domingo, 8 de dezembro de 2013

In re spiração



Quando as almas se enlaçam no amor infinito
Acontece um rumor de guerra, um agito.
Quem fica de perto sente o motivo,
Quem vai de longe aperta o prazer.
A alma que dá prazer
É da cor brotante do mar, quem ama de amar
Querendo sempre estar de perto.
Quem cobre a sombra
Com gestos e sonhos
Fica perto do tempo, envaidece
O gosto, porque quem está longe do amor,
Fica longe do mar, não consegue seguir,
Esquece de amar.
E o suplício do motivo de agora
É que as almas se enlacem, se cruzem,

E ganhem cor e saber a cada nova estrela. 

sábado, 28 de setembro de 2013

Quando o amor te acontece



Quando o amor começar a te acontecer
Pegue-o de frente, não dê as costas.
Jure não estar vencido, mas por dentro,
Derreta-se, derrame-se. Não se amedronte:
Todo amor é bem-vindo,
Prodigioso e com direito a estribilho.
Acalme-se diante disso tudo,
O amor (...)
Vai que o amor
Acontece aos pouquinhos.

Intertextos entre os becos



Do que adianta olhar para fora?
- enxergar o estribilho?
Cair na gandaia?
Se tudo o que não vejo, sou feito de eu mesmo?

Reza a lenda. Quem preza por si
Anda na linha,
Quem foge ao avesso
Um dia tropeça,

Aonde for
Quem seja
Com que dor.

Anda na linha!


- O que mais vejo é, meu irmão, o beco.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Lado a lado



Agora eu sou um louco
E não me sinto pouco
Quase intenso; me reinvento,
Sou moço, seu moço,
Sou simples de coração,
Embora haja alguma emoção
Ajo por intuição
Sou ser sou dialeto
Sou por inteiro: completo.

Me distraio com as palavras
Afinal, são elas eternas
falas, lanternas raras
Sou pedaço de aço
Pó de asfalto
E medo de tudo
Do certo ou do errado
Tudo aos poucos,
De lado a lado.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Como neve



Neva em meu coração
Como neva em minha cidade.
Lembro-me do convés de minha tenra idade
Quando era criança e a distância
Não fazia diferença alguma
Porque se amava perdidamente.

Hoje neva uma neve fininha
Solvente em flocos doces como uma sinfonia.

O gelo sedoso se derrete aos poucos
Durante o dia
E perdidamente na mesma harmonia
Eu apenas sou coadjuvante.
Não mereceria papel importante nesta
Chuva de gelos em gelos claros
que se intensificam à luz do sol.

Faço-me desta instância

Uma imprudência.
Se, de fato o tempo ou a glória
Dele se atentam sob minha ausência
Então, já nem papel de nada tenho.

Apenas observo a neve tão linda,
Que aos poucos gela em meu peito.
É tímida a tal neve,
Cai lentamente a combinar com tantos
Sonhos enfrentados em tantos tempos.

Neva como a esperança de amar aos poucos,
Pois é assim que se constroem corações
Fortes para resistirem a fortes paixões.

Novos dias hão de nevar
E nesta nuance.
Nevar-se á de notas cada olhar. 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Renascer



Vivi, principalmente nasci.
Mas, se agora me apresento como sou
Já sei que sou só um outro.
Porque todo sonho quanto solto
Sul, eu mesmo sei
Que o céu é meu sol.
Aprendo diariamente com tudo,
Mesmo mudo, às vezes ditoso,
Manhoso e equivalente
Aprendo no sistema incerto.
Na sadia filosofia dos que
Se alimentam pela alma.
O brando cume de luz me aprecia,
A poesia
A nostalgia
E as palavras de alegria
Não me fazem crer
Que um dia
Era apenas pó
E deste pó renasci.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Se a poesia



E se a poesia salvasse?
Não haveria salvação
Porque tudo haveria de se perder.

Embora eu cruzasse campos de trigo
E perais alaranjados pelo sol longo de inverno
Sempre existiriam as rochas lúgubres
Imparciais de luz.

E se a poesia respondesse?
Ela já não responderia.
Ninguém acreditaria.

Se eu soubesse as respostas.
Não! eu não sei.

Continuo uma interrogação
E nesta fugaz meditação
Somente reapareço
De vez em quando
E às vezes
Meio discreto
Desapareço.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

A casa de um suicida



Era inverno e a comida já havia esfriado. Enquanto eu me envolvia no sofá junto de muitas cobertas também imaginava o quanto frio suportara do lado de fora daquela casa. Mas, não. Eu não entrara porque era de aço. Era uma casa nada engraçada. Sobre seu telhado havia um limbo verde musgo do qual eu me metia em medo constante. Aos fundos, com muitas árvores amedrontadoras e gélidas secas. Eu estava só e solto, não era mais dono de mim e, enquanto pensava o tempo regredia de forma vagarosa.
Em um determinado momento, ao passo que eu passava em frente daquela mansão, surgiu um homem de idade mais ou menos entre setenta a oitenta anos. Olhar cabisbaixo, lento e sôfrego. Tropeçando aos pouco em seus próprios passos e com um olhar de queixas. Era um homem preso, mas livre. Tentei um cumprimento somente com a cabeça, sem retorno algum.
Em seguida eu parei à rua deserta. Tentei fazer de conta que estava arrumando meus cadarços. Aquilo parecia-me loucura e mesmo assim eu continuava.
O senhor me observou, não sei ao certo se observou que eu estava a o observar ou somente a mim, sem mais nada além disso. Meu coração entrou em disparada num estágio conturbado e alucinado de esperança em lhe remeter uma palavra que pudesse, porém, não podia, pois eu não entendia o que me passava pela cabeça.
A casa ainda permanecia fechada. Era escura com paredes em tintas d'água descascada e antiga. Havia berais tornos e alguns até mesmo soltos. As janelas marrons davam uma tonicidade de ensejo e infortúnio. O gramado era alto, o que dava-me a impressão de que há tempos ninguém o cortava. Contudo, mesmo com estas imagens eu me ative. Eu estava meio tonto e de agora em diante, como um amante ou como um ledo espaço, procurava me atentar a cada passo que o pobre senhor dava.
Talvez eu fosse apenas o que ele um dia poderia ter sido. E agora, encostado sob o muro de meia altura lhe escorria uma lágrima do olho esquerdo. Fiquei sem ação. Pensei em ir ao seu encontro mas, não seria bondade de minha parte. Um homem quando está só, sente-se só, é só. Entretanto, não basta ser só, deve-se sofrer para somente depois tentar ser.
Eu fingia neste instante me apegar ao ponto de ônibus, só que não havia ônibus nem carros nem nada. O tempo era brusco, nublado e sujo. Eu era em mim um desejo pronto de estabelecer qualquer relação com aquele homem. Nada saia de mim. Nada eu aprendia. Nada mais sabia.
O dia se passou lento. A casa estava no mesmo lugar. As árvores também eram as mesmas. As luzes durante o entardecer deram-lhe um ar de mistério ainda maior. A neblina aumentou em um curto espaço de tempo e para minha sorte o ônibus ainda não tinha chegado. Adormeci.
No outro dia perguntava-me : “morri?”, não encontrava nenhuma voz em resposta, apenas um sussurro nos ouvidos, era uma mistura de sonho com realidade. Já não era sonho. Sim, eu estava debaixo do ponto de ônibus e um cachorro me lambia os ouvidos com um cheio de carne podre. Era um pobre cão da rua. Iniciei minha caminhada de forma sôfrega e ao adentrar em uma padaria percebi através do noticiário do telejornal das seis que um senhor se suicidara durante à noite gelada em Curitiba na Rua Nova Zelândia, nº 4222.
Eu tinha quase certeza de que era aquele senhor.
Agora, a única coisa que me passa pela mente é refletir sobre o que, talvez, ele refletia minutos antes de se atirar no ponto escuro do gelo da noite. Seu nome era João Augusto Novaes de Melo e seu corpo enterrar-se-ia às quatro da tarde deste mesmo dia triste e mudo. Cintilado e cruel para alguns. Louco e desesperador para outros.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

"Nosso romance"

"Tenho medo do dia em que a tecnologia vai sobrepor a interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas" A. E.

Houve, sim, um dia em que nos encontrávamos e queríamos saber um do outro. “Como foi seu dia”? Eu dizia, e logo como resposta vinha um “Dia completamente lindo” em uma noite perfeita. Depois nos encontrávamos e às vezes sentíamos muita falta um do outro, então eu resolvia lhe escrever, porque eu amava tudo aquilo. Eu escrevia e por incrível que isso pareça hoje em dia, a carta chegava até as suas mãos. Em seguida me respondia cartas com pesadelos, outras com palavras doces, mas todas com muita riqueza. Até hoje as guardo, é verdade.
Eu adorava todo aquele momento em que fazíamos de nossas vidas uma grandiosidade sem tamanho. Nos víamos e não tínhamos muitas instruções sobre como nos comportar. E quando notávamos alguma notícia relacionada a você ou a mim, quase acabávamos por morrer. Era um tempo diferente no qual dominávamos nossa existência através de uma ansiedade diferente. Predicamentalmente eu lhe via, lhe notava e apetecia, ao menos no início de nosso romance. Eu me acabava de vergonha e não sabia o que dizer e, é exatamente por isso que dominava o jeito de escrever de forma a te seduzir com minhas humildes letras. E repito: Eu quase morria.
Depois ouvíamos nossas músicas no rádio cassete, sim. Fitas eram perfeitas, pois gravávamos coisas por cima e ficava uma bagunça danada; sem contar que também ouvíamos discos, alguns ainda tenho guardados. Era uma maravilha. Contudo, em certo dia aconteceu de nos encontrarmos diariamente, eu lembro como se fosse agora, lembro também das folhas verdes que caiam ao chão em um dia de frio com neblina. Esta imagem, te juro, é um quadro em minha memória. Porém, acabaria minha história. Relatarei outra estória, a qual banalizada sobre meus versos mudos nos encontramos em outros tempos. Hoje, se nos vemos ou nos beijamos, é tudo tão fugaz. Nada de se demorar aqui ou acolá. Qualquer migalha serve. O disco se foi, as fitas também, eu, você. Hoje temos o computador, o celular e quando me lembro já é hora de parar de digitar, pois minha filha está aos berros lá na sala. Eu já não tenho paciência para essas coisas, mas, preciso ir. Hoje nós somos apenas resquícios de uma época que não haverá de voltar, apenas ir, não sei aonde. Conquanto que somos, seremos apenas o almejado, o bolor, a ferrugem. Eu acho que estamos ficando velhos e pelo que percebo, nossa juventude não quer saber de nós. O distanciamento nos torna fúteis e inúteis e acredito, benevolamente, que estamos regredindo ao estado dilacerado para nada, sem significado algum.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Achar-se



Acho que já é tempo.
Sei lá de quê ou para quê.
Desconfio, solamente, entusiasmado
De que cada momento que existe
Seja o princípio de pequenos fins.

Acho que eu não sei bem o que ser,
Nem o que fazer, sei lá.
Se me incluo neste achar-se
Desviado de regras prontas
Penso, talvez, que tudo seja pelo contra
E neste impróprio mar
Quem saberá,
Se existe algum fim ou meio?
Ou será quase um segredo?

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Se queres paz te prepara para a guerra. Se não queres nada descanse em paz!





Tenho visto muitos jovens indo às ruas ultimamente. Até pouquíssimo tempo atrás eu imaginava que a juventude atual não se envolvia com estes tipos de coisas, mas, como todo ser-humano e brasileiro, eu me enganei. Me enganei a ponto de ler em jornais tantas notícias de pessoas unidas por objetivos iguais.
Trazendo algumas informações para o lado pessoal, nunca havia percebido adolescentes tão empolgados com tais acontecimentos. A única coisa que percebia eram suas vontades em ir à balada ou ao shopping center, até mesmo a um funk de fim de semana; pronto! Me surpreendo e bem feliz da vida em ouvir diariamente que os adolescentes estão abraçando uma causa nacional, feliz em ver pessoas protestando de forma inteligente e digna (infelizmente há os mal-criados em meio aos bons manifestantes) por um país cheio de erros e de personagens políticos dispostos a enganar e roubar o tempo todo sem pensar na nação como um todo.
Neste momento o país atravessa um novo estado e para ajudar, estão chegando os jogos da copa do mundo, os quais darão ainda mais combustível às pessoas desgarradas de irem às ruas com suas manifestações.
Estes protestos não ocorrem somente por conta do preço do ônibus, vão muito além, têm a meta de envolvimento de muitos outros fatores que, no entanto, estão sendo vistos de verdade somente hoje.
Mas, tardiamente que seja, isso está acontecendo. Muitas pessoas se perguntam: “Por que isso está acontecendo somente agora”? Porque agora é a hora, não passa disso.
Acabo meu texto de forma alegre, pois quando se vê uma nação unida, a partir disso é que se projeta de verdade o termo Nação. É de arrepiar ver jovens limpando o Congresso Nacional: Isso que estão fazendo é uma linda metáfora. Porém, é relevante não esquecer de refletir sobre a prática de protestos e manifestações, entender sua essência, correr atrás de conteúdos, estudar sobre as questões sociais e políticas do país e, principalmente, aprender a fazer guerra pela paz. Acredito que assim teremos mentes brilhantes para um futuro próximo.

Pró-testes


Protesta o meu povo:
Um arco em direção ao azul do céu!
Rebenta no meu peito
Em forma de estopim
Uma vontade quase louca de se lutar.
Mísero, misérrimos os ditos
Entre não ditos.
Vou, sim, à armadura e laços
Pois se traços não me ofendem
O que seria assim, do aço de meu sangue?
Reúno-me à massa
E de toda farsa de um país nulo
Prejudico-me, atenuo, mas queimo
As bandeiras opositoras
Dos que matam por nada
Dos que atiram sem nada
E deste mesmo nada tudo se perde
Tudo se esquece no tempo
E depois, pobremente, nada se compreende.

domingo, 19 de maio de 2013

Alegria




Sou o momento bonito de ontem
Sou a raridade da vida
Sou a idade da pedra
A tristeza do Jeca
A insuficiência do pior dia
Mas a realeza da meridionidade
Não sou nem confesso: pela idade
Que sou apenas alegria.

domingo, 5 de maio de 2013

Permito-me



Levanto-me. Deito-me. Cubro-me.
E nada do que faço está bom.
Digo-me. Já que faço comigo.
Chamo-me. Já que me ouço.
Sinto-me. Já que amo.
Clamo-me. Sou santo.
As palavras ternas
São quase certas.
E quando se pensa na certeza
Desfaz-se o que era isso.
Entra um prefixo latindo
Ameaçando e dizendo:
Incerteza.
Depois, tudo é líquido.
À moda liquidação.
Casas de roupas, cumprimentos e chás.
A esquina é a mesma
O relógio também é o mesmo.
Acaba o dia
Começa outro.
Lá me vou.
Acordo-me. Já que durmo.
Bebo café. Cafeico-me.
Tomo banho. Banho-me.
Banha de sol, de sul de sal.
Já que morro às vezes.
Cometo-me. Já que se comete a tudo.
Meu turno acaba
Meu mundo.

O som da memória



Vem ruindo um som esquivo
Fininho da memória
Que me chama aos poucos
E que me clama e implora:
Aumenta o tom sem dó
De mim, nem piedade,
Ruína num sobre-espaço
Demasiado entregue
Por algures.
Vem aumentando o som,
Ergue se entreabrindo
Num laço de nomes;
Um
Dois
Três
Foi o que eu fiz:
O som mais alto,
Eu imploro e te digo
O goro da minha sólida maneira
De te ver,
E vem aos pouquinhos
A diminuir,
Leve como nuvem,
Tenso como o espaço e sóbrio como música.

Tríade



Pedro amava a Maria que amava a José que formaram um trio amoroso, enfim.

sábado, 27 de abril de 2013

Quando te vi




Quando foi que te vi?
Foi quando vi que nada vi,
Quando a vida foi chamada
No canto, e com espanto
Bradou:
Vida! Vida! Onde está?
Quando foi que te vi?
Foi quando a vida desistiu de ser vida,
Quando a anunciação deixou-se por vencida,
Foi quando as pedras caíram da alvorada,
Quando a estrada deixou de ser caminho.
Quando foi que te vi?
Quando vejo visto
Uma espécie de coisa animada,
A vida virada,
Foi que te vi,
Quando foi que eu te vi?
Nada visto, nada vida
Vivida que interrompe:
O chamado absoluto
Da vida,
Quando que te vi
Eu bem queria me ver,
Um pouco em mim um pouco em ti.
Foi quando te vi.

Envelhecer




É engraçado como a vida é.
Quando a gente é pequeno como um sapo
Quer ser grande como um leão.
E quando chega à medida
Do grande e feroz animal
Sente saudades da lagoa
E dos colegas girinos.
Quando a gente é moleque, destes
Que gostam de rua,
Quer por maior prazer
Ter pelos no peito, barba
E grandes músculos.
Depois que cresce,
Percebe que tantos problemas
Apenas deixam-nos
Sem pelos no peito, barba
E apodrecemos amiúde
Em frascos de remédios
Ensurdecedores.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Meio amargo




Quando olhastes bem
Dentro do meu verso
Eu até pensei que fosse
Um terço do que eu queria ser.

Meu verso era pouco,
Meio truncado,
Meio molhado,

Mas depois de tanto pensar,
Fiz dele um compasso,
Tirei rimas do jardim
E comecei a tocar:
- um novo verso.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Bar




         De manhãzinha, pelas nove, um tempo estropiado, leve como uma lona quando está armada e com muita água a ser esguichada, tempo nublado, falta de sorte em pleno domingo.
            Fui às pressas ao bar do Lair. Tudo normal, aquela mesma escuridão. Dois homens a jogarem sinuca, um aparentava uns quarenta e o outro, aquele que era caolho, uns trinta e cinco. Estavam pasmos, inquietos e se coçavam a cada nova jogada, o caolho já estava impaciente, pois toda vez que jogava, errava, má sorte. Amigo, esta história é daqui mesmo, Florina, bairro de Campo Largo, pertinho de Curitiba, se analisar bem, este nome de bairro fui eu que inventei.
Lair é um dito cujo que passou a vida toda como caminhoneiro, pelo menos por onde eu sei, sim! Nunca foi de se preocupar com as coisas, um dia indo até Brasília tombou o caminhão em uma curva, não se matou porque quando seu espírito estava chegando à porta do purgatório, enfrentou um homem que até hoje ele não sabe explicar quem era, apenas lembra que desceu roxo lá de cima e não quis mais saber de caminhão. Passou algum tempo em casa, com sua mulher e os três filhos.
 Em um período de cinco meses conseguiu um novo emprego, foi zelador na escolinha do Jabutirica, pertinho aqui do antigo banco, interiorzão mesmo, lá ele estava tranquilo, fazia alguns serviços à parte, a molecada se identificou tanto com a criatura que não o mais deixava, o grande problema foi que uma vez, antes dele ir ao trabalho passou em um boteco e encheu a cara. Chegando à escola foi até a escadaria do porão onde guardavam todos os materiais de jardinagem, passou a mão num machado e saiu atorando todas as árvores que ali no pátio havia, deu no que falar, o pobre foi até processado, “se deu bem” porque o Renan, seu amigo, era vereador e o tirou dessa enrascada.
            Novamente em casa, agora cortejava as horas. Duas da tarde, dias de segunda são brabos, que é que a gente pode fazer com uma “nhaca” de tempo dessa maneira? Prepara o almoço porque a mulher está cansada. 
            Sem falar que ele tem um irmão que é músico, toca desde os nove anos, na verdade o Lair também toca, mas, só música caipira, o Lauro, seu irmão é uma espécie de “bom coração”. Nunca foi de beber muito, e sim, um pouco mais que Lair. Quando se encontram dá o que falar, principalmente nas viradas de ano, quando a família toda está unida, a casa até treme de tantos violões que aparecem, é tipo mágica, passam a noite toda cantando e gritando, os que não sabem nada armam uma rodinha com um litro de alguma coisa e admiram, porém, até onde conseguem.
            Lauro está quase gravando o segundo cd, está muito feliz, ganha sempre um dinheirinho com isto, “Expansão! Esse que é do bão”. O nome está dado, para quem contradiz ele vira o diabo, sua mulher, Geniconda,(amigo, nunca diga a ela que a chamo assim, na verdade é um apelido oculto) vive reclamando que ele já não presta, entrou nesse mundo de música e nunca mais largou. Eu não sei como ele consegue toda a noite ficar nesses bares imundos, sujos e gozados. Gosto é gosto.
            Lair já está separado, sua mulher não o aguentou, ela mora com a mãe e os três filhos, fica a uns quarenta quilômetros de Campo Largo, ele, por fim está na amargura, talvez nem isso, porque o que tem a fazer é fazer o que realmente gosta.

            Cheguei. Manhãzinha fria Lair. Comenta, retruca amigo, o que anda calado?

            Lair. Outro domingo. Agora seu boteco tornou-se um local de encontros entre amigos e violeiros, hoje mesmo, quando entrei pela porta já dei de cara com Lauro, já com um copinho e seu instrumento no balcão.
            Cassinos, dois... A mesa está ocupada, na verdade não quero jogar, entrei apenas para rever os amigos... Em frente ao bar, aquela máquina, mais alta que eu, roda, roda... roda.... são frangos e costelas... Linguiça também tem, é o melhor preço da cidade. O chão está sujo, coisa que o valha. Nem tanto que por sinal, a louça da pia também está suja, então penso, e quando acabar a limpa?! Talvez Lair perceba e lave... isso seria um tédio... Permaneço em silêncio. Calado. Estátua. Sempre o Lair para espaventar a vida, solta um berro que grunhe até a vizinhança, eu acordo de vez. Normal. Lauro pede cinco reais em moedas de vinte e cinco centavos, aquela maquininha, aquela maldita música parece um imã, guizo de cascavel chamando a presa para a morte... lá se vai, coloca uma, nada... outra, nada, mais uma, ainda não... se irrita e coloca cinco de uma só vez, bandeira! Deu bandeira, ganhei! Aplausos, risos... Quarenta moedas são despejadas, mais uma pinguinha, e três cervejas por sua conta.
            Ali começa o show, música boa, xucra, dos verdadeiros sertões e rincões do Brasil. Alegria. Analisar é bom, peço uma cerveja, para que não me julguem de molenga. Lair, com uma caneta sobre a orelha esquerda - esse homem está cada vez mais gordo- um boné azul de péssima qualidade, sujo como o dono, sem falar no copinho de cerveja que está à sua direita, isso de dono de bar tomar também é complicado, porque sempre ou cobra a mais ou a menos. Eles são ótimos, verdadeiro jogo de vozes, parecem uma cópia exata de Milionário e José Rico, sem falar nos dedilhados que ornamentam a melodia. Eu fico pasmado.
            Vou até a porta, ali em frente mesmo vejo um homem de idade já avançada sentado, usa óculos, pernas cruzadas. Vê-me. Deus! O que faço?! Penso em cumprimentá-lo, ele vira a cara. Exalto. Olha em direção dos cedros, que se movem lentamente com o vento fazendo parecer dança muçulmana. Ele observa. Mas não as árvores. Observa o nada. Olha fundo com aptidão ao nada. Está escuro, sua vida está nublada. O tempo está nublado. Será ele algum escritor? Porque escritores sempre têm essas manias de observar o nada e depois colocar tudo em linhas.  Possibilidades. Deixá-lo-ei por aí camarada que não conheço. Fique em seu mundo perdido, me vou para a música de galpão. Quero ouvir as ondas do mar, pensando nisso, os quero-queros bradam lá fora, no ladinho do bar, tem um campo enorme de futebol, onde uns sete menininhos batem uma bola que está em sua última jornada, o couro já foi demolido, como eles conseguem? Aquilo está só na bexiga. Lembro de algum tempinho atrás, que também jogava daquela forma, com uma bola mais demolida, isso é coisa de criança. Estou no bar. Mais um berro me acorda, é a segunda voz colossal de Lair. Lauro, ávido, cabisbaixo com a garganta mostrando todos os desenhos das veias, aguenta a primeira e em seguida se ri. Terminam a música. Mais um trago. Aplausos.
            “Trago doces e o mais importante deles, o pé-de-moleque, cê quer?” O menino aparenta uns oito anos. Eu observo, ele pensa que sou louco e se queixa... se torce, se ri, seu amigo está parado na porta esperando, é um pouco maior, deve ser irmão pois é muito parecido. Eu ando duro. Mas ainda me restaram algumas moedas. Compro o famoso pé-de-moleque, é o melhor que existe, eu gosto muito também de suspiro. Esses dias comi escondido um pacote sozinho.
            O tempo passa mesmo. Quase meio-dia e eu nada fiz. Se pelos menos eu Já soubesse tocar violão, mas, nem isso. Escondido me entrego ao lado esquerdo da coisa. De vagarinho trago o copo de conhaque que está à direita de Lair para perto, em seguida, no repente bebo em um só gole, parece álcool puro, faço-me de desatento. Em seguida vem aquela fisionomia... aquela que em todos acarreta quando bebem uma pinguinha (pelo menos o que sei) torcem a cabeça e fazem careta, como se aquilo fosse ruim. Eu ando gostando. Não é bom sinal.
            Algumas pessoas já foram embora, estou tonto. Lair parece preocupado, conversa de leve com Lauro. Entreolham-se. Não entendo o que dizem, mas, quando me vem à memória e tento compreender o que se passa, sinto a orelha que esquenta num desafio como se fosse um ferro de passar roupa quente me assando. Caio num só golpe, tento abrir os olhos, consigo.  Tudo o que posso ver é minha mãe aos berros com Lair, mas, também não compreendo suas palavras. Tento me levantar, Lauro me ajuda, e minha mãe aos galopes se ostenta e empurra-o, ele se culpa, não se culpa, já nem sabe o que faz. Minha mãe me segura, me poe sobre seu colo, e... foi até aí meu domingo, até onde me lembro...
            Noutro dia não vou à aula, cheguei do hospital às três da manhã... Sinto apenas a orelha esquerda quente, quente.

Nuvens




Partículas de tortos amores se julgam corretas
Mesmo as nuvens em lodos
Contrárias são tortas
Que por fim chegam e nunca percebem
Ou quando se aproximam
Dizem estarem de “barrigas cheias”
De tão inofensivas que são:
Avisam até os momentos em que vão
Derramar as contentes lágrimas
Mas nunca derramam sequer
Uma gota.