Era inverno e a comida
já havia esfriado. Enquanto eu me envolvia no sofá junto de muitas
cobertas também imaginava o quanto frio suportara do lado de fora
daquela casa. Mas, não. Eu não entrara porque era de aço. Era uma
casa nada engraçada. Sobre seu telhado havia um limbo verde musgo do
qual eu me metia em medo constante. Aos fundos, com muitas árvores
amedrontadoras e gélidas secas. Eu estava só e solto, não era mais
dono de mim e, enquanto pensava o tempo regredia de forma vagarosa.
Em um determinado
momento, ao passo que eu passava em frente daquela mansão, surgiu um
homem de idade mais ou menos entre setenta a oitenta anos. Olhar
cabisbaixo, lento e sôfrego. Tropeçando aos pouco em seus próprios
passos e com um olhar de queixas. Era um homem preso, mas livre.
Tentei um cumprimento somente com a cabeça, sem retorno algum.
Em
seguida eu parei à rua deserta. Tentei fazer de conta que estava
arrumando meus cadarços. Aquilo parecia-me loucura e mesmo assim eu
continuava.
O senhor me observou,
não sei ao certo se observou que eu estava a o observar ou somente a
mim, sem mais nada além disso. Meu coração entrou em disparada num
estágio conturbado e alucinado de esperança em lhe remeter uma
palavra que pudesse, porém, não podia, pois eu não entendia o que
me passava pela cabeça.
A casa ainda permanecia
fechada. Era escura com paredes em tintas d'água descascada e
antiga. Havia berais tornos e alguns até mesmo soltos. As janelas
marrons davam uma tonicidade de ensejo e infortúnio. O gramado era
alto, o que dava-me a impressão de que há tempos ninguém o
cortava. Contudo, mesmo com estas imagens eu me ative. Eu estava meio
tonto e de agora em diante, como um amante ou como um ledo espaço,
procurava me atentar a cada passo que o pobre senhor dava.
Talvez
eu fosse apenas o que ele um dia poderia ter sido. E agora, encostado
sob o muro de meia altura lhe escorria uma lágrima do olho esquerdo.
Fiquei sem ação. Pensei em ir ao seu encontro mas, não seria
bondade de minha parte. Um homem quando está só, sente-se só, é
só. Entretanto, não basta ser só, deve-se sofrer para somente
depois tentar ser.
Eu fingia neste
instante me apegar ao ponto de ônibus, só que não havia ônibus
nem carros nem nada. O tempo era brusco, nublado e sujo. Eu era em
mim um desejo pronto de estabelecer qualquer relação com aquele
homem. Nada saia de mim. Nada eu aprendia. Nada mais sabia.
O dia se passou lento.
A casa estava no mesmo lugar. As árvores também eram as mesmas. As
luzes durante o entardecer deram-lhe um ar de mistério ainda maior.
A neblina aumentou em um curto espaço de tempo e para minha sorte o
ônibus ainda não tinha chegado. Adormeci.
No outro dia
perguntava-me : “morri?”, não encontrava nenhuma voz em
resposta, apenas um sussurro nos ouvidos, era uma mistura de sonho
com realidade. Já não era sonho. Sim, eu estava debaixo do ponto de
ônibus e um cachorro me lambia os ouvidos com um cheio de carne
podre. Era um pobre cão da rua. Iniciei minha caminhada de forma
sôfrega e ao adentrar em uma padaria percebi através do noticiário
do telejornal das seis que um senhor se suicidara durante à noite
gelada em Curitiba na Rua Nova Zelândia, nº 4222.
Eu tinha
quase certeza de que era aquele senhor.
Agora, a única coisa que
me passa pela mente é refletir sobre o que, talvez, ele refletia
minutos antes de se atirar no ponto escuro do gelo da noite. Seu nome
era João Augusto Novaes de Melo e seu corpo enterrar-se-ia às
quatro da tarde deste mesmo dia triste e mudo. Cintilado e cruel para
alguns. Louco e desesperador para outros.