
Minha mulher agora chegou com umas loucuras, mas acabei ouvindo. Disse que estava se sentindo prejudicada em nosso relacionamento. Eu fico com o carro, ela com a moto. Mas o que acontece? Eu nunca entendo. Quando éramos namorados ela vivia a me importunar: “amor, eu amo moto”. Hoje diz: “você é um cavalo. Deixa-me de moto e fica com o carro, logo no inverno?”. Eu não consigo compreendê-la. Deu de tomar banho no frio, diz ser greve, rebeldia, coisa de ingratidão. Aos domingos, quando me deito no sofá azul da sala de estar e ligo na Globo para assistir ao futebol, lá vem ela: “você não me ama mais, só pensa em futebol” e eu, cabisbaixo em proezas da cabeça finjo não ouvir (coisas de homem). “Homem é tudo igual”, ela reclama. E abro mais uma lata da cerveja nova. Termina o futebol, já é tarde e o Faustão acaba de iniciar. Neste instante chega minha esposa e diz: “Eu vou ao chá de bebê da Laís”. Como assim? Chá de bebê? Mas nesta hora? – “Vou num pulo, tomo o carro e já volto”. Quando vou dizer mais uma palavra ela bate a porta em minha cara usurpada. Observo da janela do banheiro o carro esvaindo-se pelo portão de entrada. Segunda-feira amanhece gelada. Passa voando e no fim da tarde nos encontramos em silêncio. Ela me diz algumas coisas e o que consigo ouvir é somente: “estou tomando remédio... controlador de emoções”, nisso, no entanto, não me emociono junto de minhas relíquias históricas de sonhos. Reflito um momento e penso que seja eu o culpado de tanta extremidade em nossas vidas. Aliás, creio que seja esta a primeira vez que acabo de me perceber porque até então, eu só a percebia com seus erros banais. Acabo por crer que homem é tudo igual. Sorrateiramente, caio fora do padrão de minhas leis inconscientes, abro mais uma latinha.








