terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Segundo turno


Levanto-me. Deito-me. Cubro-me.
E nada do que faço está bom.
Digo-me. Já que faço comigo.
Chamo-me. Já que me ouço.
Sinto-me. Já que amo.
Clamo-me. Sou santo.
As palavras ternas
São quase certas.
E quando se pensa na certeza
Desfaz-se o que era isso.
Entra um prefixo latindo
Ameaçando e dizendo:
Incerteza.
Depois, tudo é líquido.
À moda liquidação.
Casas de roupas, cumprimentos e chás.
A esquina é a mesma
O relógio também é o mesmo.
Acaba o dia
Começa outro.
Lá me vou.
Acordo-me. Já que durmo.
Bebo café. Cafeico-me.
Tomo banho. Banho-me.
Banha de sol, de sul de sal.
Já que morro às vezes.
Cometo-me. Já que se comete a tudo.
Meu turno acaba

Meu mundo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Minha força de mulher


Aconteceu que a morte veio em desatino num grito imenso de dor,
Quando me dei conta já era uma mulher e meia,
Meia causa, o que chamo de desalento.
Quando esposo e espaço ficam mesma coisa,
Qualquer coisa vale.
Sou dita mulher de penitência,
Guardo a demência dentro da cara lavada
E a cara solta, a que chamam trinca de gato, fico no caramba.
Agora sou mulher de anos,
Digo meses, tanto tempo que nem lembro tanto quanto.
Sou uma donzela, a média pinga do bar,
Uma montoeira de gelo e café sem açúcar.

Ora, meu caro, sou mulher do tipo “mestre”,
Finjo-me de burra, mas no fundo no fundo
Sou a causa perdida de meu pai que veio ao mundo
Sem pedir,

Eu que pedi para ser o que sou e me dou bem.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Ode ao Capital!


A longa caminhada que prolonga
Longas estradas corre diante do nariz
Como uma Ferrari vermelha,
Nítida,
Límpida,
Reluzente
Do burguês níquel.
Eu não critico nada,
Eu acho massa a Ferrari vermelha
Vou trabalhar a vida inteira pra ter uma
(igual a do burguês-funesto!)

Se não conseguir,
Ao menos atrás da Ferrari eu fui.
Fui e quase me matei, mas o preço é alto.
O valor também é alto
E a vida, a vida em alta velocidade
Estilhaçada e fragmentada
Voa, verte, viva e vazia como o tédio
e a angústia de não ter tido minha Ferrari vermelha
(igual a do burguês-burguês!)