Tempo de primavera quando as flores começam a aparecer. O
cheiro que aumenta no ar é de liberdade, a natureza em sua coragem em dizer o
que pensa. E é assim o tempo inteiro durante o dia. Quando chega a noite a
coisa aumenta, a lua em sua imensidão diz boa noite em tom singelo.
Eu caminho pela madrugada, ando uma distância incrível até
chegar ao Rio Açude. Lá me escondo por entre arbustos e resolvo me visitar.
Chego a pensar que deliro mas, no fundo, a coisa é outra. Encontro-me de frente
com uma donzela de cabelos reluzentes, olhos que brilham como estrelas e um
jeito de musa. Aproximo-me para de fato saber se é real ou ilusão. Ao passo em
que penso que talvez tudo aquilo seja uma confusão porque até poucos minutos
atrás eu estava sozinho no silêncio da mata.
O cheiro me abastece de uma alegria imensurável, e de pouco
em pouco a figura daquela mulher some sobre o rio. A fantasmagoria de minha
cabeça criou uma vida inteira para depois, no silêncio, não abstrair nada ao
mundo material.
Desço uma barranca em passos largos até chegar a uma balsa velha de cor azul.
Ligo seu motor e fujo sem rumo. Em pouquíssimos instantes me deparo com
pescadores na barragem, olham-me de viés e tropicam algumas palavras:
- O que foi? Está perdido?
Eu, ainda inconsciente, ébrio respondo que não.
- Cara maluco – ouço vozes baixas e me vou aos poucos rio
acima.
Chego a uma tribo de pessoas que não me reconhecem, mas, sou
parte deles. Em tempo de segundos começam a me perseguir, falta-me fôlego,
falta-me voz e força. Na hora em que esparramo coisas sobre o chão para se ter
alguma saída os meus olhos se abrem. Tudo não passou de um sonho. Vou até a
cozinha rapidamente, ligo a TV e no mesmo instante sinto um cheiro de primavera
e novas perspectivas reaparecem na rua.

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