terça-feira, 30 de agosto de 2011

O Sapateiro


Eu sempre imaginei que fosse virar poeta. Não destes que se tornam famosos depois da morte, pelo contrário, dos que morrem e deixam palavras dispersas sobre os ares, cheias de interrogações. Acredito, enfim, que o meu célebre objetivo não rendeu; não me dei por poeta nem coisa parecida. Sou sapateiro. Faço poesias com pregos e presilhas. Cola-quente, quem dirá. Aqui, ali e acolá. Prendo-me por uma eternidade quando deparo-me com um sapato fino, isso causa-me profunda nostalgia, essa imensa falta de alegria vem, eu acho, da vontade de um dia ter sido poeta sem nunca ser. Para ser sincero, eu as vezes até tento, inicio a droga do poema com palavras belas, rítmicas mas, cheio no meio do mar e a maré sobe, a tempestade chega e as palavras somem. “Foge-me a inspiração, sinto a alma deserta”. Uma vez fiz cursinho de haicai, produzi coisas que de haikai não tinha nada, tudo fora. Sem palavras necessárias, sem escansão, uma verdade desgraça. Depois me rumei para o romance, queria algo mais moderno, mais encorpado e complexo. Iniciei uma trama sobre uma menina que perdera os pais aos quinze anos de idade, porém, quando estava eu nas proximidades de dez páginas, esqueci-me do conteúdo e da base fundamental da obra. Parei. Consertar sapatos é o meu ofício, com muito orgulho me gabo. Se a vida não me quis poeta, ao menos aos caprichos de sapatos eu sirvo. Em tratando de minhas peripécias, sempre tive uma vontade absurda e absorta em não ficar parado. Sempre produzir um desenho, uma arte, seja ela qual for e a que mo conduziu à esta engrenagem foi o ofício de sapateiro. Conheci nos meus vinte e tantos uma moça chamada Surpresa, pela qual ainda hoje sou apaixonado. Com ela transo meus pensamentos, minhas sentinelas e meus tons apropriados. Andava encorajado na época e, ainda hoje, mesmo com uma falta imensa de rimas na vida, a encontro de vez em quando no bar, no café, na encruzilhada, nas bandas do sul. Meu trabalho despertou-me paixão imensa pelo que sei e, tudo o que eu sei, que posso lhe dizer, querido sapato, é que não aprendi a fazer poesia. Pra isso, infeliz, não tinha aula, embora o tentassem e tentem, pra isso meu amigo, é só matando o ser e o transformando numa obra de arte, que servirá ao mundo como a chuva serve à natureza. Dei-me por diversidade e hoje, com essa idade que a mim se conduz, sinto medo e compaixão, por isso sou leve como as folhas secas que se acomodam sobre o mar.

Chove...


Chove.
Delicadamente gotas de orvalho caem sobre o chão seco.
Pálido, o sol, tímido, some.
Chove.
Decididamente sombras enaltecem uma poeira de luz.
Tenso, o mar, louco, apura.
Chove.
Docemente uma agonia se aproxima como um furacão.
Perspicaz, quase morto, solto, o luar.
Chove.
Sinceramente sem perspectivas um estrondo: trovão!
Simpatia, lúcida, a trovoada, barulho.
Chove.
Pra falar a verdade, somente por orgulho.
Chove porque a ausência deu seu lugar pro tédio.
Simplesmente chove.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Aos teus olhos eternos


Conjugo-te versos
E destes versos convalesço-me.
Dos teus medos não esqueço
Nem dos medos meus
Que os dissipo.
Quase grito, surto.
Nem afere de um ourives
Cedo e solidão.
Amanheço-te séculos,
Beijo-te sobre o espelho
Abraço-te num laço vermelho
E ali ficamos segundos
Que são no fundo, eternos.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

versos brancos para Ingrid Junckes

Toda enfeite milagres em mim
Migalhas de amor poesias sem fim.
Meu amor, quanto tempo passara-se
Desde que o amor em mim rebentou o peito.
Inda te vejo delicadamente em meu espaço
Como aço, como solda, como solda, como emenda de meu enlace.
Inda vejo-me em teu espaço, teu céu, teu corpo inteiro sem fim.
Vejo eu a mim e a ti, veja-me sem o som do céu. Ouça, sou eu que te canta
Mais um poema como engate, case, enamore, ouça-me:
- Casemos os teus versos inteiros com os meus tristes versos e publiquemos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Fim de Mundo


http://www.camarabrasileira.com/contosdofimdomundo.htm

“O mundo não termina. As pessoas o detonam”.

21 de março de 1843, o mundo está sóbrio, nostálgico e sem nada para se fazer. Conheço Alissa, uma menina dengosa que acaba por gostar das minhas asneiras. A conheço e saímos juntos numa tarde de sol. A cidade do Rio anda movimentada mas, desculpe-me a expressão, estes trajes de banho não me tocam em nada, espero que em 2000 as coisas mudem e até lá, estarei vivo para ver. 21 de março de 1844 passa-se de relento com uma fina chuva em Copacabana. Não estou mais com a Alissa, sei lá aonde ela meteu-se. Estou sozinho e só continuarei até encontrar o grande amor de minha vida, antes disso o mundo não se acabará.
6 de setembro de 1994. O mundo ainda não se acabou, mas, prematuramente acabo de lembrar que amanhã completarei mais um belo ano de vida. Ando ficando velho, minhas rugas não cessam e, por incrível que pareça, ainda estou disposto a caminhar no Botafogo.
7 de julho de 2000. O mundo ainda não se acabou, pelo menos para mim, continua redondo em sua circunferência rachada indisposta e cheia de enganos, porém, continua. Vivo num mundo relaxado, meus amigos esqueceram-se de mim faz muito tempo, vivo totalmente isolado de tudo e de todos e, mesmo assim, mesmo com tantas promiscuidades, meu mundo continua intacto e sem transformações reais. Comparo-me a um grito, esvai-se ao rochedo e volta com um eco triste e reflexivo. Chamo-me Narciso, produzi o eco.
21 de março de 2002. Tarde ensolarada. Os trajes de banho melhoraram. Nada que eu o diga de forma clara porque ainda tem muita coisa feira por aí. Nada de concisão. Melhoro meu aspecto físico no espelho e me mando às Laranjeiras. Encontro-me com Alissa, meu silêncio se transforma em tremor de pernas e braços, o sangue que corre diante de mim se faz intacto e sem louvor, a cumprimento. Ela diz-me o quanto eu cresci e tornei-me agressivo, mas, como sabe tanto de mim? Se nem eu conheço-me a tamanha altivez? Desgrudo-me de meu I-pod e locomovo-me para o Arpoador a pé, com muita coragem me bando para aquele lado, onde tem mulheres e moças diferentes.
Entro em uma avenida desconhecida. Vejo-me de frente com um mendigo e ele interroga-me, pergunta o que faço ali, em seu espaço? Eu não tenho respostas no momento e no instante em que estou para abrir a boca, sou assaltado, levam-me tudo o que tenho e, em seguida, como num momento de êxtase eterno sou o assaltante, roubo uma senhora, levo sua bolsa, seus sapatos, sua saia, deixo-a de mãos abanando e já não me conheço mais. Minha miséria levou-me tudo o que eu creditava. Não tenho mais conta nem nome, Narciso esqueceu-se. Não sou dono de mim.
Mas, se tudo isso que aqui escrevo, diante dos fatos esclarecidos neste diário, acredito que eu mereça um tratamento do governo. Eu dependo dele porque não me viro só. Hoje é dia 22 de agosto de 2005, nada demais aconteceu. Eu ainda ando confuso por aí. Agora estou no Cosme Velho. Não tenho dinheiro para subir o morro, vou a pé. Ninguém me curva, eu não tenho culpa.
- Moço, aonde você vai? – esta voz vem lúcida e firme contra mim.
- Eu não sei – respondo também firme.
Continuo a caminhada. Chego ao Jardim Botânico. Concordo com os termos de acesso e me adentro. Ali têm muitas crianças a correr pelo mato, uma casa velha e algumas plantas. Aquele lugar é parte de mim porque sou eu a natureza que sobrevive ao nicho de meu habitat. Configuro-me diante de uma imagem de santa, não sou eu quem o diz, entretanto, das minhas mensagens extraídas e esbaforidas do meu lábio, argumento que o meu dia se acabou e, contudo, ainda o mundo está sólido, líquido, liquefeito, imóvel e complacente. Não admiro mais a poesia do elixir das nuvens nem do mar.
8 de setembro de 2011. Agora sim, estou a gostar de ver os trajes de banho. Cada vez mais curtos. Música alta e diamantes na calçada. Isto aqui tornou-se um paraíso. Arrependo-me não ter nascido antes. O mundo gira a 950 km por hora, é coisa de doido, agarro-me na terra, é velocidade sem fim, incontrolável e, ainda assim, as pessoas se obrigam a pagar o teatro municipal. Sei lá o que digo. Onde estou? Eu não sei com quem estou a falar, mas, este negócio está cada vez pior.
09 de julho de 2012. Acordo-me com uma mensagem louca no celular e um e-mail de spam. Estou sentado diante do meu computador a pensar em meus negócios, tudo volta ao normal, hoje é um dia normal também. Mando um e-mail de resposta ao Sérgio da imobiliária Mil. Sei lá o que ele pensará de mim. Abro as cortinas e deparo-me com um imenso mar da Barra, isto aqui é o paraíso. O mundo não se acaba.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Besteiras de batedeira


Perdoe-me pelas terceiras intenções
Perdoe-me meus olhos não são leis
Perdoe-me e me veja como um barco de papel
Que vai sumindo...indo sobre o mar até o céu.

Diga-me palavras que eu nunca pensei ouvir
Traga-me teus tenros sonhos até meu coração
Abrace-me tão forte que as nuvens se dissipem
E comece um vento solto em ablação

Chegue-me diante dos lábios e comente
Que o teu dia foi melhor do que pensava
Que o meu dia se ganhou como uma esperança,
Argumente que os teus pés estão sós
E necessitam de boa lembrança...

Perdoe-me pelas intenções que são levadas
Como folhas sobre o ar em um compêndio
Abrace-me como se eu fosse uma alvorada
Uma estrada...Uma noite de encanto lavada
Por milagres que não voltam nem que o dia acabe.