terça-feira, 23 de julho de 2013

Como neve



Neva em meu coração
Como neva em minha cidade.
Lembro-me do convés de minha tenra idade
Quando era criança e a distância
Não fazia diferença alguma
Porque se amava perdidamente.

Hoje neva uma neve fininha
Solvente em flocos doces como uma sinfonia.

O gelo sedoso se derrete aos poucos
Durante o dia
E perdidamente na mesma harmonia
Eu apenas sou coadjuvante.
Não mereceria papel importante nesta
Chuva de gelos em gelos claros
que se intensificam à luz do sol.

Faço-me desta instância

Uma imprudência.
Se, de fato o tempo ou a glória
Dele se atentam sob minha ausência
Então, já nem papel de nada tenho.

Apenas observo a neve tão linda,
Que aos poucos gela em meu peito.
É tímida a tal neve,
Cai lentamente a combinar com tantos
Sonhos enfrentados em tantos tempos.

Neva como a esperança de amar aos poucos,
Pois é assim que se constroem corações
Fortes para resistirem a fortes paixões.

Novos dias hão de nevar
E nesta nuance.
Nevar-se á de notas cada olhar. 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Renascer



Vivi, principalmente nasci.
Mas, se agora me apresento como sou
Já sei que sou só um outro.
Porque todo sonho quanto solto
Sul, eu mesmo sei
Que o céu é meu sol.
Aprendo diariamente com tudo,
Mesmo mudo, às vezes ditoso,
Manhoso e equivalente
Aprendo no sistema incerto.
Na sadia filosofia dos que
Se alimentam pela alma.
O brando cume de luz me aprecia,
A poesia
A nostalgia
E as palavras de alegria
Não me fazem crer
Que um dia
Era apenas pó
E deste pó renasci.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Se a poesia



E se a poesia salvasse?
Não haveria salvação
Porque tudo haveria de se perder.

Embora eu cruzasse campos de trigo
E perais alaranjados pelo sol longo de inverno
Sempre existiriam as rochas lúgubres
Imparciais de luz.

E se a poesia respondesse?
Ela já não responderia.
Ninguém acreditaria.

Se eu soubesse as respostas.
Não! eu não sei.

Continuo uma interrogação
E nesta fugaz meditação
Somente reapareço
De vez em quando
E às vezes
Meio discreto
Desapareço.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A casa de um suicida



Era inverno e a comida já havia esfriado. Enquanto eu me envolvia no sofá junto de muitas cobertas também imaginava o quanto frio suportara do lado de fora daquela casa. Mas, não. Eu não entrara porque era de aço. Era uma casa nada engraçada. Sobre seu telhado havia um limbo verde musgo do qual eu me metia em medo constante. Aos fundos, com muitas árvores amedrontadoras e gélidas secas. Eu estava só e solto, não era mais dono de mim e, enquanto pensava o tempo regredia de forma vagarosa.
Em um determinado momento, ao passo que eu passava em frente daquela mansão, surgiu um homem de idade mais ou menos entre setenta a oitenta anos. Olhar cabisbaixo, lento e sôfrego. Tropeçando aos pouco em seus próprios passos e com um olhar de queixas. Era um homem preso, mas livre. Tentei um cumprimento somente com a cabeça, sem retorno algum.
Em seguida eu parei à rua deserta. Tentei fazer de conta que estava arrumando meus cadarços. Aquilo parecia-me loucura e mesmo assim eu continuava.
O senhor me observou, não sei ao certo se observou que eu estava a o observar ou somente a mim, sem mais nada além disso. Meu coração entrou em disparada num estágio conturbado e alucinado de esperança em lhe remeter uma palavra que pudesse, porém, não podia, pois eu não entendia o que me passava pela cabeça.
A casa ainda permanecia fechada. Era escura com paredes em tintas d'água descascada e antiga. Havia berais tornos e alguns até mesmo soltos. As janelas marrons davam uma tonicidade de ensejo e infortúnio. O gramado era alto, o que dava-me a impressão de que há tempos ninguém o cortava. Contudo, mesmo com estas imagens eu me ative. Eu estava meio tonto e de agora em diante, como um amante ou como um ledo espaço, procurava me atentar a cada passo que o pobre senhor dava.
Talvez eu fosse apenas o que ele um dia poderia ter sido. E agora, encostado sob o muro de meia altura lhe escorria uma lágrima do olho esquerdo. Fiquei sem ação. Pensei em ir ao seu encontro mas, não seria bondade de minha parte. Um homem quando está só, sente-se só, é só. Entretanto, não basta ser só, deve-se sofrer para somente depois tentar ser.
Eu fingia neste instante me apegar ao ponto de ônibus, só que não havia ônibus nem carros nem nada. O tempo era brusco, nublado e sujo. Eu era em mim um desejo pronto de estabelecer qualquer relação com aquele homem. Nada saia de mim. Nada eu aprendia. Nada mais sabia.
O dia se passou lento. A casa estava no mesmo lugar. As árvores também eram as mesmas. As luzes durante o entardecer deram-lhe um ar de mistério ainda maior. A neblina aumentou em um curto espaço de tempo e para minha sorte o ônibus ainda não tinha chegado. Adormeci.
No outro dia perguntava-me : “morri?”, não encontrava nenhuma voz em resposta, apenas um sussurro nos ouvidos, era uma mistura de sonho com realidade. Já não era sonho. Sim, eu estava debaixo do ponto de ônibus e um cachorro me lambia os ouvidos com um cheio de carne podre. Era um pobre cão da rua. Iniciei minha caminhada de forma sôfrega e ao adentrar em uma padaria percebi através do noticiário do telejornal das seis que um senhor se suicidara durante à noite gelada em Curitiba na Rua Nova Zelândia, nº 4222.
Eu tinha quase certeza de que era aquele senhor.
Agora, a única coisa que me passa pela mente é refletir sobre o que, talvez, ele refletia minutos antes de se atirar no ponto escuro do gelo da noite. Seu nome era João Augusto Novaes de Melo e seu corpo enterrar-se-ia às quatro da tarde deste mesmo dia triste e mudo. Cintilado e cruel para alguns. Louco e desesperador para outros.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

"Nosso romance"

"Tenho medo do dia em que a tecnologia vai sobrepor a interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas" A. E.

Houve, sim, um dia em que nos encontrávamos e queríamos saber um do outro. “Como foi seu dia”? Eu dizia, e logo como resposta vinha um “Dia completamente lindo” em uma noite perfeita. Depois nos encontrávamos e às vezes sentíamos muita falta um do outro, então eu resolvia lhe escrever, porque eu amava tudo aquilo. Eu escrevia e por incrível que isso pareça hoje em dia, a carta chegava até as suas mãos. Em seguida me respondia cartas com pesadelos, outras com palavras doces, mas todas com muita riqueza. Até hoje as guardo, é verdade.
Eu adorava todo aquele momento em que fazíamos de nossas vidas uma grandiosidade sem tamanho. Nos víamos e não tínhamos muitas instruções sobre como nos comportar. E quando notávamos alguma notícia relacionada a você ou a mim, quase acabávamos por morrer. Era um tempo diferente no qual dominávamos nossa existência através de uma ansiedade diferente. Predicamentalmente eu lhe via, lhe notava e apetecia, ao menos no início de nosso romance. Eu me acabava de vergonha e não sabia o que dizer e, é exatamente por isso que dominava o jeito de escrever de forma a te seduzir com minhas humildes letras. E repito: Eu quase morria.
Depois ouvíamos nossas músicas no rádio cassete, sim. Fitas eram perfeitas, pois gravávamos coisas por cima e ficava uma bagunça danada; sem contar que também ouvíamos discos, alguns ainda tenho guardados. Era uma maravilha. Contudo, em certo dia aconteceu de nos encontrarmos diariamente, eu lembro como se fosse agora, lembro também das folhas verdes que caiam ao chão em um dia de frio com neblina. Esta imagem, te juro, é um quadro em minha memória. Porém, acabaria minha história. Relatarei outra estória, a qual banalizada sobre meus versos mudos nos encontramos em outros tempos. Hoje, se nos vemos ou nos beijamos, é tudo tão fugaz. Nada de se demorar aqui ou acolá. Qualquer migalha serve. O disco se foi, as fitas também, eu, você. Hoje temos o computador, o celular e quando me lembro já é hora de parar de digitar, pois minha filha está aos berros lá na sala. Eu já não tenho paciência para essas coisas, mas, preciso ir. Hoje nós somos apenas resquícios de uma época que não haverá de voltar, apenas ir, não sei aonde. Conquanto que somos, seremos apenas o almejado, o bolor, a ferrugem. Eu acho que estamos ficando velhos e pelo que percebo, nossa juventude não quer saber de nós. O distanciamento nos torna fúteis e inúteis e acredito, benevolamente, que estamos regredindo ao estado dilacerado para nada, sem significado algum.