quarta-feira, 6 de abril de 2011

Na Praça


Sobrou um momento propício para falar de mim. Utilizaria somente umas três ou quatro linhas, no máximo. Mas falar de mim não é fácil. Comecei falando das coisas boas, que sou uma pessoa de fácil adaptação, depois comentei, também, que sofri muito na vida e por isso não quereria que o mesmo viesse a acontecer com meus filhos. Descrevi minha família e logo após, iniciei algumas palavras ofuscantes sobre meus desacertos. A psicóloga me olhou de viés, com certa desconfiança quando comentei que fui casado duas vezes. A sala perturbadora tomou-se de um ar impuro e num reflexo sob o espelho que dava para a poltrona da recepção consegui encarar a dona do consultório. Em seguida um silêncio novamente se fez e a purpurina da folha de rosto, na qual transcrevi meus dias, estava encharcada de uma umidade fulgurante e sem prazer. Nas idas e vindas de minha vida eu nunca precisei contar minha história porque sempre achei melhor e mais fácil falar do outro. Mas hoje, num termo de adaptação à vida em que me encontro preciso me condizer antes de tudo, para que alguém em algum dia sublime o meu dia e, por ventura, o torne mais límpido ao meu entendimento. Eu não sabia o que era terapia, e quando terminei minha consulta desci o prédio e estava em meio à Praça Osório. Só então me deparei que minha realidade era nítida e relembrei muitas coisas do passado, coisas pelas quais eu não conseguiria viver, mas pensando melhor eu consegui ultrapassar as barreiras penosas e vivo, aprendi a soletrar ideias, aos poucos, que me tornaram o homem de agora. Deparei-me com mais um homem que, quando olhei de frente realmente, percebi que era em torno de um espelho enorme reluzente e que o reflexo era meu. Comecei falando de mim quando cheguei em casa e minha vida foi sendo invadida por uma pressão atmosférica diferente, uma coisa estranhamente oblíqua que até hoje não sei dizer o que fosse.

Um comentário:

  1. Na praça há tantas histórias,
    Assim como tantas praças numa história.
    Na praça há tantos outros
    E eu também passo por lá de vez em quando.

    É, a praça também pode ser testemunha de um dia.

    Avante sempre, Guri!!!

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