâmbula não lembra de nada. O telefone começa mais uma vez e ela sai da cama, ao atender ouve a tão conhecida voz:
- Alô, Lita?
- Oi, é você?
- Sim, sou.
- O que você quer?
- Eu quero te ver...
A ligação cai, ou ela desliga. Encontram-se por ordem do destino ao fim da tarde no mercado municipal. Beijam-se e se abraçam como dois apaixonados. 
No outro dia ele se casa com a antiga namorada e ela, a Eulita, volta à sua cama debaixo de cobertas grossas e úmidas. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

De nihilo nihil




Era uma música que ia diminuindo aos poucos enquanto eu permanecia sentado no divã. Barba crescida, cabelos longos e uma xícara de chá na mão direita, com a esquerda segurando o pires que reluzia pela janela numa fria noite.
O disco se remexia na vitrola e eu notava que lá fora, além do gelo havia uma garoa fina e dispersa. Depois disso, ouvi crianças no parque, da mesma forma; um som que aos poucos ia diminuindo, um tom simples e longe, mas, eu, quase nulo fui diminuindo porque eram só memórias. E destas memórias sólidas guardadas em mim eu conseguia perceber que eram como uma virtude, pois me faziam feliz. Aquilo me tornava um homem-menino.
Reiniciava outra melodia, doce e fugaz como as outras, como a vida, mas sem despedidas. Apenas o reflexo dos carros que passavam em frete à minha rua davam um ar cinematográfico ao meu estar daquele momento único. Outro chá e, solitário, meio apreensivo dediquei-me a reler as capas dos discos. E, aos poucos, em cada nova oportunidade relia cartas, pequenos paraísos da existência, depois os acordes antigos de uma música sem fim, apenas um estágio. Em seguida compreendia caladamente os gritos das crianças do parque que diminuíam. A voz na canção também se apagava de vez em quando, tudo era um plano de fundo ao meu instante. Talvez fosse o mais perfeito possível, quem sabe?
O ser - humano, irrequieto, reflexivo faz de sua vida uma paisagem com naturezas vivas, prédios e sons, cheiros e tédios, depois medos e beijos, porque ele, o ser é uma cópia de si, ainda que se mude perpetuamente quem saberá por que razão, o homem ignora a sua natureza e se veste de uma roupa semelhante porém, que lhe serve de metáfora e não condiz com sua índole, muitas vezes.
E no delírio em que eu me encontrava não conseguia diferenciar um gesto de um abrigo. O perigo por perto, uma luz que aparecesse de verdade. No entanto, ainda como humilde garoto, sem saber as razões pelas quais me ausentava de tudo, eu continuava na solidão que me envolvia de lembranças doces, estas que me colocavam em um âmago da alegria, e a imagem ao falar destas palavras é a mais bela possível, uma imagem de entardecer de inverno, com um céu alaranjado embalsamado numa penumbra de sonhos com semelhanças de Deus.
Acreditei, enfim, que a noite acabaria, assim como o medo e o sofrimento. Apenas as imagens não se ausentariam porque a memória é a nossa vida numa lata de filme antigo que às vezes reaparece distante e outras vezes próxima demais que acabamos por quase acreditar que o passado é presente. Contudo, entre tantas razões escondidas, o presente somente existe porque existiu um passado e haverá de existir um futuro, a semelhança entre estes tempos são as coisas que fazemos ou deixamos de fazer, porque no fim teremos motivos para agradecer ou só lembrar de forma um pouco triste.
Retomava o chá na outra mão e o frio continuado, em timbre de solo, o disco a parar aos poucos e as vozes das crianças do parque sumidas. E eu era um novo homem por causa do passado e o passado me escondia entre cortinas de um palco de teatro, todos os atos se passavam ao vivo e eu, parecendo-me a um protagonista, devia ter vivido com mais intensidade aqueles tempos de paz. As coisas reapareciam na cabeça, enquanto as estrelas se faziam mais presentes. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Imagem




A imagem fica mais próxima ao passo que me distraio das coisas reais do mundo. Aumento o zoom da paisagem e vejo o fundo dos olhos, da boca e os brincos em formatos celestiais. O meu sono aumenta e tudo o que vejo me alimenta de forma abundante.
Já estou inteiro no trânsito. Flutuo mediante as provocações de outros automóveis que me irritam e absorvem de mim todo o meu conteúdo. Fico vazio e já não tenho paz. Eu sempre digo que o ser - humano é como uma flor de jardim, deve se render aos encantos e proezas de que a vida lhe impõe, do contrário, sua sobrevivência corre sérios riscos.
Ligo o computador, já em casa novamente, coloco a mesma imagem e me nutro. Meu quarto vazio e escuro me deixa a vontade. A luz do computador restringe os meus olhos a ver outras partes do ambiente mudo, reflete sobre o espelho que parte de trás da porta e dá de frente ao cesto de roupas sujas.
Já não tenho coragem de contar quantas vezes faço a mesma coisa. Eu não sou fácil de lidar. Incomodo-me com a logística das coisas. Até a pizza demora quando eu peço com urgência. No entanto, a foto é o meu alimento. A única foto estimada e dilacerante quando por trás do mar, à espreita de um verso nulo e branco, fugaz, quem sabe me interpreta nostálgica.
Corro em direção ao mar, mas é maior do que eu o propósito de me ver assim. Fujo constantemente dos prejuízos da natureza. Embora eu faça parte dessa natureza, ainda tenho remorsos em guardar segredos. Ou melhor, quem vai me dizer o que fazer da vida?
Uma nuvem cruza o céu em alta velocidade. Frequência máxima. Estou absorto a observá-la quando de súbito uma moto quase me pega. Enlouqueço quieto e resplandeço. Nasço mais uma vez e tenho mais vidas do que imaginava. Tenho mais sorte do que juízo.
Mais uma vez estou em casa. Ligo o computador e a mesma imagem se mostra aos meus olhos. Uma imagem em baixa resolução. Uma imagem flácida. Não ligo a TV nem o rádio. Não leio nem penso. Apenas a imagem fixa de sei lá o que. Uma obra apenas, apesar da insistência, o zoom não resolve nada, reproduz um esmorecimento de dados aleatórios. Sem leitura de arquivos.
Minha ausência acomete-se em perturbar-me. Ainda assim digo infeliz que sou feliz e tudo, ou quase tudo na vida não passa de uma passagem, uma arquitetônica promessa que se resume na foto, na imagem do computador, agora como plano de fundo na tela. Sem mensagem, sem palavras. Apenas o indigesto, a vontade, a lembrança e a dor. Como em versos de jazz, já dizia Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Nada muda no mundo enquanto não se muda a si próprio. E a imagem se faz novamente em meu plano de vida.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Brutal



Não me deixe assim tão só
Não me cale
Minha boca ora condiz ditas
E outrora não diz nada.
Não me convença
Me deixe
Porque quem abrirá o lar
Um estranho lar
Sem poesia seria um imenso
Vapor à luz do dia.
Mas, sem rima nem tanto.
Me abrigue no deserto
Dos teus sonhos.
Sonhos impossíveis
E te ponho na poesia
Inimaginável.
Te curo da tosse
E da luz que te fere.
Fica escuro
E mesmo assim eu canto.
Faz frio na alma
Eu canto.
A cifra do título
E uma canção de miséria
A qualquer canto.
Sutilezas
Tristezas
Esperanças
E certezas
(...)
Tudo em vão se a coragem
Não habita o corpo.
Mente
Ou finge.
Sonhe contigo
Em terceira pessoa
E acordará, quem sabe,
Suada e com febre.
Contudo, uma febre louca
Se espandirá
E acordará a vila
Os peixes do mar.
Não me deixe assim tão no pó
Amiúde uma escolta de amor
Apareça aos poucos
E eu me sinta melhor.
Pois o amor
Esta palavra humilde
Representa uma pintura
O de tanta aventura
Tanta censura
Eu obedeça os atos.
Três, dois, um
Quem saberá?
Uma música persiste
Brutalmente da cabeça.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Palavras




Devo dizer-lhe que não vou chorar. Embora eu pense todos os dias em você, ausentarei minhas lágrimas e as trocarei pelo brejo que se faz no meu peito. Brejo convalescente que permite ausentar os meus tédios e faz com que reapareça em mim o desejo. Mal desejo de te esquecer perpetuamente. Do que se faz impossível na minha alma, então eu canto. Retiro, em seguida, a maquiagem com demaquilante misturado com um choro robusto, líquido inflamável. Retiro meu vestido mais lindo e nua eu reinicio meus dados prediletos. Eu devo em poucos minutos cerrar minhas lágrimas, mas eu não sou dona de mim e isto me aflige demais.
A gente se desespera quando não se tem controle sobre os pensamentos. A gente peca sem querer e este pecado, lavado e recebido eu sei lá se funciona. Mas devo dizer que não vou lhe dar nem sequer um beijo curto, destes de despedida porque a minha vida está abstantemente abatida.
Devo manter a compostura para não sair do ritmo e nem descer do salto, sou mulher e meu útero me abriga. Não sou mãe. Sou filha. Sou em seguida uma pilha de nervos de aço.
E os nostálgicos enganos, os planos incertos, e aquele homem de camisa amarela? E aquela figura que me espera? Nada espera, a chuva me inspira. Não sei de onde tiro tantas asneiras. Bolino meu celular, depois o I-pod. Nada se sente em um dia sem sol.
Ligo no ramal 217, só chama. Passo o dia inteiro a observar o trânsito da avenida que me nutre, me abastece e me deixa a pensar em meu destino. O destino é uma surpresa, ainda que isso seja pleonasmo, oras, que se repita dez mil vezes.
E se tenho tanto tempo para lhe desejar palavras; o que são palavras senão um trânsito encardido como o da Marginal Tietê? Palavras não são atos, são palavras, por isso iludem e se contemplam por si só e nada mais. Os atos feitos, estes jamais serão esquecidos porque ficam corrompidos e estilhaçados no inconsciente. E a memória por vezes se reveste de uma seda, de pequenos flashes que fazem com que lembremos de coisas mútuas instantaneamente.
Minha alegria se congestiona. Perdi meu maiô. Fico sem graça. Não bebo nem fumo. Já não rio à toa. Mas mesmo assim não me perco de mim. Sou tão sóbria que me aconchego na cozinha quentinha em dias de inverno. Tento o ramal e nada. Atento a lua. Vou-me embora a qualquer lugar. Não me iludo, porém, eu sei que ao dizer esta frase engano-me ou me esqueço, me perdoe, eu sou humana.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Hoje ontem




Hoje acordei ontem
Amanhã serei eterno
Escrito num caderno
De páginas em branco.

Amanhã levantei hoje
Com cara de ontem
Mal lavado feito anteontem
Quase me bati com a semana que passou.

Hoje, dormi ontem
Com planos para amanhã,
Levantei agora, de manhã
E estava com tempo demais.

Depois de amanhã
Acordei hoje tarde
Quase noite dormi cedo
E despedi-me ontem.

O relógio toca:
Agora que chegou
Minha hora chegou
Não demora, chegou
Oras! Chegou.

O sorriso de ontem
Dormiu cedo;
Acordou tristeza de madrugada
E sonâmbulo hoje.
Iniciou um riso gratuito para amanhã,
Num espetáculo incrível
De velocidades, agora ou nunca mais.
Ontem, semana que passou
E amanhã, deixa comigo que consigo.