terça-feira, 31 de agosto de 2010

O Festim


Já mandei dizer que não irei à festa hoje. Já pedi para cancelarem minha presença no Grandsellers do Portão. Durante este horário não farei absolutamente nada. Hoje, pela manhã, logo ao acordar me deparei com um pensamento dúbio, uma coisa que não saía de minha cabeça, pensei que tivesse morrido e estado no céu antes do tempo, mas nada ocorreu e depois, sem tocar em qualquer assunto, chegou uma moça me perguntando se eu tinha realmente coragem em fazer o que queria. Respondi prontamente que sim, entretanto, sem pensar para qual sentido me levaria tal palavra, sem refletir, coube-me sair da porta de entrada do shopping center e pegar a Avenida Três Apitos. Um carro em alta velocidade passou como um raio sob meus olhos e num tempo de quinze ou vinte segundos eu estava equivocado novamente, lembrava somente o meu nome sem o sobrenome, em seqüência disto me ocorreu outro pensamento, um pensamento lógico e sábio, - se é que existe sabedoria quando se assalta à própria mente – um estupro de minha consciência apareceu em forma de colisão interior. Detive-me com objetos de meu grado, depois conheci meu tataravô através de uma foto via e-mail, minha tia de Londres me remeteu às 22h14min da noite. Neste mesmo instante a festa ocorre feito solidez na casa da Gabi. No Portão tudo deve estar sob controle, qualquer descontrole alguém me avisaria. Acabo de lembrar que o meu celular perdeu a bateria. O pensamento duplicado, aos poucos, some da minha cabeça e, por incrível que pareça, encontro-me de frente com uma pessoa estranha, nunca antes visitada pelos meus olhos, o tempo na XV é de frio e o movimento some se adentrando pelos escombros dos becos insolúveis da grande cidade. A polícia detém três rapazes em uma tentativa de assalto à mão armada, são levados a socos e pancadas. Depois desta tragédia tudo volta ao ritmo lógico e trancafiado. Quando pensei que fosse entrar na loja barata de móveis e consertos de eletrodomésticos, uma senhora com mais ou menos um terço de século passou em minha frente, olhou-me de baixo até o último fio de cabelo e disse-me num tom sarcástico “olha garoto. Aqui quem manda é eu”. Fechei meus olhos que porventura estavam restritos a todo e qualquer movimento de fora da loja, continuei a caminhar e ela, a senhora ambígua e simulada, leve e solta, com óculos escuros em um verde musgo mais uma bolsa roxa a combinar com o batom, sentou-se à beira da porta da loja e eu fechei meus olhos enquanto tentava sobreviver.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Prelúdio


Tanto tempo tenro terraço
Não dura mais que um espaço
Entre a dor e o sofrimento.

Tanta terra torta não foge à orbita
do planeta em toda terça
ou quarta que seja em desalento.

Todo tédio de tudo
Se preza em forma de um prédio mudo:
Construção, arvoredo e plantação.

Tenho certeza de que nada é certo
E tanta incerteza me leva a pensar,
de forma nobre, que o mundo é
um paralelo que se forma da casca
da imaginação de cada penitência.

Tenho coragem de que tudo
Tenho incerteza de que nada
Tenho medo, se tenho
Temo que tanto tempo
dure pouco ou muito,
Mas que dure o quanto durar
Será infinito dentro de
um pequeno espaço.

Um pedaço de ti
Será um arquivo de sempre.
Um pedaço de mim sempre
Será uma saudade total.

domingo, 22 de agosto de 2010

Invenção de Girar



Inventei um pedaço de mim;
Rastreei uma parte integrada de mim.
Sou beleza no que digo,
Então por que gritar?
Corra!!! a polícia vem aí.
Grudo meus ouvidos na poltrona
Da sala e volto a manejar o
Controle remoto.
Reinventei uma tortura completa.
O quarto virou uma zona
E a melhor hora de ir embora
É depois da tela de sucessos.
Meus caprichos são teus também,
Porque meus foram durante os dias
Em que inventávamos juntos
Que cada dia dependeria da alegria.
O louvor, agora mais calmo e soluto,
É uma junção de fórmulas químicas
Que nos reprova até o fim.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sagafina - Ato I




Em todo caso se vista bem, pois vai estar frio. Ontem passei pelo vento desgostoso da brisa alheia, do lado esquerdo do mar. Chamei o José a dois segundos e até agora nada, isso de depender de funcionário é duro, é queixa. Meu nome? ninguém sabe, ninguém lê os jornais? Me chame de patrão, basta. Sou proprietário destas terras aqui do norte. Tenho as mulheres que quiser e tudo isso, absolutamente tudo, dentro do torá. É claro que tenho meu orgulho e meu brio, mas isso deixemos pra lá. Amanhã é dia de procissão aqui na cidade, moro numa vila pacata e careço de mandar em alguém, não tenho escravos mas, da mesma forma, pago uma miséria a uns delgados que aqui me servem. Não sou velho nem moço demais.
Há três dias a política mostrou a cara aqui no Parque do Sol. Candidatos à presidência, aos governos, senado, entre outras pancadarias mais. Também me candidatei e tenho, quase que completa certeza, de que vencerei. As pesquisas indicam e no mais, com pouquíssima margem de erro. Meu neto João cuida das finanças, chamo meus tios para a procuradoria e forjo o concurso público de onde vivo. Sem anarquias, cada coisa em seu lugar. Sou autoritário? Não me venha com miúras, compreenda: A vida é pequena demais para preocupações. O Nepotismo é fundamental na sociedade e, ao observar o histórico político-econômico brasileiro, percebe-se que no decorrer de muito e muito tempo, ele existe por sí. Não confio em ninguém com mais de trinta anos, nem no meu cachorro. Daqui em diante sou empresário e ao mesmo tempo Governo. Vou montar cadeias empresariais dentro do Estado que, se derem certo, irei mais pra frente, indicar o país como meu aliado. Não é difícil, basta persistir nos erros e acertos, a bomba uma hora estoura e tudo vai à tona com estilhaços de telhas dentro das igrejas reais. Me chame, por favor, de patrão. Não tenho mais ideal em dialogar e por este motivo montei meu monólogo. Mais pra frente, talvez, eu continue a minha saga.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

terça-feira, 10 de agosto de 2010

O trem


O trem de lata passou
Pela vida de um vira-lata sem coragem.
Foi que foi...foi que foi...foi que foi...
Lá, pras bandas de lá do trem
Do morro do vento.
Quanta fumaça levantou
A poeira caiu
E a lua voltou.
Depois da tarde
Entrou a noite, nuvem, tocha, virgem.
O trem passou, se foi se foi se foi
E nada sobrou, nem pó, nem fumaça.
Pela vida de uma lata que vira e vira e vira
E repete ainda mais e mais e mais.
Passou um trem de lata
Pela cidade, mata, pela meta
Pelo metal da coragem do mato.
Atravessou o trem, a fronteira
Do medo e tomou coragem, sem
Qualquer solidão.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Pensamento em dia


"De forma alguma sou o que digo. E nem digo o que sou. Nem o que como, nem o que escuto. Ora, o que eu sou não se escreve".

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Um momento


Foi quando o mundo se concebeu
E o verso desapareceu,
A nostalgia de dia com tanta alegria
E falta de proeza criou-se em si e se fez
Um quebranto por completo.
Então um rebento surgiu,
Junto do grito de um boi que pelo morro urgiu.
Dizem as lendas que o gemido
Era de São Miguel.
Quando foi que o terço reapareceu
Em forma de soneto, a nobre vila
da Aurora novamente se deu.
E hoje quem busca o mundo
Sou eu. Imagino que, embora
Tantos torventos se quebrem,
O mundo, completamente fora
Da órbita é meu.