O
ônibus partiria às seis da manhã, eu estava pronto para me ausentar. Minha
filha choramingava em pensar na minha falta, eu dizia que seria por pouco
tempo, nunca para sempre, tirasse besteiras da cabeça.
Agora
já era momento de tomar o ônibus sentido ao aeroporto, bagagem pesada, nas mãos
um bulbilho de chinelas e roupas íntimas. Ia notando aos poucos minha eterna
filha a desaparecer entre as cabeças de milhares de pessoas daquele local, sua
mão estatelada ao ar a se despedir de mim.
Quando
encontrei minha poltrona, ao lado direito já havia um senhor, que por grande
curiosidade lhe tentei perceber o rosto, porém, sem êxito, tinha grande barba,
cabelos longos em alto estilo, lhe pedi licença e me sentei. Ouvia neste
momento meu fone de ouvido, coisa pela qual não fico sem nos tempos modernos. Depois
não parava de me incomodar, qualquer gesto, qualquer silêncio ou barulho me
causavam náuseas. O ronco estridente das turbinas liquefeitas do avião me
mandava ao inferno.
Quando
comecei a encontrar o sono já era hora de olhar para fora da janela e perceber
a nudez do mundo, a belíssima fuga que eu tivera nas mãos e segurei para nunca
me escapar, neste momento cruzávamos pelo atlântico em curvas pesadas e nuvens
carregadas de solidão e tristezas. Foi neste instante que o senhor a meu lado,
sem notar qualquer posição em meu favor, me enfiou interrogativas na cabeça com
algumas palavras fora de posição:
- What
do you do?
Eu
nunca compreendera direito o Inglês, aquilo me deixava ainda mais ansioso em
não saber o que responder ou perguntar ao sujeito do lado. Avermelhei-me, tive
vergonha, tive anseio em responder qualquer coisa que não desse certo, como por
exemplo: “the book on the table” ou
coisa parecida, já que era quase tudo o que eu sabia desta língua.
Ele,
agora olhando através do canto dos óculos para a janela me referenciou mais uma
vez a palavra, que vinha como dinamite em minha mente sem produzir qualquer
significado semântico, ausência total de pragmatismo, o que me restava era
saber qual time ele torcia, mas como perguntar algo tão difícil, a única coisa
que me lembrava era que futebol significa “soccer”, mas e o resto? Eu estava
perdido. Era vergonhoso e sem nexo eu ficar ali, pedi licença com alguma
educação retirada da alma, mais ou menos: “excuse-me” e fui até o WC, lá eu
cuspi sem parar, lavei meu rosto e provoquei minhas necessidades até dar fim ao
líquido da bexiga.
Voltei
assombrado a fazer cara de nojo e pobreza, o velho havia dormido, ou apenas
fingia sonolência. O silêncio tornou-se súbito, imaginário e retroativo, a cada
silêncio que eu enviava para os cantos da nave, ele retornava a mim cheio de
nervosismos, com mil motivos para pedir para pular daquilo, mas eu não podia.
Distante, muito distante dali, ouvi algum
choro de bebê, uma criança berrava com tédio, com raiva e com aspereza, não
havia sensibilidade naquilo nem em mim. Continuei calado, a única coisa que ouvi
após o pranto da criança foram lições de moral dos pais, em língua que também desconheci,
se fosse chutar diria que aquilo seria russo.
Olhei
de canto para o fundo do avião, uma aeromoça servia café a dois senhores de
terno, agradeciam com uma língua que nunca ouvi na vida, e se ouvi, foi em
algum programa de TV, destes japoneses que começam a falar e parecem ter uma
batata quente na boca.
Continuei
afoito, com sono e com tédio, meu maior medo seria o velho novamente acordar e
perguntar qual minha orientação sexual, ou minha data de nascimento, o que eu
responderia? Mas nada, ele começava um ronco nítido e diminuto, se comportava a
ponto de eu não precisar me interferir no pensamento, apenas descansar de nada
cansado, refletir e me sintonizar em outro momento, outro tempo, outro mundo.
Meu
nome agora passaria a ser “Luta da vitória”, o último dos sete. Fui convidado a
exercer o primeiro cargo de professor de Literatura e Cultura a uma sala de
Médio Ensino na Europa, mais especificamente, na Áustria, e é lógico,
acompanhado de um tradutor. O avião pousou normalmente, apenas um pequeno susto
e depois estava a sair daquele ambiente quase catastrófico. O senhor que esteve
a meu lado olhou para trás, em minha direção, fez cara de desgostoso, abriu um
sorriso ligeiro e soltou um longo e nutriente “bye bye”, notei com precaução a
modéstia e manipulei a escapatória, estava em outra direção, estava eu na
República da Áustria.
“MIT VEREINTEN KRÄFTEN”
Eu,
imposto a ordens nada exemplares no ambiente onde foi capital do antigo império
dos Habsburgo, detido na Áustria para viver de forma inimaginável, deslocado em
uma plataforma de pensamentos quase zerados, se não, estarrecido de informações
incompletas e distantes. Aos poucos me habituo.
Encontrei
o hotel Liek, ficava a poucos metros do principal teatro da cidade, contente me
tive com esta surpresa, já que havia trocado minhas notas de real pelo euro
brilhante e encorpado.
A
conhecer o primeiro dia com sol ofuscante após o café da manhã, detive-me a
pensar – sentado no banco de uma praça – em novas figuras, novo ambiente e
novas mulheres, a ponto de me retirar inconscientemente dali e partir em busca
de prazer.
Nada
encontrei, a não ser senhorinhas a caminhar pelas calçadas disciplinadas
paralelamente com seus cães de guarda. Depois da longa e triste caminhada,
estava eu na Grossglockner, uma montanha de quase quatro mil metros de
altitude, a observar a beleza ao longe do Danúbio se dispersando entre poemas e
rosas.
Conheci
Anne Lisa, por sorte falava pouco o português, eu entendia parte do que ela
suscitava em palavras, mas manipulava minha mente, distorcia minha imaginação e
através de cada sorriso que saia de sua boca, eu entendia palavra por palavra
do que dizia, apenas não me amava. Ainda.
Debaixo
à Águia Dourada do ermo sonho de uma noite que viria, convidei Anne para sair,
ela consentiu, disse que poderia, mas com uma condição, não precisei perguntar
qual, foi logo esclarecendo: “ajudo nas despesas”. Sorrisos, jantar à luz de
velas, música clássica barroca e motel. Neste momento estávamos no mais
venturoso motel da cidade, em um amplo espaço que se considera um ginásio de
esportes no Brasil, sem banheira, mas inteiro em forma de rubi, luzes naturais,
silêncio e amor.
Fizemos
o que devíamos, ou melhor, despi Anne aos poucos até ela sentir o meu desejo de
brasileiro, eu natural da gema, ela austríaca da corte, da nata européia, a
emancipação se deu como imaginava, os dois prontos em um só corpo formando um
único instrumento a serviço do prazer e sem razão. Anne era mais velha do que
eu, e por incrível que pareça, não mais a vi, nem na Áustria nem no inferno.
Hoje,
ao lembrar do Danúbio em forma personificada, lembro de Lisa, lábios lisos com
batom vermelho, maquiada e dispersa nua sobre a cama. Acordo e abro a porta com
má vontade, é o jornaleiro. Agradeço e ele se despede. Tchau.
Ligo
a TV em médio volume, obedeço minhas mãos que vão até a cigarreira e trazem até
os lábios um doce charuto cor vinho, produzido a três quilômetros daqui,
trago-o até a última dose, bebo o café requentado do fogão e desligo a TV, vou
para o jornal, compreendo a língua, também, é para tanto, querendo ou não, são
sete anos de vida nova.
Se
não informei antes, foi por falta de tempo, agora sou bem casado com Catarina,
uma loira de belos quadris que me perturba todos os dias, trabalha na redação
do Times and Times International, tem
boa memória, ótima conduta e me trata bem, temos um filho, chama-se o garoto
por Pedro Vinícius. Pedro é risonho, mas briguento, sabe a língua melhor do que
eu, sempre contei meu segredo tanto a Catarina quanto a Pedro sobre minha filha
no Brasil, porém, até hoje não entrei em contato, não sei por onde anda.
Faço
amor em duas línguas, dizem a emoção e prazer serem maiores, acredito nisso.
Catarina me enlouquece e Pedro me amanhece todos os dias por volta das seis da
manhã.
Ontem
cheguei tarde em casa, perdi o ônibus que me trás da Universidade, percebi o
desastre e para maior auxílio, passei no Boehm beber cerveja, encontrei três
prostitutas e um cão a me olharem ressabiados, conversei torto e me despedi.
Tchau.
Nesta
época começava o Festival Operatta Morbisch, verão gelado que fui passar em Salzburgo. Encontrei
uma amante, coisa rara em brasileiro no estrangeiro. Encontrei-me com Angelita,
mulher fogosa e solene, belos tics e palavreados, parecia artista de cinema.
Com ela tive aulas sobre A arte contemporânea do sexo oposto, o redescobrimento
de mim mesmo. Aprendi a esquecer angústias e estresses. Mantive este
relacionamento até Catarina descobrir e me esquecer.
Neste
ínterim a vida se passou, ou eu passei pela vida. Acredito que estas
interrogações me levem a refletir num tom filosófico, isso me desanima. Nada
passou.
Não
conto quem sou, apenas quem fui. Sou contra ao lema de meu Estado, no meu caso,
eu solitário faço a força.
Engravidei
Angelita, a mulher grande, ou a grande mulher com pêlos robustos. Não acreditei
e nunca a vi depois de tal acontecido. Numa coisa confio e boto fé: em meus
espermas, estes nunca me deixaram na mão, plantei sementes em cada canto do
mundo, sou dotado de anfitriões descendentes.
Ao
bater de frente com a cara enorme de um sujeito sem nome no bloco debaixo da
Universidade, por volta de meio dia, pedi desculpas formalmente, ele sorriu de
forma sarcástica e ignorava meus passos, onde eu tentava fugir, ele seguia-me
pelos olhos delgados, perguntei o que havia, em resposta, me veio um cuspe
quente e inoportuno dentro do olho esquerdo. Saiu correndo e tomou o primeiro
ônibus da esquina, ainda me olhava como que a falar baixinho: “idiota”. Limpei
os vermes de minha face e me pus a ir até o ponto, estava tudo em ordem.
Mantenho-me
carente e careta. Tenho poucos amigos e os que tenho, faço miúras para não
haver muita conversa fiada, sou a favor da pouca intimidade, sou pouco
grosseiro, mas dentro da ordem.
Ao
deitar-me durante a noite, estava eu a refletir sobre o acontecimento do cuspe,
não acreditava no que acontecera. Aquilo era fora do comum, havia eu feito algo
ao cara redonda? Contei carneiros, levantei-me da cama em passos firmes, bebi
uma cachaça amarga e voltei, dormi sem pesadelos.
Outro
dia amanhece, acordo prejudicado pela enxaqueca, levo comprimidos à boca, os
quais com muito custo engulo. Passo a diante e vou-me ao trabalho.
Dia
de simpósio internacional em Veneza, na Itália, tomo o avião das dez horas,
encontro-me ao lado de uma moça chamada Deisi. Sei o nome porque perguntei
antes de sentar-me, ela respondeu-me com intimidade. Notei os lábios grossos a
sorrirem e pelas tantas estávamos em beijos loucos e soltos, eu sem cinto, ela
sem blusa, silêncio na avenida. “Sinto muito senhores, mas aqui exige-se
respeito”, veio o sotaque enfurecido de uma alemã de dois metros de altura.
Deisi sorriu novamente com o canto dos lábios, aquilo me enfurecia, notei a
pressão da aeromoça e os olhares malvados de uma inteira tripulação, não era o
dia do amor. Os deuses me perdoem.
Em
Veneza fui ao simpósio, Deisi para a casa da mãe, a passeio. A despedida foi
triste e amorosa, num motel perto do aeroporto da cidade, passamos três horas
de puro prazer.
No
simpósio estava eu lúcido até demais, aquilo havia me suscitado um frenesi
descompassado. Estava solto.
Literatura
e Cultura na Contemporaneidade. Ganhei muito dinheiro com estas palestras,
sabia tudo de cabo a rabo, nada me faltava, nem bel prazer, nem dinheiro, mas
cansei desta vida. Aposentei-me. Depois de alguns meses, Deisi ligou com voz de
choro, enigmática e com sotaque afrodisíaco para criar charme, dizendo que
estava a esperar um filho meu. Desliguei o celular, no outro dia, comprei um
novo.
A
Europa é grande por demais. Nesta época eu me sinto um Osama Bin Laden, todos
me procuram, ninguém me acha. Deixei a barba crescer, cabelo grisalho em forma
de erudito, e óculos de pouco grau para a ventura de estudos. Ninguém me
condena, ninguém tem força em me condenar.
A
UNIÃO FAZ A FORÇA – e, eu comigo mesmo, sou a potência de dois mundos, o
flagelado perdido e esquecido, e o de grau elevado, aturdido e invencível, a
nova profecia se faz presente.
Olhei-me
no espelho – a alma desconfia de quem eu seja.
Minha sombra não me persegue mais, agora, tenho outra sombra, tediosa e
nebulosa. Acredito que a desconfiança em tudo leve-me a crer que acredito em
quase tudo. Meu nome é esquecido. Sou cidadão homérico com direito a medalhas e
tudo.
Sou
escolhido a dedo. Brasileiro desbrasileirado. Austríaco de sangue e ventre.
Fiel a tudo e a todos que me acompanham. Ia me esquecendo, sou chamado a fazer
parte da Academia de Literatura dos Pensadores Contemporâneos. Não faço ideia
em qual ensejo me leve isto, mas parto ao Brasil, a terra desconhecida.
Como
se fala português? Como me remeto a um termo? Como sou brasileiro?
Eram
perguntas que me deixavam sem respostas, acometi em andar pelas praças de maior
movimento, até que a noite caiu, silenciosa e distante, fui bater caxeta no Bar
do Anísio, um novo conhecido da Boemia Curitibana, e, para grande espanto e
tédio, bato-me novamente de frente com a cara gorducha do mesmo rapaz da
Áustria, o assombroso e verruguento, sorri sem mérito, a seu lado uma mulher
com dois filhos de média idade, dentro do bar os dois a beberem, os filhos
asmáticos brincam de olhares cruzados.
A
mulher parece minha filha, a qual tive no país em que nasci, agora relembro, e
o rapaz sai de seu lado, vem e cospe-me novamente, desta vez, do lado direito.
Agradeço o atendimento de Anísio, despeço-me e saio porta afora sem acreditar
naquilo. Um pesadelo se faz de vitorioso. Ouço folk-blue pelo rádio em mais de cem MHz.
Desconfio
da fumaça de meu cigarro, agradeço à bebida que me consome, desiludo-me de
maneira espantosa e deito-me sobre a cama, sozinho e silencioso, apenas um
sonho vem vindo de espanto me atormentar, uma infeliz a dizer “estou esperando
um filho seu” e pensamentos cruzados a se incorporarem no meu plano de vida:
“Literatura, Cultura e Contemporaneidade”, eis a ilusão da vida tenra.
Sobrepujo
meu travesseiro, o bojo liquefeito da apreciação de minha mais inocente idade,
a idade que o ser se descobre de imediato, a hora do espanto e da queda.
Repugno-me, refugio meus olhares para lugar eterno, sou direcionado ao
cruzamento da João Faria com o Atendimento ao Cliente da 29 de março. Estou a
alcançar o inverno da vida em diante, minha terapia começa as dez da matina.