sexta-feira, 27 de julho de 2012

Por um instante




Aviso que na hora do grito ela chega toda molhada e escandalosa. Mulher louca dos gênios das quiçaças e, quem sabe, dos saraus. Saio de madrugada aos pulos porque ela me tira de casa, diz o tempo inteiro que tenho outra, mas, discordo, não tenho nada. Encontro-me com o Zé àquela hora, depois aparece Tonico, conversamos de futebol, nossos times não andam bem, bebemos uma cerveja, depois outro e quando notamos estamos na décima rodada, passamos o Campeonato brasileiro brincando.
O meu celular toca inesperadamente, vibra e cai do bolso, apresso-me para pegá-lo. Estou sentado numa destas cadeiras maciças de plástico amarelo de bar, alcanço o aparelho e derrubo-o novamente. É a mulher que me liga. O Zé diz “deixa essa droga aí”, e eu faço o que ele me manda. Deixo o celular que toque em seu último volume no chão.
Ao voltar a casa quase de manhazinha, ainda sinto uma leve ardência nos lábios, os meus olhos estão murchos de sono e não consigo enxergar muita coisa, tudo está nublado. Passo pelo parquinho da praça onde crianças gritam e seus gritos me machucam porque meu filho não grita. Estou acabado, roupas sujas, calça rasgada. Continuo em silêncio pela estrada que me leva a uma amargura sem fim.
Depois de horas de um desespero errôneo encontro minha mulher, passa e não me olha. Como se eu fosse invisível ela demora e depois de duas horas vem em minha direção. Manda-me um tabefe na cara e sai pelejando, a caminhar torta pelo acostamento da BR.
Depois vem a sogra, depois o sobrinho e por fim a prima, ambos me condenam, dizem em alto tom que não presto. Enfim, presto minhas últimas palavras ao contador de água que passa neste momento em frente a casa. Tem um olhar por sobre os óculos, faz uma cara de medo com relação à mulher e continua seu trabalho (a ser atacado por cães vira-latas).
Já é noite, encontro-me de volta com o Zé. Fala de futebol, estou por fora, meu time está horrível. Depois de alguns instantes embriago-me, estou servido de cachorros por todos os lados, amigos errados e condutas mal esclarecidas. Sou um homem do asfalto, da pedra que se amassa diariamente sobre a cidade, da água que evapora nas calçadas, da fumaça que se extingue pelas fendas dos becos. Não sou o beco, sou o cerrado fora de casa. Perco tudo, mais uma vez não me sobra nada. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Mar




Amor além de amor é doce
Que se ama como se fosse,
E não se esquece como se desse.

Amor que é amor assim tido
Amor bandido de elenco
Eu não desdenho, só desenho
Porque é desejo de amor amado.

E destes quatro anos
De quatro em quatro
Mais os meses, mais ou menos três, quatro, cinco
E assim por diante
Se vai amando cada vez mais potente.

Dia radiante
Dia azul amado também por ser azul
Ou pavor, sem loucuras com tédios:
- Milagres, conselhos e estrelas.

Um toque de música no frio
Um sentido abuso
Um instante actínio
Lembro-me das lembranças de amor.

Sem gramática nem matemática;
O amor (este nosso amor) além de filosofia
A fisiologia, a sociologia de um carinho gigante
Sem amêndoas, parceragem;
Amor de camaradagem...

Conte comigo do amor envolvido
Sou teu amor
És minha princesa.
Vamos sair por aí
Pra ver os preços;
Quem sabe eu enlouqueço
Mas não deixo de te amar do tamanho do mar.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Questão




Ondas entretidas
Alegres Noivadas
Algodão de beira-estrada
Milho questão; feijoada

Roça Corta mole
Nuca encerrada
Meu nome:
Significado
Sobrenome:
Além de nome.

Hora atrasada
Tempo perdido
Sou questão de momento
Por isso que morro assim
De tempo em tempo

Sonho sempre e medo.
Meto-me nas estradas
Mas dos pensamentos

São rumores
Dores
Minhas melhores coisas.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Aurora





Eu não via a hora da aurora chegar
Toda dissimulada em cima da hora
Eu tinha dentes e arrepios
E eu sentia saudades de tudo o que fosse seu.
A minha demora talvez
Anunciasse um mar reflexivo como um poema
E a demora que vinha da aurora me confundia.

Era como o meio dia de lembranças e alegrias
Dias vindouros de um passado neutro,
Mas, quase de súbito a luz sem queixa de sombra
Reaparecia; era ela, a aurora
Que de tempos em tempos me sorria.

Os passos eram desconcertantes
E a medida do carinho era um paraíso.
Sorriso sobre sorriso em nuvens
Após as chuvas de dias infindos.

E lá no finzinho da estrada vinha ela mais uma vez
Despida de um sol maduro e belo
Cabelos tranquilos em um olhar sorridente
Dentes esbranquiçados como leite
E uma foto nas mãos escondia a sua presilha;
A aurora que vinha num vestido longo e sujo
Mas tão querida e esperada por mim
Numa solidão esquecida e amanhecida
Que eu até não sabia se era ela ou se era eu.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vidas




“Bom dia” – vinha dizendo a moça pela estrada.
”ora, bom dia aos diabos” – o homem de cavanhaque. O rapaz da esquina parado em frente à farmácia, com a perna direita recostada à parede e um cigarro na mão esquerda – “se dane”.
A moça era Gislene, vinha feliz, sorrindo e correndo porque havia se distraído a semana toda, já não lembrava de sentir-se mal porque acabara de encontrar um amor, assim ela o chamava.
Trabalhava na firma da Concritude, onde as belas meias de algodão eram exportadas. O auxiliar Gusmão de nome reconhecido era intermediário quanto às façanhas aprontadas em horários de disfunção, cada um tinha um apelido e
Gusmão passava sempre a ser chamado de charlatão, por entregar quem se alimentava no expediente.
A moça conhecida, a tal de Gislene, há quatro dias estava namorando, havia descoberto a tampa da frigideira, dizia estar ausente de corpo, mas de alma era inteira. O rapaz, seu namorado, não sei o que dizer, pois não sei motivos, minhas relíquias de pensamento não absorvem tanto quanto pudesse abster de pecados, contraignorância supérflua, ao que diz é respeito e o que diz é um repito.
Lá do rapaz de cima, de cavanhaque a vida era inconstante, ele havia perdido o emprego há três horas e pensava no que faria para tratar das filhinhas de pequenas idades. O rapaz da farmácia perdera a namorada para outro em apenas duas horas, estava disposto a dar fim na vida, mas via que no outdoor de frente da calçada estagnava um aviso: Cuide bem do seu amor, seja quem e como for. Era a música dos Paralamas.
A identificação aconteceu à soberba, e sobrou espaço para o café da sesta.
Na Concritude tudo ia bem, Não pelo fato de as coisas serem todas concretas, mas, pela estagnação de cada membro que funcionava em braços lá dentro, o barulho da sirene pela manhã dava o aviso: “comecem!” No horário de almoço à ruaça, os funcionários saiam para pagarem suas contas e tirarem suas conversas da caixa presa. Uma da tarde, e ao fim desta tarde, outra buzina inacabada que parecia um trem, fim do expediente, todos saiam na melhor ora do capitalismo humano. Gislene com as companheiras e as companheiras também felizes.
 Na rua uma velhinha de mais ou menos oitenta e cinco anos pedia alguns trocados, quando recebia, logo respondia: “Deus abençoe”.
Na avenida Urbana um palhaço fazia malabaris, as crianças todas achavam aquilo impossível, por isso mesmo é que abriam tanto suas bocas. Os pais sentados no parquinho apenas conversavam sobre os futebóis e as novelas.
Atrás da esquina da panificadora tinha um senhor de guarda-chuva. O menino que passava junto a sua mãe dizia: “olha, olha mãe, é o Papai Noel”, e a mulher já lhe entregava uma palmada na orelha. O velhinho apenas se dava por louco e ia olhando até o fim da calçada, aonde quase fora atropelado por um ciclista que vinha de cima.
Mas Gusmão da fábrica também consegue esconder suas bolachinhas, apenas se dá por biruta, mas é mais esperto que muitos da Concritude. A salvação de cada indivíduo de lá é que as vendas vão bem, porque senão estaria tudo perdido como o trigo foi aos milênios de tempos na antiga Grécia.
O amor de Gislene é um homem honesto, acredito porque ela diz, e quando ela diz é porque acredito. Tudo o que uma mulher como ela diz é verdade, e caso seja mentira, tudo muda de lugar e torna-se verdade. Gislene é calma e abusiva, mas às vezes impaciente e atrativa, talvez esses sejam motivos para escrever qualquer coisa sobre uma pessoa como ela, que merece uma gratificação do fundo d’alma.
Na rua, no sábado, todos os seres humanos passam como se fossem à guerra, uns pisam nos pés dos outros, outros chutam a obra ditosa da caverna, as obras todas são constituídas de títulos, e os títulos reverenciados aos autores das respectivas. Ao fim de tarde, a mesma possibilidade de desventura da face incapacitada de supostos cidadãos.
Em quase anoitecer, passam uns pelos outros e não se reconhecem, ao final de mente em alma e corpo. Gislene se encontra com seu namorado Adalberto, que passam pelo cemitério São Joaquim e encontram um velório do homem que era encostado à farmácia e perdera sua namorada. Passam também pela rua Justina, na qual um homem chora junto a sua mulher e filhas, o de cavanhaque, berra e se agita, os armários estão todos vazios e não há comida nem emprego.
Ao finzinho deste mesmo dia, a sabiá e o canarinho da terra ainda cantam explorando o axioma da revelação da vida.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Uns e outros



Alguns param
Outros vão
Outros não
Uns até se importam
Outros não
Uns apóiam
Gritam
Festejam
Aplaudem
Beijam
Abraçam
Outros não
Outros relutam
Transmutam
Intermedeiam
Alguns sabem
Uns festejam
Pedalam
Sofrem
Outros não
Outros morrem
Alguns vivem
Uns e outros passam
Alguns ficam
Outros e alguns são
E uns não
Alguns nascem
Uns nascem
Outros nascem.