quinta-feira, 22 de março de 2012

Presença


Não tire o peso todo da cabeça,
Deixe um pouco para a tarde.
Não mude de destino,
Não me deixe assim sem rumo.
Não se arrependa dos pensamentos,
Arrependa-se dos pecados,
Os mais instantes bem lavados.
Não aprenda nem se queixe,
Deixe a porta aberta
Para na hora de voltar
Surrupiar o vento sobre os teus cabelos.
Não me beije intensamente
Nem se aflija em minha presença.
Sou às vezes ausência
E quermesse, até parece, sou rosa.
Não esfregue tanto as lágrimas,
Não chore nem ria,
Não me repreenda,
Surpreenda-se e confie,
Na hora certa vale à pena.
Qualquer pena qualquer cena.
Agora não me leve a mal não, mas eu sou só um poeta
Arquiteto sem ritmo sem freio,
Um ponto extremo
Quem sabe, talvez, presença. 

O Amor antigo


O Amor Antigo
         Carlos Drummond de Andrade
O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Ventura



             O ônibus partiria às seis da manhã, eu estava pronto para me ausentar. Minha filha choramingava em pensar na minha falta, eu dizia que seria por pouco tempo, nunca para sempre, tirasse besteiras da cabeça.  
            Agora já era momento de tomar o ônibus sentido ao aeroporto, bagagem pesada, nas mãos um bulbilho de chinelas e roupas íntimas. Ia notando aos poucos minha eterna filha a desaparecer entre as cabeças de milhares de pessoas daquele local, sua mão estatelada ao ar a se despedir de mim.
            Quando encontrei minha poltrona, ao lado direito já havia um senhor, que por grande curiosidade lhe tentei perceber o rosto, porém, sem êxito, tinha grande barba, cabelos longos em alto estilo, lhe pedi licença e me sentei. Ouvia neste momento meu fone de ouvido, coisa pela qual não fico sem nos tempos modernos. Depois não parava de me incomodar, qualquer gesto, qualquer silêncio ou barulho me causavam náuseas. O ronco estridente das turbinas liquefeitas do avião me mandava ao inferno.
            Quando comecei a encontrar o sono já era hora de olhar para fora da janela e perceber a nudez do mundo, a belíssima fuga que eu tivera nas mãos e segurei para nunca me escapar, neste momento cruzávamos pelo atlântico em curvas pesadas e nuvens carregadas de solidão e tristezas. Foi neste instante que o senhor a meu lado, sem notar qualquer posição em meu favor, me enfiou interrogativas na cabeça com algumas palavras fora de posição:
 - What do you do?
            Eu nunca compreendera direito o Inglês, aquilo me deixava ainda mais ansioso em não saber o que responder ou perguntar ao sujeito do lado. Avermelhei-me, tive vergonha, tive anseio em responder qualquer coisa que não desse certo, como por exemplo: “the book on the table” ou coisa parecida, já que era quase tudo o que eu sabia desta língua.
            Ele, agora olhando através do canto dos óculos para a janela me referenciou mais uma vez a palavra, que vinha como dinamite em minha mente sem produzir qualquer significado semântico, ausência total de pragmatismo, o que me restava era saber qual time ele torcia, mas como perguntar algo tão difícil, a única coisa que me lembrava era que futebol significa “soccer”, mas e o resto? Eu estava perdido. Era vergonhoso e sem nexo eu ficar ali, pedi licença com alguma educação retirada da alma, mais ou menos: “excuse-me” e fui até o WC, lá eu cuspi sem parar, lavei meu rosto e provoquei minhas necessidades até dar fim ao líquido da bexiga.
            Voltei assombrado a fazer cara de nojo e pobreza, o velho havia dormido, ou apenas fingia sonolência. O silêncio tornou-se súbito, imaginário e retroativo, a cada silêncio que eu enviava para os cantos da nave, ele retornava a mim cheio de nervosismos, com mil motivos para pedir para pular daquilo, mas eu não podia.
             Distante, muito distante dali, ouvi algum choro de bebê, uma criança berrava com tédio, com raiva e com aspereza, não havia sensibilidade naquilo nem em mim. Continuei calado, a única coisa que ouvi após o pranto da criança foram lições de moral dos pais, em língua que também desconheci, se fosse chutar diria que aquilo seria russo.
            Olhei de canto para o fundo do avião, uma aeromoça servia café a dois senhores de terno, agradeciam com uma língua que nunca ouvi na vida, e se ouvi, foi em algum programa de TV, destes japoneses que começam a falar e parecem ter uma batata quente na boca. 
            Continuei afoito, com sono e com tédio, meu maior medo seria o velho novamente acordar e perguntar qual minha orientação sexual, ou minha data de nascimento, o que eu responderia? Mas nada, ele começava um ronco nítido e diminuto, se comportava a ponto de eu não precisar me interferir no pensamento, apenas descansar de nada cansado, refletir e me sintonizar em outro momento, outro tempo, outro mundo.
            Meu nome agora passaria a ser “Luta da vitória”, o último dos sete. Fui convidado a exercer o primeiro cargo de professor de Literatura e Cultura a uma sala de Médio Ensino na Europa, mais especificamente, na Áustria, e é lógico, acompanhado de um tradutor. O avião pousou normalmente, apenas um pequeno susto e depois estava a sair daquele ambiente quase catastrófico. O senhor que esteve a meu lado olhou para trás, em minha direção, fez cara de desgostoso, abriu um sorriso ligeiro e soltou um longo e nutriente “bye bye”, notei com precaução a modéstia e manipulei a escapatória, estava em outra direção, estava eu na República da Áustria.

“MIT VEREINTEN KRÄFTEN”

            Eu, imposto a ordens nada exemplares no ambiente onde foi capital do antigo império dos Habsburgo, detido na Áustria para viver de forma inimaginável, deslocado em uma plataforma de pensamentos quase zerados, se não, estarrecido de informações incompletas e distantes. Aos poucos me habituo.
            Encontrei o hotel Liek, ficava a poucos metros do principal teatro da cidade, contente me tive com esta surpresa, já que havia trocado minhas notas de real pelo euro brilhante e encorpado.
            A conhecer o primeiro dia com sol ofuscante após o café da manhã, detive-me a pensar – sentado no banco de uma praça – em novas figuras, novo ambiente e novas mulheres, a ponto de me retirar inconscientemente dali e partir em busca de prazer.
            Nada encontrei, a não ser senhorinhas a caminhar pelas calçadas disciplinadas paralelamente com seus cães de guarda. Depois da longa e triste caminhada, estava eu na Grossglockner, uma montanha de quase quatro mil metros de altitude, a observar a beleza ao longe do Danúbio se dispersando entre poemas e rosas.
            Conheci Anne Lisa, por sorte falava pouco o português, eu entendia parte do que ela suscitava em palavras, mas manipulava minha mente, distorcia minha imaginação e através de cada sorriso que saia de sua boca, eu entendia palavra por palavra do que dizia, apenas não me amava. Ainda.
            Debaixo à Águia Dourada do ermo sonho de uma noite que viria, convidei Anne para sair, ela consentiu, disse que poderia, mas com uma condição, não precisei perguntar qual, foi logo esclarecendo: “ajudo nas despesas”. Sorrisos, jantar à luz de velas, música clássica barroca e motel. Neste momento estávamos no mais venturoso motel da cidade, em um amplo espaço que se considera um ginásio de esportes no Brasil, sem banheira, mas inteiro em forma de rubi, luzes naturais, silêncio e amor.
            Fizemos o que devíamos, ou melhor, despi Anne aos poucos até ela sentir o meu desejo de brasileiro, eu natural da gema, ela austríaca da corte, da nata européia, a emancipação se deu como imaginava, os dois prontos em um só corpo formando um único instrumento a serviço do prazer e sem razão. Anne era mais velha do que eu, e por incrível que pareça, não mais a vi, nem na Áustria nem no inferno.
            Hoje, ao lembrar do Danúbio em forma personificada, lembro de Lisa, lábios lisos com batom vermelho, maquiada e dispersa nua sobre a cama. Acordo e abro a porta com má vontade, é o jornaleiro. Agradeço e ele se despede. Tchau.
            Ligo a TV em médio volume, obedeço minhas mãos que vão até a cigarreira e trazem até os lábios um doce charuto cor vinho, produzido a três quilômetros daqui, trago-o até a última dose, bebo o café requentado do fogão e desligo a TV, vou para o jornal, compreendo a língua, também, é para tanto, querendo ou não, são sete anos de vida nova.
            Se não informei antes, foi por falta de tempo, agora sou bem casado com Catarina, uma loira de belos quadris que me perturba todos os dias, trabalha na redação do Times and Times International, tem boa memória, ótima conduta e me trata bem, temos um filho, chama-se o garoto por Pedro Vinícius. Pedro é risonho, mas briguento, sabe a língua melhor do que eu, sempre contei meu segredo tanto a Catarina quanto a Pedro sobre minha filha no Brasil, porém, até hoje não entrei em contato, não sei por onde anda.
            Faço amor em duas línguas, dizem a emoção e prazer serem maiores, acredito nisso. Catarina me enlouquece e Pedro me amanhece todos os dias por volta das seis da manhã.
            Ontem cheguei tarde em casa, perdi o ônibus que me trás da Universidade, percebi o desastre e para maior auxílio, passei no Boehm beber cerveja, encontrei três prostitutas e um cão a me olharem ressabiados, conversei torto e me despedi. Tchau.
            Nesta época começava o Festival Operatta Morbisch, verão gelado que fui passar em Salzburgo. Encontrei uma amante, coisa rara em brasileiro no estrangeiro. Encontrei-me com Angelita, mulher fogosa e solene, belos tics e palavreados, parecia artista de cinema. Com ela tive aulas sobre A arte contemporânea do sexo oposto, o redescobrimento de mim mesmo. Aprendi a esquecer angústias e estresses. Mantive este relacionamento até Catarina descobrir e me esquecer.
            Neste ínterim a vida se passou, ou eu passei pela vida. Acredito que estas interrogações me levem a refletir num tom filosófico, isso me desanima. Nada passou.
            Não conto quem sou, apenas quem fui. Sou contra ao lema de meu Estado, no meu caso, eu solitário faço a força.  
            Engravidei Angelita, a mulher grande, ou a grande mulher com pêlos robustos. Não acreditei e nunca a vi depois de tal acontecido. Numa coisa confio e boto fé: em meus espermas, estes nunca me deixaram na mão, plantei sementes em cada canto do mundo, sou dotado de anfitriões descendentes.
            Ao bater de frente com a cara enorme de um sujeito sem nome no bloco debaixo da Universidade, por volta de meio dia, pedi desculpas formalmente, ele sorriu de forma sarcástica e ignorava meus passos, onde eu tentava fugir, ele seguia-me pelos olhos delgados, perguntei o que havia, em resposta, me veio um cuspe quente e inoportuno dentro do olho esquerdo. Saiu correndo e tomou o primeiro ônibus da esquina, ainda me olhava como que a falar baixinho: “idiota”. Limpei os vermes de minha face e me pus a ir até o ponto, estava tudo em ordem.
            Mantenho-me carente e careta. Tenho poucos amigos e os que tenho, faço miúras para não haver muita conversa fiada, sou a favor da pouca intimidade, sou pouco grosseiro, mas dentro da ordem.
            Ao deitar-me durante a noite, estava eu a refletir sobre o acontecimento do cuspe, não acreditava no que acontecera. Aquilo era fora do comum, havia eu feito algo ao cara redonda? Contei carneiros, levantei-me da cama em passos firmes, bebi uma cachaça amarga e voltei, dormi sem pesadelos.
            Outro dia amanhece, acordo prejudicado pela enxaqueca, levo comprimidos à boca, os quais com muito custo engulo. Passo a diante e vou-me ao trabalho.
            Dia de simpósio internacional em Veneza, na Itália, tomo o avião das dez horas, encontro-me ao lado de uma moça chamada Deisi. Sei o nome porque perguntei antes de sentar-me, ela respondeu-me com intimidade. Notei os lábios grossos a sorrirem e pelas tantas estávamos em beijos loucos e soltos, eu sem cinto, ela sem blusa, silêncio na avenida. “Sinto muito senhores, mas aqui exige-se respeito”, veio o sotaque enfurecido de uma alemã de dois metros de altura. Deisi sorriu novamente com o canto dos lábios, aquilo me enfurecia, notei a pressão da aeromoça e os olhares malvados de uma inteira tripulação, não era o dia do amor. Os deuses me perdoem.
            Em Veneza fui ao simpósio, Deisi para a casa da mãe, a passeio. A despedida foi triste e amorosa, num motel perto do aeroporto da cidade, passamos três horas de puro prazer.
            No simpósio estava eu lúcido até demais, aquilo havia me suscitado um frenesi descompassado. Estava solto.
            Literatura e Cultura na Contemporaneidade. Ganhei muito dinheiro com estas palestras, sabia tudo de cabo a rabo, nada me faltava, nem bel prazer, nem dinheiro, mas cansei desta vida. Aposentei-me. Depois de alguns meses, Deisi ligou com voz de choro, enigmática e com sotaque afrodisíaco para criar charme, dizendo que estava a esperar um filho meu. Desliguei o celular, no outro dia, comprei um novo.
            A Europa é grande por demais. Nesta época eu me sinto um Osama Bin Laden, todos me procuram, ninguém me acha. Deixei a barba crescer, cabelo grisalho em forma de erudito, e óculos de pouco grau para a ventura de estudos. Ninguém me condena, ninguém tem força em me condenar.
            A UNIÃO FAZ A FORÇA – e, eu comigo mesmo, sou a potência de dois mundos, o flagelado perdido e esquecido, e o de grau elevado, aturdido e invencível, a nova profecia se faz presente.
            Olhei-me no espelho – a alma desconfia de quem eu seja.  Minha sombra não me persegue mais, agora, tenho outra sombra, tediosa e nebulosa. Acredito que a desconfiança em tudo leve-me a crer que acredito em quase tudo. Meu nome é esquecido. Sou cidadão homérico com direito a medalhas e tudo.
            Sou escolhido a dedo. Brasileiro desbrasileirado. Austríaco de sangue e ventre. Fiel a tudo e a todos que me acompanham. Ia me esquecendo, sou chamado a fazer parte da Academia de Literatura dos Pensadores Contemporâneos. Não faço ideia em qual ensejo me leve isto, mas parto ao Brasil, a terra desconhecida.
            Como se fala português? Como me remeto a um termo? Como sou brasileiro?
            Eram perguntas que me deixavam sem respostas, acometi em andar pelas praças de maior movimento, até que a noite caiu, silenciosa e distante, fui bater caxeta no Bar do Anísio, um novo conhecido da Boemia Curitibana, e, para grande espanto e tédio, bato-me novamente de frente com a cara gorducha do mesmo rapaz da Áustria, o assombroso e verruguento, sorri sem mérito, a seu lado uma mulher com dois filhos de média idade, dentro do bar os dois a beberem, os filhos asmáticos brincam de olhares cruzados.  
            A mulher parece minha filha, a qual tive no país em que nasci, agora relembro, e o rapaz sai de seu lado, vem e cospe-me novamente, desta vez, do lado direito. Agradeço o atendimento de Anísio, despeço-me e saio porta afora sem acreditar naquilo. Um pesadelo se faz de vitorioso. Ouço folk-blue pelo rádio em mais de cem MHz.
            Desconfio da fumaça de meu cigarro, agradeço à bebida que me consome, desiludo-me de maneira espantosa e deito-me sobre a cama, sozinho e silencioso, apenas um sonho vem vindo de espanto me atormentar, uma infeliz a dizer “estou esperando um filho seu” e pensamentos cruzados a se incorporarem no meu plano de vida: “Literatura, Cultura e Contemporaneidade”, eis a ilusão da vida tenra.
            Sobrepujo meu travesseiro, o bojo liquefeito da apreciação de minha mais inocente idade, a idade que o ser se descobre de imediato, a hora do espanto e da queda. Repugno-me, refugio meus olhares para lugar eterno, sou direcionado ao cruzamento da João Faria com o Atendimento ao Cliente da 29 de março. Estou a alcançar o inverno da vida em diante, minha terapia começa as dez da matina.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Monólogo de um bêbado



Luz, câmera, ação!

Sou um titã. Ando armado. E não interfira o meu caminho, morou brother? Eu estou caído, sim, caído estou, mas, minhas palavras ainda exprimem parte de minha vida que é transeunte e polêmica aos olhos das velhinhas virgens que frequentam a igreja nas quintas à tarde. Não! Eu não sou nenhum abestalhado sem compromisso com uma sociedade indisposta em ajudar os mais necessitados porque eu, simplesmente ontem era um homem poderoso e rico e hoje aqui estou à navalha de uma agonia pobre e fedida. Não há do que temer, não tenho mulher nem filhos, não tenho sorrisos nem destino, vivo enclausurado, preso por dentro e meu aperto que sofre às vezes um coração dolorido cheio de mágoas em ver tanta diferença social pelas ruas. Aos mais ricos eu não existo, aos mais pobres sou um pedaço de carne e aos miseráveis como eu, chamam-me por poeta.
Não me identifico por nome, mas pela coragem em desistir de tudo para seguir uma vida emaranhada de conflitos e perturbações. E se creio em Deus sou parte de um sistema, no entanto, não deste sistema banal criado pelas pessoas, mas da minha religião sob a qual sigo dispostamente e feliz com uma alma ainda com esperanças e fé.
Compraram minha liberdade. Vendi a preço de banana. Sou despedido do trabalho e saio em passos curtos em direção a um lugar que não existo. Bebo uma dose de vodka, outras mais, o garçom me abastece de um álcool infeliz como eu. Não tenho notícias de mim mesmo, perdoe-me pelas minhas falhas. Na esquina recebo alguns trocados. As pessoas passam apuradas, transtornadas e cheias de mágoas. Arrebentam-se os semáforos retrógrados e iguais. Alguns ainda me olham distorcidos e tímidos, dá a entender que às vezes pensam que têm culpa sobre o meu estado. E no fundo, têm.
Discordo de suas palavras, caro governador. Ontem te ouvi no rádio da banca de jornal. O senhor ainda pensa que o Estado é um prodígio, levanta seu tom de voz como se fosse prometer o mundo, os seus projetos estão equivocados. Deveria, antes de qualquer coisa, dar mais atenção à educação dos jovens e saúde de nossos cidadãos. Por que pensar tanto em copa do mundo, em receber estrangeiros que não se importam conosco? Por que nós não nos importamos conosco? Estou exausto, preciso deitar-me agora nesta calçada. Com licença.

Fecham-se as cortinas!

Abrem-se as cortinas!

(Na passeata, em greve por melhores salários aos profissionais da educação)

Estou há alguns dias com incertezas prolíferas sobre o futuro desta nação. Nada vai dar certo se antes de qualquer coisa não nos mudarmos interiormente. Cansei-me de esbaforir palavras sólidas de minha boca. De agora em diante, como professor e servente, direi apenas o básico. Transformar uma nação é trabalho para poucos, banalizá-la, até os sinceros o fazem. Portanto, senhoras e senhores, prestem atenção no que eu vou dizer. Se amanhã não entrar nova liminar e se nós, profissionais continuarmos agindo de maneira supérflua e inútil, o país sofrerá grande queda no nosso maior patrimônio, o conhecimento.
O governo mais uma vez prova que está influenciado por grande dosagem de engano e precisamos nós, como bons cidadãos, apresentar projetos futuros para uma futura nação. O governo, senhores, é plural, ele é sistemático e persuade-nos facilmente. Porém, em sua casa às escondidas diz que conseguiu dominar-nos mais uma vez como em tantos anos.
Peguemos nossas armas e sigamos. Vamos em frente lutar por um país melhor e mais justo para com todas as pessoas. Obrigado. Não há aplausos.

(O governo em casa):
- Este cara pirou de vez. Isso é dialética de bêbado.

(Um tiro ecoa no palácio)

Fecham-se as cortinas.

FIM.



quinta-feira, 8 de março de 2012

O poço da eterna salvação




            Malécia pelo nome já não presta, começando do mal, sempre é de se divertir com a cara dos outros, zomba e desfruta da própria existência.
Acordada às seis da manhã, seus filhos todos morreram na guerra do cartucho, um voltou sem braços e esgoelou-se no pessegueiro, o outro voltou dentro das botas e sem bucho, a mulher apenas conferiu a mercadoria e despachou ao cemitério dos cachorros e das malárias.
Lá do outro lado da rua mora dona Zionora, a mulher mais faceira do bairro, mas sempre que se esconde em seu barraco começa a chorar, uns dizem que ela é a pessoa mais biruta da terra, outros, que ela vira lobisomem, e outros ainda tem a preeminência de dizer que a velha é rei do facão, joga para os dois lados e que não escolhe patrão, isso fica à consideração de cada esquisitice.
Juntando as duas num balde dá chimarrão e conversa fiada, Malécia pelo mal que faz e Zionora por chorar por trás, vivem sem rima, não pelo conto mas por estarem sempre acima, má, Malécia fofoca da vida de Jordão, não do rio mas do filho de seu João, rapaz que vive caindo de bêbado e esquece o próprio nome, tomba nas lombadas e esfrega o queixo no asfalto, e noutro dia está lá ele, na farmácia de seu Pedro, pedindo chá com limão, isso não te faz nada querido, “toma caipira e caia, seu vagabundo de uma figa”, não que o diga de frente, mas por costas é outro caso, ninguém mesmo liga, não é?
Zionora alegre e sorridente confirma que no próximo sábado tem bingo, lá irão as duas maladeiras conchavadas de braços pendurados e com as mãos na boca ao focar o filho da Creuza louca e dizerem: “meu Deus, meu Santo, repente não digo, louca! Olha que pedaço delinqüente, que rapaz mais bezerrão”.     Chegam ao famoso bingo na casa de Seu Inácio, as lavadeiras, os compadres, os bêbados e as equilibristas, sorridentes e prudentes, começa a rodada, “olha a blusa do José”, sorriem, “bola 9”, “olha a toca da Leonora”, risos, ninguém se pára ou dispara, “bola 7”, “olha só o cinturão do Maurício, cabrito”. “Dez, venci!” diz o Alemão. “Sou eu, patrão!” responde a senhora de costas. “Minha bola, retardada de uma velha”, retruca ainda o estrangeiro. Pára o jogo, “eu não lhe informei que este bola ser minha? Ora bolas”, pára tudo, pára. Jeovásio mete tiro pelo teto que levanta fumaça, ninguém respira, tudo imóvel, (Zionora e Malécia sorriem ainda mas baixinho, uma para a outra diz: “olha só, que revólver brilhante, onde será que o maldito comprou”?).
Foi brava a festa, ninguém saiu ferido, toda despesa ficou por conta do pobre Inácio, as bolinhas todas foram perdidas, tudo por causa de um charlatão, “calma meu pessoal querido, com a renda do próximo São João podem crer que eu comprarei outras esquiavinhas de jogo, mas por enquanto eu conserto o que tenho perdido aqui, tudo bem”.
Motivo de usufruir palavras alheias por um mês e três dias a fio, “louca! Louca! Você viu só? Aquilo foi um escândalo, tudo isso anda tão perigoso, deste jeito não dá mais nem para sairmos de casa tranqüilas”, “tem razão”.
Missa de domingo, sol de lavanda, roupas no varal, sapatos pelo chão, fogão à lenha acendido e como faz quentura, a cozinha parece espalhar-se pelo ar, em cima do fogo a panela de pressão com seu ruído feito compressão, a turbilha de cima vai rodando rodando rodando até que pára, ninguém vê, mas a casa é da Malécia. “Corram!!!” ninguém por perto, estoura, voa caco por tudo, o fogão vira sucata e o telhado vai à lua, o feijão torna-se tinta de parede e o couro do porco vira almofada para as criancinhas. Gritos! Lá aonde vêm as senhoras desesperadas, Zionora aos prantos, “Deus, Deus, o que aconteceu”? Malécia entruncada com o paninho sobre o ombro esquerdo e correndo diz: “acho que um terrorista entrou na minha casa”. Não se ri e crê até o momento em que vê sua cozinha e toda a vizinhança na sua porta.
Depois do atentado da panela de pressão tudo ficou instável, alguns ajudaram, outros nem quiseram e outros de seu feijão se aproveitaram, a missa foi as onze e rezada pela memória da cozinha da mulher, as pessoas estavam espantadas e atentas a tudo e a todos. Malécia diz para Zionora: “Olha ali, ali ó, o Petróski comprou uma calça nova, menina, ta vendo só? Depois diz não ter dinheiro, não tem o cão que me morda, traste de uma figa, meu dinheiro até hoje não vi a cor”, Zionora se esquiva e reprime, “calma mulher, o padre ta olhando pra cá”. “Queridos irmãos e irmãs, estão todos dispensados, em nome de todos os bens e poderes lavados do mal e da inquietude, agora por gentileza, saldai-vos uns aos outros com a paz, e não esqueçam de pôr na travessinha ali, dinheiro e saúde, muito obrigado”.
Fora da igreja o canto dramático das tigueras e das gaivotas, mulheres e homens todos falando ao mesmo tempo: “você viu só? E você, viu ele? E você, viu ela? E você; viu só o jaquetão do infeliz”? O padre sai de sua postura para fora, já com roupa de sair, com a travessinha debaixo do braço e perguntando: “quem estourou a panela de pressão”? Aos pulos e gritos Malécia corre aos seus pés e beija suas mãos, “padre padre, foi em minha casa, foi terrível, proteja-me padre, reverendíssimo me abençoa, dai-me sua palavra”, o padre levanta um canto do olho, suspira fundo e diz: “ta dada a palavra, abençôo-te mulher, agora siga aquele caminho e vai até o poço das virtudes, joga lá vinte à trinta notas verdes e depois reza três vezes a mesma oração”, as pessoas se surpreendem, ela conseguiu, ela conseguiu, a Malécia, o padre, nossa!
Depois de dois minutos lá estava toda a população do bairro e Malécia com sua riqueza, não que tinha tanto dinheiro, mas tinha o que o padre a indiciou como gratidão à salvação, a palavra e a benção. O poço tinha cinco metros de profundidade e fora construído na mercê da idade, quando Malécia tinha lá seus dezoito, deveria estar até a boca de moedas e notas, o problema é que era tão escuro que ninguém nunca via nada, sempre que chovia, a água escoava pelos ladrilhos de baixo onde continham todas as ruínas de escorregamento, uma manivela estava enferrujada e já não prestava para mais nada, e dali que se houveram milhares de boatos de que a lontra da noite se transformava num gato e descia até o fundo do poço para roubar-lhes o dinheiro, e por isso que nunca aparecia o bendito, outras pessoas afirmavam que ali vários bandidos de categoria tentaram descer para resgatar a dinheirama, entre eles o Rasga Pavil, o João Filé, até mesmo o Roda Peão, homem que nunca se entregou por bem, hoje já está onde quer que saiba, se foi desta vida para outra melhor ou pior, morreu com dez tiros na cabeça e oito no coração sem nunca tocar em um só tostão do poço.
O povo dali é muito confiante naquele dinheiro, o milagre está por ali o dia inteiro, basta estender os olhos para ver, pois até o neto do Cidão deixou de fumar maconha, agora o velho dispara três moedas grossas por tarde pela salvação do moleque. Fabrício só fuma cigarro e deita-se o dia inteiro, vive branco de pálido e diz sentir falta das roupas, parece estar sempre de febre, é por esse motivo que todos dali o apelidaram de Febrício.
O que nunca falta é assunto para Malécia e Zionora, esta chora ainda, e aquela zomba a ter trincas, uma pergunta se pode contar um segredo, pede para nunca contar a ninguém, a outra disposta a ouvir tudo responde: “pode deixar minha querida, minha boca é um túmulo, pela salvação de meus queridos filhos e pela alma de minha donzela vó, eu guardo segredo”. Lá vai, a língua de uma cortando como navalha a gentileza e crueldade estancada d’outra, interesse, apenas interesse.
“Bingo”!
            O carro de Seu Inácio passa com os altofalantes no último volume, o carro faz com que estremeça o chão e as pessoas se olhem a dizer entre si: “Bingo”! Todas as novas bolas todos os novos prêmios e com a ilustre presença de nosso reverendíssimo padre Dom Vadislau de Quiatra de Lãs Terras del Papa, todos presentes com muitos presentes, Bingo!
O domingo cai como maçã do amor, Zionora com a nova saia, saia de velha enferrujada, toda desfalcada e endrelada, ainda com a coragem pulsante de perguntar a Malécia: “este vestido ficou tão bom, não acha”? A outra com um sorriso e uma calça frouxa faz conseguintemente uma afirmação com a cabeça, uma com inveja da outra, mas nunca admitem e dizem estarem sempre afrodisíacas. O bingo começará a pouco, todo o mundo presente, o bairro e outra gente que ninguém conhece, é motivo de riso, é motivo de falatório, Seu Inácio completa que uma parte da renda, à pedido do reverendíssimo padre irá para a capela do bairro, por falta de verbas, e completa que é só com a ajuda deste hospitaleiro povo que este lugar levantará até as nuvens, e para a salvação de todos, o digno será o porvir de cada confiado ser humano desta terra, todos respondem com um “amém”.
            Noutro dia, falatórios, do dia para frente foram três meses e nove dias de falatórios, uma noite as duas madames ficaram de chimarrão e papo clorado até onze da noite, “você viu só a roupa do padre”? “Ai, louca do céu, você viu só aquela gente estranha? Tinha uns bebendo, outros fumando” (as duas não ganharam nada no último bingo, até hoje nunca ganharam nada, porque quando compram as cartelas esquecem de levar o feijão, ou qualquer outra coisa para marcar, aí dão a desculpa e ficam num cantinho a cochichar).
“Esta coisa de padre se meter em jogo, eu acho estranho, você não acha não”? “É, eu acho”.
Inácio lucrou bem, a metade foi mesmo para a capela, agora com certeza o padre começará as reformas e o mais importante, vai pôr o telhadinho no poço das virtudes humanas para que nunca mais chova e molhe o dinheiro lá de dentro, abençoado por ele. As mulheres festejam, o dia é de comemoração, festas e explosões, bombas e trovões, todas felizes e os homens no truco, cada qual com seu copo na mão, muita carne muito pão, sem falar das trombetas, das flautas e das violas que está a banda a tocar, um homem alto com a sanfona, um de média estatura e pautável com a flauta e um gordo de cara vermelha toca a viola, cantando e rebolando feito carnaval.
No outro dia todos do vilarejo dormem até muito tarde, a bagunça foi até a madrugada e impreterivelmente todos devem estar exaustos de canseira, o primeiro a abrir os olhos é Lolinho, um mini-homem com quatro anos de idade, desce com todo o cuidado de seu berço e vai até a porta, abre-a e enxerga ao longe o sol com sua força estridente e lá em cima, no fim da estradinha de pedra ainda consegue ver, o Reverendíssimo padre com Seu Inácio, juntos vão rindo indo de carroça quem sabe aonde, carregando puxado numa corda de força o poço da eterna salvação. 

terça-feira, 6 de março de 2012

Setenta e sete



 “O castigo é grande demais para suportá-lo. Eis que hoje me expulsas da face deste solo fértil e devo ocultar-me diante de teu rosto. Quando estiver fugindo e vagueando pela terra, quem me encontrar, matar-me-á”. (Gênesis 4-5)

            Seu Genovásio, pelas bandas dos trinta e tantos teve dois filhos chamados migrantes da própria terra. A todos que o viam interpelavam o dom da palavra:
            - Bom dia Senhor Genovásio! – e retirando o chapéu à francesa respondia ao termo.
            Arredio, furtivo e cauteloso, homem de fé, estrutura e comunicação. Forte como um tronco, homem de ferro.
            Marta Maria, sua esposa, cabisbaixa, sempre austera recebia as ordens do marido e detinha-se pelo quarto a rezar seus credos, tédios e santos de todas as ordens. Marta fora dona de casa, dona da pia e da horta. Mulher divina deu à luz dois pedaços de seu Genovásio, Carlos e Alberto.
            Parte após o meio da vida, Marta deixou o mundo para sobreviver da morte, esquecera os díspares segredos da respiração e sufocara-se pelo canto esquerdo da sombra.
            Seu Genovásio em meio à década seguinte viajara a trabalho para Crato, no Ceará, terra do padinho Ciço, e ao deixar as responsabilidades administrativas aos dois filhos, os alertou: “cuidem do que virá a ser de vocês”.
            Ao dividirem as tarefas, Alberto preferiu dentro da lavoura, os animais, carneiros, galinhas e vacas, Carlos, por sua vez, decidiu ficar com a plantação de milho e feijão. Os dois passavam oras a trabalhar no duro esforço, com vontades cada vez maiores de trazerem ao pai o bem imaginável, o orgulho de ser trabalhador.
            A crueldade algumas vezes aparecia vestida de santa, outras vestida de tédio. O rubro esforço os detinha a pensarem nas mais diversas possibilidades de se ter um Genovásio feliz e animado com a ordem natural a que se havia deixado o sertão.
            Tempos se passaram, Genovásio não mais apareceu, somente uma grinalda, uma menina moça vestida de cetim, cabelos encaracolados e de olhos azuis pela estrada da frente da casa. No exato momento Alberto pusera os olhos de encontro com a madame, ela sorriu sorrateiramente e continuou a caminhar.
            - Irmão – disse Alberto para Carlos – vou até a venda comprar alguma coisa que me falta.
            - quer que eu o leve? Estou com o carro aqui próximo! Ao que em resposta veio um não quase agressivo de Alberto.
            Ao cruzar a esquina na qual quase todos do vilarejo diziam haver uma noiva a esperar o primeiro moço virgem passar, Alberto notou de longe os cabelos da madame a se perderem pela estrada, ao passo que soltou do peito um grito cruel e digno de guerra:
            - Espere! Espere!
            A moça olhou para trás, voltou os passos até que Alberto a alcançou. Do fruto perdido da noite saíram milagres e sutilezas, cruzaram a noite a contar histórias fiéis e ridículas de enamorados pelo nada.
            Carlos esperava pelo irmão, cansado e regresso, até que pela melhor parte da madrugada, entre grilos e sapos reis, a porta bate, sapatos caem e o rangido triste e celeste da janela se fecha. Alberto chegou.
            De manhã, Carlos afoito pergunta ao irmão:
            - onde estivera à noite?
            Nenhuma resposta encontra, nenhum diálogo, nenhum som.
            Carlos desamadurece o pensamento e sai aos poucos para o espaço reservado de sua alma, para os cuidados de seu plantio. Enquanto Alberto ainda sonâmbulo, fora de si, inimagina o que acontecera na noite anterior.
            Perto de meio-dia o suor a cair pela face de Carlos, quando amedrontado se dá de frente com uma mulher moça, de um jeito diferente do que sempre lhe ocorreu à memória, ela o chama até o portão da cerca e ele, aos poucos, como hipnotizado começa a desfacelar o pouco que lhe sobra de sentido, indaga qualquer coisa da boca e foge aos barrancos com a megera.             Volta a casa perto da meia noite, olhos vermelhos, cansado, cai sobre a cama feito morto num caixão. Apaga.
            No outro dia, Alberto indigno e cruel lhe tece a pergunta de dentro para fora?
            - onde estivera meu irmão?
            Sem resposta, toma mais um tanto do café sem açúcar, sem doce, sem nada. Mais uma vez insiste na pergunta:
            - fora em lugar especial? Tem visto um passarinho verde?
            O monólogo intercedeu parte da vida de cada um que se encontrava naquele instante furtivo, devastador e sem critérios.
            A sabedoria humana, por vezes, é indigna de remeter uma ciência a uma plantação de milho e feijão. Os carneiros a berrarem do outro lado da cerca e os irmãos a dizerem coisa nenhuma dentro da casa. Nenhum ruído, apenas dos infestados ratos do porão a caminharem rapidamente de um canto da casa até o outro, a rirem do tédio malogrado.
            Inicia o desfalecimento na casa de seu Genovásio, o antigo homem de luz e brio que fora ao longe de suas nuances deixara marcas já gastas pelo tempo. Os filhos iniciam a jornada da loucura, o arrebatamento dos loucos, os fins de noite nas casas noturnas com putas de todos os cheiros, o álcool a produzir relâmpagos na cozinha, nos quartos e sala de jantar.
             Acontece no ar o descompromisso, de início uma retração, depois se torna prazer. O trator do lado de fora espera Carlos, a enxada aguarda as mãos de Alberto, ambos esperam sem saber quando voltarão.
            “Um causo: aconteceu que um dia, eu andando de lá pra cá, vi um lobo guará pelo meio das pernas a sair correndo de frente a uma onça destas pretas que cruzam o milharal. Quando levei os dedos tortos no gatilho da espingarda a mulher de branco apareceu, foi quando eu, Carlos Silverino de Afonseca, soltei dois berros do duplo cano da penhadeira, saiu fumaça pra todo canto. Foi quando eu num canto, escondido e tímido”...
            Faz muito tempo que seu Genovásio se fora e por aqui voltara, não davam três dias e estava desesperado correndo a estrada fria da amargura.
            Uma parte no vilarejo até hoje diz que quando Carlos atirou, não foi nem lobo nem onça que apareceram momento antes, mas sim, o seu próprio irmão, Alberto, que correu aos braços da madame de vento que os dois se lambuzavam, foi quando o próprio irmão se atirou em frente à fêmea para salva-la e Carlos meteu dois disparos de chumbos sem reza brava. Alberto caiu antes mesmo do sangue começar a lhe escorrer pelo peito, não ouvira mais nada, nem sonhos tivera.
            E foi assim que seu Genovásio, o senhor mundano dos sóbrios caprichos deixou dito que Carlos cometera um crime e pagaria pelo pecado. Carlos, à beira do abismo, a pedir para que o próprio pai o empurrase lamentou: “O primeiro tombo será o meu”, e levantando a cabeça ouviu do pai: “Viverás à margem porque tudo em ti conheço, és meu filho e em teu destino mando”, e de repente Carlos dispara, de um só estrondo o cano milagroso dentro da vida, “ o metal conhece melhor a carne, ele aprofunda as veias, empobrece o sangue e retira de dentro da sutileza a fiel e escudeira amiga chamada Destreza”.
            A moça chamava-se o que vinha do exterior para o interior de cada um, e Carlos Alberto, na verdade, era um só homem.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Mesmice


O mar é o mesmo
Sintonia Reflexo
Horas imensas horas imensas
Fora a mim contudo um tanto
Medo incerto
Mudo
Quase nada
Tédio Mundo
Sem palavra sem rumo
Preocupação
Aflição
Sonhos e pensamentos
O mar é o mesmo
Mesma luz
Mesmo sol
Mesmo céu
Mas não é mesmo dia
Nem mesma harmonia
Não é mesmo?

quinta-feira, 1 de março de 2012

Re-vida entre ele/ela


- Esse lado teu eu não conhecia – pensativa.
- Que lado? Do que você está falando?
O silêncio acompanha as horas. Nenhuma palavra existe. Vive-se em conflito. O casal se dispersa. Ele torna a virar-se para o corredor enquanto ela se encosta perfeitamente à parede gelada e nua. Sem boa noite nem beijo.
Dois meses depois ela está grávida com apenas 16 anos e ele sem emprego. Ele, recostado à laje da casa fuma um cigarro, suas pernas tremem em saber que um filho seu virá, um filho de mau gosto, um filho sem nome e sem teto. Ele sente, mas não raciocina qualquer hipótese de sobressaída. Ela já está nos nove meses e a barriga miúda, apenas redonda na parte central. Sobre um surto desesperador a ambulância chega, sai em gritos uivados e chega ao hospital. O bebê conhece a luz do mundo e tem suas boas vindas ao departamento de doação, por pouco não fora abortado.
No outro dia ainda abatidos e tristes, porém, felizes com a reluta e a reconquista de uma vida sem prendimentos, sem responsabilidades.
Ao contrário dos contos de fadas, o casal de enamorados não se satisfaz em sua vida complacente e atinge o máster grau de loucura; ele torna-se bandido criminoso e foge para Goiânia em busca de empréstimos. É preso e condenado. Dentro da prisão conhece o livro sagrado e se regenera, em vinte anos será libertado. Ela foge ao mundo em busca do filho deixado no hospital. Infelizmente fora adotado, neste momento vive em uma mansão de pessoas desconhecidas. A menina está com 15 anos e vive embutida em seu quarto com seus afazeres. É estudiosa, misteriosa e guarda nos olhos uma sombra de dúvidas e sangues.
O tempo passa e o antigo casal se reencontra. Vive no beco, fora os tédios e uivos sombrios, vive no topo. Quase nada, esquece da filha que neste momento é responsável por sua cidade. A cidade do casal é invadida por um filho deixado abstrato.
Na manhã seguinte, em qualquer dia:
- O que houve? Por que você está assim? Este teu lado eu desconhecia - pensativa.
- De que lado você está falando?
- Oras, do teu.