De
manhãzinha, pelas nove, um tempo estropiado, leve como uma lona quando está
armada e com muita água a ser esguichada, tempo nublado, falta de sorte em
pleno domingo.
Fui às pressas ao bar do Lair. Tudo
normal, aquela mesma escuridão. Dois homens a jogarem sinuca, um aparentava uns
quarenta e o outro, aquele que era caolho, uns trinta e cinco. Estavam pasmos,
inquietos e se coçavam a cada nova jogada, o caolho já estava impaciente, pois
toda vez que jogava, errava, má sorte. Amigo, esta história é daqui mesmo,
Florina, bairro de Campo Largo, pertinho de Curitiba, se analisar bem, este
nome de bairro fui eu que inventei.
Lair é um dito cujo que passou a vida toda como
caminhoneiro, pelo menos por onde eu sei, sim! Nunca foi de se preocupar com as
coisas, um dia indo até Brasília tombou o caminhão em uma curva, não se matou
porque quando seu espírito estava chegando à porta do purgatório, enfrentou um homem
que até hoje ele não sabe explicar quem era, apenas lembra que desceu roxo lá
de cima e não quis mais saber de caminhão. Passou algum tempo em casa, com sua
mulher e os três filhos.
Em um período
de cinco meses conseguiu um novo emprego, foi zelador na escolinha do
Jabutirica, pertinho aqui do antigo banco, interiorzão mesmo, lá ele estava
tranquilo, fazia alguns serviços à parte, a molecada se identificou tanto com a
criatura que não o mais deixava, o grande problema foi que uma vez, antes dele
ir ao trabalho passou em um boteco e encheu a cara. Chegando à escola foi até a
escadaria do porão onde guardavam todos os materiais de jardinagem, passou a
mão num machado e saiu atorando todas as árvores que ali no pátio havia, deu no
que falar, o pobre foi até processado, “se deu bem” porque o Renan, seu amigo,
era vereador e o tirou dessa enrascada.
Novamente em casa, agora cortejava
as horas. Duas da tarde, dias de segunda são brabos, que é que a gente pode
fazer com uma “nhaca” de tempo dessa maneira? Prepara o almoço porque a mulher
está cansada.
Sem falar que ele tem um irmão que é
músico, toca desde os nove anos, na verdade o Lair também toca, mas, só música
caipira, o Lauro, seu irmão é uma espécie de “bom coração”. Nunca foi de beber
muito, e sim, um pouco mais que Lair. Quando se encontram dá o que falar,
principalmente nas viradas de ano, quando a família toda está unida, a casa até
treme de tantos violões que aparecem, é tipo mágica, passam a noite toda
cantando e gritando, os que não sabem nada armam uma rodinha com um litro de
alguma coisa e admiram, porém, até onde conseguem.
Lauro está quase gravando o segundo
cd, está muito feliz, ganha sempre um dinheirinho com isto, “Expansão! Esse que
é do bão”. O nome está dado, para quem contradiz ele vira o diabo, sua mulher,
Geniconda,(amigo, nunca diga a ela que a chamo assim, na verdade é um apelido
oculto) vive reclamando que ele já não presta, entrou nesse mundo de música e
nunca mais largou. Eu não sei como ele consegue toda a noite ficar nesses bares
imundos, sujos e gozados. Gosto é gosto.
Lair já está separado, sua mulher
não o aguentou, ela mora com a mãe e os três filhos, fica a uns quarenta
quilômetros de Campo Largo, ele, por fim está na amargura, talvez nem isso,
porque o que tem a fazer é fazer o que realmente gosta.
Cheguei. Manhãzinha fria Lair.
Comenta, retruca amigo, o que anda calado?
Lair. Outro domingo. Agora seu
boteco tornou-se um local de encontros entre amigos e violeiros, hoje mesmo,
quando entrei pela porta já dei de cara com Lauro, já com um copinho e seu
instrumento no balcão.
Cassinos, dois... A mesa está ocupada, na verdade não quero jogar, entrei apenas para rever os amigos... Em frente ao bar, aquela máquina, mais alta que eu, roda, roda... roda.... são frangos e costelas... Linguiça também tem, é o melhor preço da cidade. O chão está sujo, coisa que o valha. Nem tanto que por sinal, a louça da pia também está suja, então penso, e quando acabar a limpa?! Talvez Lair perceba e lave... isso seria um tédio... Permaneçoem silêncio. Calado.
Estátua. Sempre o Lair para espaventar a vida, solta um berro
que grunhe até a vizinhança, eu acordo de vez. Normal. Lauro pede cinco reais
em moedas de vinte e cinco centavos, aquela maquininha, aquela maldita música
parece um imã, guizo de cascavel chamando a presa para a morte... lá se vai, coloca
uma, nada... outra, nada, mais uma, ainda não... se irrita e coloca cinco de
uma só vez, bandeira! Deu bandeira, ganhei! Aplausos, risos... Quarenta moedas
são despejadas, mais uma pinguinha, e três cervejas por sua conta.
Cassinos, dois... A mesa está ocupada, na verdade não quero jogar, entrei apenas para rever os amigos... Em frente ao bar, aquela máquina, mais alta que eu, roda, roda... roda.... são frangos e costelas... Linguiça também tem, é o melhor preço da cidade. O chão está sujo, coisa que o valha. Nem tanto que por sinal, a louça da pia também está suja, então penso, e quando acabar a limpa?! Talvez Lair perceba e lave... isso seria um tédio... Permaneço
Ali começa o show, música boa,
xucra, dos verdadeiros sertões e rincões do Brasil. Alegria. Analisar é bom,
peço uma cerveja, para que não me julguem de molenga. Lair, com uma caneta
sobre a orelha esquerda - esse homem está cada vez mais gordo- um boné azul de
péssima qualidade, sujo como o dono, sem falar no copinho de cerveja que está à
sua direita, isso de dono de bar tomar também é complicado, porque sempre ou
cobra a mais ou a menos. Eles são ótimos, verdadeiro jogo de vozes, parecem uma
cópia exata de Milionário e José Rico, sem falar nos dedilhados que ornamentam
a melodia. Eu fico pasmado.
Vou até a porta, ali em frente mesmo
vejo um homem de idade já avançada sentado, usa óculos, pernas cruzadas. Vê-me.
Deus! O que faço?! Penso em cumprimentá-lo, ele vira a cara. Exalto. Olha em
direção dos cedros, que se movem lentamente com o vento fazendo parecer dança
muçulmana. Ele observa. Mas não as árvores. Observa o nada. Olha fundo com
aptidão ao nada. Está escuro, sua vida está nublada. O tempo está nublado. Será
ele algum escritor? Porque escritores sempre têm essas manias de observar o
nada e depois colocar tudo em linhas. Possibilidades. Deixá-lo -ei
por aí camarada que não conheço. Fique em seu mundo perdido, me vou para a
música de galpão. Quero ouvir as ondas do mar, pensando nisso, os quero-queros
bradam lá fora, no ladinho do bar, tem um campo enorme de futebol, onde uns
sete menininhos batem uma bola que está em sua última jornada, o couro já foi
demolido, como eles conseguem? Aquilo está só na bexiga. Lembro de algum
tempinho atrás, que também jogava daquela forma, com uma bola mais demolida,
isso é coisa de criança. Estou no bar. Mais um berro me acorda, é a segunda voz
colossal de Lair. Lauro, ávido, cabisbaixo com a garganta mostrando todos os
desenhos das veias, aguenta a primeira e em seguida se ri. Terminam a música.
Mais um trago. Aplausos.
“Trago doces e o mais importante
deles, o pé-de-moleque, cê quer?” O menino aparenta uns oito anos. Eu observo,
ele pensa que sou louco e se queixa... se torce, se ri, seu amigo está parado
na porta esperando, é um pouco maior, deve ser irmão pois é muito parecido. Eu
ando duro. Mas ainda me restaram algumas moedas. Compro o famoso pé-de-moleque,
é o melhor que existe, eu gosto muito também de suspiro. Esses dias comi
escondido um pacote sozinho.
O tempo passa mesmo. Quase meio-dia
e eu nada fiz. Se pelos menos eu Já soubesse tocar violão, mas, nem isso.
Escondido me entrego ao lado esquerdo da coisa. De vagarinho trago o copo de
conhaque que está à direita de Lair para perto, em seguida, no repente bebo em
um só gole, parece álcool puro, faço-me de desatento. Em seguida vem aquela
fisionomia... aquela que em todos acarreta quando bebem uma pinguinha (pelo
menos o que sei) torcem a cabeça e fazem careta, como se aquilo fosse ruim. Eu
ando gostando. Não é bom sinal.
Algumas pessoas já foram embora,
estou tonto. Lair parece preocupado, conversa de leve com Lauro. Entreolham-se.
Não entendo o que dizem, mas, quando me vem à memória e tento compreender o que
se passa, sinto a orelha que esquenta num desafio como se fosse um ferro de
passar roupa quente me assando. Caio num só golpe, tento abrir os olhos,
consigo. Tudo o que posso ver é minha
mãe aos berros com Lair, mas, também não compreendo suas palavras. Tento me levantar,
Lauro me ajuda, e minha mãe aos galopes se ostenta e empurra-o, ele se culpa,
não se culpa, já nem sabe o que faz. Minha mãe me segura, me poe sobre seu
colo, e... foi até aí meu domingo, até onde me lembro...
Noutro dia não vou à aula, cheguei
do hospital às três da manhã... Sinto apenas a orelha esquerda quente, quente.

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