quarta-feira, 29 de setembro de 2010

As névoas do rei Mar


Estava cansada da insensatez do dia que amanheceu sem graça. Eu inventava fórmulas novas para a sabedoria que se apresentava diante de mim. Quando despercebida do estado em que me passava, bati de frente a um poste cheio de negrume, dentro da estante da sala minha mãe ouvira um estrondo. Quando notei, logo após o barulho da minha cabeça contra o cimento artificial, começaram a escorrer lesmas de todos os modos sobre meus cabelos lisos, eu não gritava, apenas me deixava levar pela nobreza das larvas. Depois, peixes faziam sexo em forma de fracasso diante do mundo invisível, no qual eu vivia ou morria. Quando me percebi novamente já estava dentro do quarto, sozinha, sem luz sem nada. Eu não tinha vez, ninguém me ouviria nesse instante. Agora já se passavam mais de horas e no instante crucial foi quando minha íntima solidão me chamou, pediu para que voltasse a ser feliz como ela era, levou de mim apenas um livro comprido com o título: As névoas do rei Mar. Eu não me alarmei, não tive medo. Ganhei um emprego de secretária numa empresa de loucos, eu fiquei estagnada e em paz dentre todos. Começo a rir linda e ébria pela cidade. Bebo cerveja com pimenta e me esclareço: sou o teu pesadelo. Apaixonei-me somente uma vez na vida e depois disso não quis saber de mais ninguém, o amor não existe, não creio na minha potencialidade e ao mesmo tempo desconfio dos meus prazeres. E estava cansada da insensatez do meu dia e foi nesta hora que aprendi a chamar pelo teu nome, a cruzar minhas pernas quando ficavam “alerta” ao te notar. Consegui encaixar meu conto dentro do teu ponto e me chamo, talvez, de forma branda e eloquente, Rei mar e suas névoas.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Fiat Lux


A mãe tinha um Estado que deixaria ao filho mais novo. O filho mais velho, maduro de peito e chamado Pedro, imitava artistas da TV. O mais novo não tinha decência, andava de roller pelas escadarias da cidade e fumava maconha aos brejos. Um dia a mãe se foi, deixou uma ideologia para trás no coração de cada filho, um tornou-se comunista stalinista e o outro, anarquista que ouvia punk rock da pesada e pichava os muros das igrejas. O Estado virou uma tragédia em um só ato, a população vivia da fome, quanto mais se tinha menos sofria. Os comandantes do território, Pedro e Gabriel discutiam novos planos de governo. Foi liberada a droga que antes era considerada ilícita, os impostos de bebidas e cigarros baixaram, as boates abriram em dobro e o manifesto convencional da sociedade se fez. A ditadura dos filhos estava em meio a uma decepção horrorosa pelos gemidos da mãe. Nada podia ser feito. Pedro e Gabriel aproveitavam o data show do senado para jogarem videogame, os ministros cogitavam novos horários de trabalho, uma possível redução na carga e um aumento no caixa. A arrecadação do Estado era cada vez maior, e quanto maior era, mais se desviava das mãos do povo. Crianças tornavam-se órfãs de ruas escuras, os bares das noites frescas de chuva fina da capital viravam igreja e cada praça era um infortúnio, uma greve em cada poste. Mas um dia alguém se prostrou diante a tanta calamidade, tomou posse como se fosse um soldado, reagiu ao desespero dos loucos, a lua se concretizou acabada em luz pura, o povo se redimiu e Pedro com seu irmão, o mais novo voltaram à TV. Cada qual com seu canto. E depois disso a luz se fez.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Coragem

Vês? flor bela que me espanca
até a morte.
Quando caminhas parece
uma paina a dobrar-se pelo ar,
Quando estremeces ao me ver,
parece ter medo do medo de me chamar.

Intuo, num impacto dinâmico da consciência e,
como se fosse um objeto qualquer
eu resplandeço feito um nobre homem de coragem.

Percebes? Se percebo-te diante dos meus ouvidos
giro num ímpeto diante da cabeça
e esplandeço a tua paz.

Percebes? Se percebo-te num brilho fosco,
numa câmera nublada, tenho um sol
nos membros soltos de meus singelos versos.

Vês? Porque quando caminhas
eu, junto, caminho num traço
calmo da escassez ultra-humana.

Parece ser um filme,
por minha cabeça se passa um romance,
da minha boca sai um estrondo.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Três milagres em um dia


Depois de três dias seguidos, Paulinho continuava a correr pelas calçadas da grande cidade. Imaginava ali sua fortuna, tudo o que ganhara dos pais foi somente um par de chinelas e três mancebias. Corria ao encontro da aurora perdida da fome, aos cantos, de gauche da urbanização havia outros meninos de sua idade, cada qual com um olhar mais seco, cada um dele com sua paz desmembrada e fora do eixo. Paulinho corria ao encontro do Passeio, três putas à sua direita o fizeram parar, perguntara-lhe se tinha algum trocado ou isqueiro, nem um nem outro, continuava Paulinho. Em direção, agora, a um mistério na esquina com o Teatro principal, as peça começaria, já iniciava, era ator completo em perfeita denotação. Dentro do palco da vida, tinha um ato depois, quando a plateia se retirasse choraria até o fim do dia, ao alcance de meia-noite. Menino sozinho junto de três segredos que ninguém no mundo nunca saberia. Continuava sua caminhada às soltas, não tinha mãe que berrasse seu nome, nem pai que lhe convidasse ao convir, amigos poucos, sol na nuca e cabeça careça para remediar os piolhos. Num canto qualquer uma marmita em papel celofane, uma colherinha suja e lá se vai o menino a juntar sua fome com a grandeza do seu mundo; deveras ser um singular madrugueiro, dorme cedo, acorda cedo. Não discute por pequenas coisas, pensa serem indiscutíveis as histórias do dia-a-dia. Não tem sentido, não tem milagre nem hora certa. Numa hora dessas qualquer eu desmaio, pensa consigo e segue a diante. Como se fosse à primeira palavra alimenta da boca uma letra sem nobreza nem fantasia. Continua sua andança sendo um cantador deslocado, assovia e come algo dilatado, sem cor nem pecado. Chama, quando olha para trás, sua alegria, para que o siga, quer que venha junto e ela, meio disfarçada, compenetrada em deixar-lhe na mão nada responde, olha-o com desprezo e anseio. Nada mais neste dia acontece, tudo se esquece e nada, completamente, sai do lugar.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Paíz


Na efervescência do meu dia
Agradeço a essência de cada aflição.
Teus olhos, os que me lêem, são
Como a púrpura incógnita
De um mundo fora do chão.

Moro num país onde os santos
Almejam os milagres.
Moro numa vida onde o rei vive
Fora do trono.
Não tenho dono, mas tenho
Empecilhos.

Quando chega a noite aqui,
Não sei se fora do tom ou
Tonalizada, produzo emissões
Se emito produções arquitetadas
E discretas em cada unidade de
Sentido.

Na disputa louca e cruel de cada dia,
Quem chega ao poder é mestre
Da loucura,
Ganha-se pouco mas é divertido.
Não tenho mais por que brigar,
O vento de outono recomeça
Como a pedir licença
Em dilatadas educações
Que me botam na aflição.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

DEMANDa corAGEM


1º - JUNTO DE MEU SONHO
passa-se um tempo em forma de infância.
Me lembro DA MINHA ALEGRIA
quando cantava a epopeia da vida.
COMEÇO A DELICIAR-ME num ímpeto de coragem,
estarreço com um pulo ensurdecedor.

2º - Minha paisagem da terra que me guia
fica POR ALGUNS KM de distância.
OBSERVO ao horizonte um ontem cheio
de surpresas e um hoje negociado.

3º - AMO A PASSAGEM FORMAL DO MAR,
Nem bem nem mal, se tudo faz parte do ar.
O SOL, AINDA DELGADO, brilha para se aparecer,
ColOca uma melancia na cabeça e sai aos troncos.

§ - A lua, COMPLETA LUA, embreada pelo manifesto
rumor de uma luta, inicia um confronto
com o mar, quem manda se manda
a quem não tem tanta demanda de coragem.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pensamento em dia


"Quem teme faz pior. Quem se muito amedronta é que muito ataca. A paz é dos que a praticam como ritual diário, tornando-a essência da vida".

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Relato

Tapo os meus ouvidos
Surto sem querer!
Carros passam
Passo por lá...
Tenho coragem em ter medo,
Sou um ser-humano relato.
Sou fugaz como a areia da praia.
Fecho os meus olhos
Curto sem querer,
Vem de longe um negrume
de névoa porquê!
Por isso corro e me imploro,
Faço meu samba
E fico sem rugas.
Deixo os carros passarem,
Os prédios passarem,
Os biarticulados passarem,
Na praça, junto do banco branco
E dos pombos me abasteço
Das árvores instantâneas
Que o Deus me dá.