sábado, 27 de abril de 2013

Quando te vi




Quando foi que te vi?
Foi quando vi que nada vi,
Quando a vida foi chamada
No canto, e com espanto
Bradou:
Vida! Vida! Onde está?
Quando foi que te vi?
Foi quando a vida desistiu de ser vida,
Quando a anunciação deixou-se por vencida,
Foi quando as pedras caíram da alvorada,
Quando a estrada deixou de ser caminho.
Quando foi que te vi?
Quando vejo visto
Uma espécie de coisa animada,
A vida virada,
Foi que te vi,
Quando foi que eu te vi?
Nada visto, nada vida
Vivida que interrompe:
O chamado absoluto
Da vida,
Quando que te vi
Eu bem queria me ver,
Um pouco em mim um pouco em ti.
Foi quando te vi.

Envelhecer




É engraçado como a vida é.
Quando a gente é pequeno como um sapo
Quer ser grande como um leão.
E quando chega à medida
Do grande e feroz animal
Sente saudades da lagoa
E dos colegas girinos.
Quando a gente é moleque, destes
Que gostam de rua,
Quer por maior prazer
Ter pelos no peito, barba
E grandes músculos.
Depois que cresce,
Percebe que tantos problemas
Apenas deixam-nos
Sem pelos no peito, barba
E apodrecemos amiúde
Em frascos de remédios
Ensurdecedores.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Meio amargo




Quando olhastes bem
Dentro do meu verso
Eu até pensei que fosse
Um terço do que eu queria ser.

Meu verso era pouco,
Meio truncado,
Meio molhado,

Mas depois de tanto pensar,
Fiz dele um compasso,
Tirei rimas do jardim
E comecei a tocar:
- um novo verso.