segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Mórbido


Acordarás sentida e me guiarás ao teu umbigo.
Parte inteira, inteiro um mundo
Ou pedaço dele. Quem sabe o que serás?
Interrogações surgirão sobre tua boca e ela,
Esquisita, beijar-me-á no prelúdio de tuas ideias.

Não acontecerá talvez noção de modo
Espaço ou momento.
Tudo será apenas um guia. Sei lá!
Estranha, beijar-me-á devagar
E os teus olhos mórbidos meio calados
Se esquivarão do medo do meu olhar.

Uma coisa meio que doida acontecerá.
Acontecerão fases recíprocas.
Depois da tempestade o sol voltará a sorrir.
Num ato! porvir, a vida guiar-me-á ao teu lazer
Que o meu laser detectou desde o futuro.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Bordô



http://www.camarabrasileira.com/tt11-008.htm


Rua São Jorge, apartamento 108, praça Tiradentes. Inicia-se uma conversa do outro lado do apartamento que aos poucos vai aumentando sua tonalidade. Larissa inquieta no seu canto ouve sem querer ouvir estas vozes que dilaceram seu coração. Sai em prantos, abre a porta com uma pancada de solavanco e se manda rua abaixo. O chafariz entupido apenas acomoda-se indiscretamente revelando apenas mais um descompromisso da política com o cidadão. Seus cabelos ao vento e ela, graciosa com um sorriso embutido em lágrimas tortas. Continua seu trajeto sem olhar para trás. Chega enfim na Lancheria Alameda, pede uma sopa e uma taça de vinho, um pouco incômoda ainda por estar só e, do outro lado de sua mesa há um casal que se beija reciprocamente, saem do local depois de duas horas e se vão quem sabe a um motel próximo.
Larissa já na quinta taça projeta-se sob uma sombra oblíqua que não a leva a lugar nenhum, e sim, muito pelo contrário, a detona em cada esquina. Não quer voltar para casa tão cedo, o barulho infernal naquele lugar é antigo, o lugar passivo e as pessoas terroristas. Gritos, bafos, socos, empurrões, um caos que a inaugura em todo segundo. De preto, olhos pintados, cachecol bordô e uma blusa jeans que remete aos tempos de dantes. Caminha com um susto longínquo, como se estivesse num passado simples e que neste tempo não soubesse o que fazer. Apenas continua.
Ao passar pela XV de novembro três garotos a impedem o trajeto.
- Que foi tia? Passa a grana! Tira a roupa, vadia!
Então a menina, num desespero entrançado, repele com um silêncio solto:
- Não tenho dinheiro, moleque! – e retira a blusa jeans, depois a saia preta com os sapatos, retira o cachecol e corre enlouquecidamente pela rua com destino incerto. Grita e os malandros a perseguem até certa altura, porque ela entra numa farmácia que mesmo tarde da noite continua aberta.
Depois do fôlego recapitulado volta à rua. Caminha lentamente como se alguém estivesse à sua espreita. Chega novamente em casa, na Rua São Jorge, apartamento 108...por enquanto um leve som de música clássica, e no entanto aumenta gradativamente ao passo em que ela se aproxima da porta, como uma canção de Wagner que fere no momento oportuno.
Uma mão repele Larissa ao passar pela entrada de sua residência e logo ela tenta se segurar no vão da escada para não cair. A mão surgiu vagarosamente e do nada a derrubou. A mãe, caída ao chão agoniza ainda depressiva, rola sob o chão úmido do qual depende. A mão sumiu como num passe de mágica, a mesma mão que gritava anteriormente e que fez com que a mãe entrasse num desespero surdo.
Depois, não mais que dois ou três minutos a vizinha estava escondida sob a porta, observando com um olhar frio as caudalosas noites de angústia de Larissa que veio a ser mãe com seus 13 anos. A mão, dizem hoje em dia que era de Gabriela, sua filhinha e que, no momento do pranto um estrondo em seu apartamento ocorreu.
Hoje, ao passar pela Rua dos Golfinhos, sob um sol dilacerante e mudo, um mundo observa numa lápide da praça ali contido o cachecol bordô com uma frase: Foi-se o mundo em que a coragem era temida. Os moleques arruaceiros continuam a perpetuarem os cômodos vazios da cidade, a picharem os prédios abandonados e a esconderem-se da polícia em dias de futebol e, no mais por ventura, o ar que habita o lugar nos dias comuns é o mesmo, forte e tenebroso. O bordô das ruas se apaga da mesma forma que as lâmpadas são estilhaçadas por pedras corrompidas.
Larissa, a invenção da mãe que teve uma filhinha foi mantida presa por muito tempo em uma casa de recuperação. Não se sabe o que sucedeu.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O óleo Trunco


Leio um anúncio no Jornal do Povo que me instiga. Dizia mais ou menos assim: “Venha conhecer os milagres do Reino Mundi, liberte-se”. E eu, nas alturas em que me encontro vou até o local. Uma igreja enorme, com estruturas funestas, arquitetura incomparável com vitrais reluzentes e cores diferentes. Ao chegar à porta um homem de preto, talvez segurança do local me questiona: “Identificação!”, eu deslocado me viro nos trinta, não compreendo e faço a ele um olhar de interrogação. Então volta com um chamado mais objetivo: “dez reais, moço”. Entendido. Pago e adentro-me no palácio.
Se fora era bonito, cá para nós, dentro o negócio é três vezes melhor, salas de jogos, piscinas, confraternizações e, ao centro, o local da pregação. Um homem, aparenta trinta anos fala quase rouco, grita, chora, esperneia, se contorce e chama deveras algumas pessoas ao palco para dar suas vivências à mostra.
- Agora quero chamar aquele senhor, isso, sim, este senhor, vem cá!
Um homem de mais ou menos sessenta anos sobe, vagarosamente, então se iniciam sessões de perguntas e respostas, uma famosa entrevista entre o legendário e o barroco. O pastor começa:
- Então o senhor dará sua dita!
- Sim, sim. Eu fui ao banco esta noite, quando não havia ninguém e lambuzei a porta com o óleo trunco, depois, depois, depois... no outro dia fui lá, pra ver minha dívida de trinta mil euros, então o gerente olhou-me e disse: Não, senhor. Não há dívida!
Toda plateia boquiaberta a babar sobre seus livros. Então o pastor repele:
- Palmas... Viram só? O óleo trunco o fez! O óleo trunco faz milagres. Este senhor devia ao banco e, passou o óleo nas portas e noutro dia foi até lá e nada mais devia. Palmas.
Eu, ainda com certo espanto em desacreditar do ocorrido, coço-me, olho para trás e há muita gente ali.
Ao final, o pastor segue com um olhar titubeante a todos dali e para justamente em mim, logo a mim! Chama-me, eu pergunto se sou eu e ele diz “sim, é você, venha”. Coloca as mãos em minha cabeça. Fala um árabe contínuo e pergunta-me: “o que quer?”. Respondo de pronto: “um carro zero”. E ele interpele: “pois terá ainda hoje”. E manda-me de volta ao meu lugar.
Então se acaba o evento e, depois da chamada, vou até a loja de conveniência da igreja, compro uma garrafinha do famoso óleo trunco. Saio do lugar ainda perplexo com tantas falações e diálogos. Chega a mim uma mulher linda e diz: “moço, este carro é seu”. Colo neste momento minha garrafinha no bolso. Ainda descreio daquilo, mas, ela entrega-me as chaves. Depois de um alvoroço danado, depois de minha gritaria e alegria, pego as chaves e saio de carro zero. Na primeira esquina da Desembargador Motta com a Carlos de Carvalho sou assaltado, levam-me o carro. Baixo minha cabeça. Chego a casa ainda triste, porém, suscitado com o milagre. Resolvo comer peixe. Pego então meu óleo trunco do bolso, ponho-o sobre a frigideira e faço peixe frito. E não é que este senhor óleo trunco é bom mesmo? Ficou divino.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Em rolo lados lado a lado


Teu olhar
Teu caminhar
Pena que peno
Pensando em ti.
Teu passo
Teu medo
Medo do que tens?
Teu sorriso malicioso
Teus lírios tidos
Em tempos passados...
Teus fragmentos
Melhores momentos,
Ah, estes nunca te esquecerás.
Teu rolo de rodas e cordas
As tranças, barrancas,
Sorrisos tímidos
E modas.
Teu passado
És parte do meu.
Pensando em ti
Zelarei as noites
E os dias inebriados
Serão contidos
Em minutos ou segundos.
Teu caminhar
Teu olhar.
Enrolado
De pensamentos
E momentos
Em rolo metro
Rodas de sal
Mar
Azul
Sol.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Eu não sou o Estado


Hoje cometi um erro.
Levantei-me e pensei sobre o mundo.
E meu mundo de mim se esquivou.
Hoje acordei pesado
Depois de um leve pesadelo.
Fiz-me lembrar por bem que o meu
Patrão me espera de cinta às mãos.
Fiz-me perceber que
Sou um objeto do Capital-Estado.
E neste estado no qual me vejo
Não sinto emoção nem sensatez.
É uma mistura destrambelhada de nojo
E arrepio.
E neste arredio convívio meu de mim mesmo,
Fecho as portas do meu quarto e ouço
A minha canção de amor;
Que diz em um dos versos
Que a maior solidão é aquela
Prolongada, dura, sólida
Que convive com a alma
Mesmo estando só, num mundo de mágoas.
A canção já não cura
Não desfruta coisa alguma.
Mas, uma de minhas melhores frases
Que esqueci, dizia que o mundo
Pode, ainda que com custo, tornar-se
Uma máquina que trabalhe
A favor de ti...de todos.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Querido Diário, de Chico Buarque




http://www.youtube.com/watch?v=TW_QM0H0ZYg

Chico revela em seu novo disco um discurso interno, mais precisamente, de um apanhado de memórias sob as quais revive de modo singular e autêntico. Parafraseando Gustavo Bonin que fez uma análise maravilhosa sobre esta obra e diz em questão da mesma que o narrador em Chico busca um relato no fundo do baú, comparando-se até mesmo ao Brás Cubas que narra suas memórias após a morte. O disco, enfim, apresenta inúmeras personagens com suas características, emana-se de um modo reflexivo sobre o amor, o sentimento, esta coisa perturbadora que nos deixa emaranhados e amarrados sobre nós mesmos.
Seu discurso subalterno, rico de elementos populares também faz parte de um pano de fundo bastante conhecido (muito mais em prática do que em teoria) que é exatamente, tomando o termo sugerido pelo grande teórico filósofo francês Gilles Lipovetsky, a hipermodernidade. Este termo sugere pensar a música “Querido Diário”, que apresenta aspectos hiper-reais, fundamentais para repensar o meio social no qual a vida se insere. Esta música baseia-se sob uma improbabilidade dos fatos dentro do momento hipermoderno. Compreende-se como uma melodia harmonizada em meio a um anseio subjetivo no discurso musical em pequenas sutilezas, uma voz vinda de um lugar profundo, sem muita expectativa. Se lida, porquanto, com uma disfunção da linguagem e esta, ainda que rebuscada e incompreendida diante de seus relatos, abrange uma grandeza ínfima que serve de parâmetro ao fato real em que o dia-a-dia causa.
Sob as palavras de Linda Hutcheon, a poética pós-moderna trata-se do “que é e como se dá” esta incompreensão realista. Trabalha-se num ambiente de desordem e fatos antigos, reinventados pelo olhar do narrador.
A canção enuncia perguntas que não são respondidas em torno da trama, enuncia também prodígios de pensamentos pelos quais o narrador perpassa um mundo imaginário, um caos desorganizador, pensa em ter religião, amar a uma mulher sem orifício. E hoje, afinal, conhece o amor, este objeto que se mostra como uma obscura trama.
Através de um emaranhado descaminho, a canção restaura uma beleza que se havia sido esquecida. A narração plausível e leve com novas memórias e situações aborda a temática da desventura e revela, a partir de então, aspectos contemporâneos que são, ao mesmo tempo, causa e efeito.


HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago,
19 91.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2763082-EI6782,00-Entrevista+Gilles+Lipovetsky+parte+I.html

http://www.chicobastidores.com.br/