quinta-feira, 26 de abril de 2012

Palavras




Devo dizer-lhe que não vou chorar. Embora eu pense todos os dias em você, ausentarei minhas lágrimas e as trocarei pelo brejo que se faz no meu peito. Brejo convalescente que permite ausentar os meus tédios e faz com que reapareça em mim o desejo. Mal desejo de te esquecer perpetuamente. Do que se faz impossível na minha alma, então eu canto. Retiro, em seguida, a maquiagem com demaquilante misturado com um choro robusto, líquido inflamável. Retiro meu vestido mais lindo e nua eu reinicio meus dados prediletos. Eu devo em poucos minutos cerrar minhas lágrimas, mas eu não sou dona de mim e isto me aflige demais.
A gente se desespera quando não se tem controle sobre os pensamentos. A gente peca sem querer e este pecado, lavado e recebido eu sei lá se funciona. Mas devo dizer que não vou lhe dar nem sequer um beijo curto, destes de despedida porque a minha vida está abstantemente abatida.
Devo manter a compostura para não sair do ritmo e nem descer do salto, sou mulher e meu útero me abriga. Não sou mãe. Sou filha. Sou em seguida uma pilha de nervos de aço.
E os nostálgicos enganos, os planos incertos, e aquele homem de camisa amarela? E aquela figura que me espera? Nada espera, a chuva me inspira. Não sei de onde tiro tantas asneiras. Bolino meu celular, depois o I-pod. Nada se sente em um dia sem sol.
Ligo no ramal 217, só chama. Passo o dia inteiro a observar o trânsito da avenida que me nutre, me abastece e me deixa a pensar em meu destino. O destino é uma surpresa, ainda que isso seja pleonasmo, oras, que se repita dez mil vezes.
E se tenho tanto tempo para lhe desejar palavras; o que são palavras senão um trânsito encardido como o da Marginal Tietê? Palavras não são atos, são palavras, por isso iludem e se contemplam por si só e nada mais. Os atos feitos, estes jamais serão esquecidos porque ficam corrompidos e estilhaçados no inconsciente. E a memória por vezes se reveste de uma seda, de pequenos flashes que fazem com que lembremos de coisas mútuas instantaneamente.
Minha alegria se congestiona. Perdi meu maiô. Fico sem graça. Não bebo nem fumo. Já não rio à toa. Mas mesmo assim não me perco de mim. Sou tão sóbria que me aconchego na cozinha quentinha em dias de inverno. Tento o ramal e nada. Atento a lua. Vou-me embora a qualquer lugar. Não me iludo, porém, eu sei que ao dizer esta frase engano-me ou me esqueço, me perdoe, eu sou humana.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Hoje ontem




Hoje acordei ontem
Amanhã serei eterno
Escrito num caderno
De páginas em branco.

Amanhã levantei hoje
Com cara de ontem
Mal lavado feito anteontem
Quase me bati com a semana que passou.

Hoje, dormi ontem
Com planos para amanhã,
Levantei agora, de manhã
E estava com tempo demais.

Depois de amanhã
Acordei hoje tarde
Quase noite dormi cedo
E despedi-me ontem.

O relógio toca:
Agora que chegou
Minha hora chegou
Não demora, chegou
Oras! Chegou.

O sorriso de ontem
Dormiu cedo;
Acordou tristeza de madrugada
E sonâmbulo hoje.
Iniciou um riso gratuito para amanhã,
Num espetáculo incrível
De velocidades, agora ou nunca mais.
Ontem, semana que passou
E amanhã, deixa comigo que consigo. 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Sons



Um narrador que se repreende diante da vida a que se cometeu. Chega a um ponto em que esquece a própria existência. Interage com um mundo imaginário no qual é vítima furtiva com sérias consequências. Este mal-estar subjacente lhe confere uma timidez lúcida e devastadora. Aumenta, portanto, o seu grau de insensatez enquanto procura uma saída que, talvez, possa até ser o seu estágio de embriaguez. Sua loucura absorta se revela como uma opressão à sociedade, mas, por outro lado, esta sociedade é parte da veia que ele faz parte. Ele é, nisto, um líquido móvel, concreto e abstrato, ao mesmo tempo, que significa a moda, algumas vezes, e outras, um objeto somente, biodegradável.

Aprecio um delicioso gourmet. Depois me volto à mesa em destaque e peço mais uma rodada ao garçom. Depois me vou embora torto, chego a casa mudo e meto a cara no chuveiro no escuro. A água gelada me robusta os pelos. Sinto um calafrio nos ombros e respiro fundo com pequenas dores. Tomo coragem em ter coragem. Saio do banheiro. Maltrato meu cachorro e me entrego de presente ao sofá murcho. Sento-me de frente pra TV, desligo tudo. O escuro faz com que minha cabeça rode mais para lugares inimagináveis. Desço um precipício afegão. Supostamente sou um monge. Atravesso o deserto inteiro sozinho e quando me dou conta do que faço, já não me compreendo. Chego à casa corado. Bochechas avermelhadas e o nariz ardendo. Sinto novamente um calafrio nos ombros. Tomo mais um banho. Perco o sabonete liso que, com a queda, se amassa. Cheio de pelos. Minha vulgaridade não me representa porque sou eu o próprio inimigo de minhas atitudes. Sonho com coisas loucas das quais me esqueço porque tento lembrá-las. As músicas começam todas em um só tempo. Fecho meu guarda-roupas. Não tenho nada. O frio inicia-se na minha cidade. Escuto a estrada ao longe com seus carros em movimentos sub-atraentes. Um caminhão de carniça passa em frente a minha residência. Depois um garoto de bicicleta grita. Pedala até o final da ruazinha que se some junto dos cafezais de outrora. Tempos queridos não voltam nem tempos curtos. Os tempos são imagens de um passado milagroso que, só pelas mãos de Deus podemos acreditar que fomos uma peça fundamental para a alegria de muitas pessoas diferentes. Deus credita os nossos pensamentos. Nada mais há que não seja o tempo mudo. O silêncio da vida. O cálice mártir da gota. O êxtase. A fase. O prazer de tesão e a emoção em ter qualquer tesão. O verso quando sai errado. Que não deu certo seja o proceder, um ato ridículo que nos torna humanos, um homem de três meses fiel. Felicidade se encontra no parque, não na loja. O mundo necessita de bons negócios. Basta ouvir o rádio, ligar a TV. Mas odeio tudo isso. Chego a casa molhado da chuva. Mudo tudo de lugar. Ameaço a empregada de casa. Ela vai embora, não demora muito tenho outra em seu lugar. A coisa é assim, não tem muito enrosco. Sou um sintoma que me basta. O sofá não me representa mais. Bebo água com gás. Dou uma bacorejada no ar através da janela e me envolvo com as articulações do frio lá de fora. Não sei se é certo ou errado, mais um instante e estarei pronto, quem sabe. Surto mais um pouco e finalizo meu texto. 

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Insônia




- Marta, cadê as minhas calças?
- Eu não vi amor; ainda estou com sono. – bocejando - Deixe-me dormir, por favor.
- Mas, Marta, eu preciso ir trabalhar.
            Não há mais resposta de nada. Marta vira-se de lado. Ainda vestida com uma lingerie vermelha, de meias vermelhas com rasgos da noite passada. Antônio encontra suas calças, veste-as junto de uma camisa branca amassada e se vai, beija a testa da mulher sem dizer tchau nem palavra alguma, deixa alguns trocados em cima do criado mudo e se abastece do poluído ar da cidade.
            Em meio a buzinas, desconfortos e infernos o rapaz chega a seu trabalho. Senta-se em sua poltrona e liga imediatamente para Marta. O telefone toca, mas ninguém atende. Talvez ela já tenha ido embora, é o que ele pensa. Talvez esteja no banho.
            Conhecem-se há mais de cinco anos, se vêem todas as quartas. Vibram juntos, sorriem juntos e vão ao cinema. Depois voltam, comem e transam. Em seguida ele fuma um cigarro barato, bebem um vinho e dormem. É uma sequência linear que percorre suas vidas, são dois em um, porém, um não vive pelo outro. São independentes até demais.
O telefone de Antonio toca no escritório, ele espera alguns segundos e atende. Conversa de forma impaciente, briga, discute e admite que desconheça o amor. Depois se despede num tom de mágoa, mas não se pode entender quem era do lado de lá da linha.
Sai de seu trabalho ainda cabisbaixo. Relembra os velhos tempos, porém destas lembranças nenhuma lhe remete a um passado feliz. Tentara passar uma borracha sobre os efeitos de sua libertinagem. Tentara refazer a estrutura líquida da vida. Sua vida solta, móvel como um agitador.
Ao cruzar a Rua das Graças vê um garoto a pedir esmola, não dá bola, não se entristece nem se alegre. Não se alimenta por causa do garoto que também não se alimentará. Faz jejum porque o amor não está mais lá.
E como num passe de mágica, de uma hora para outra pensa em Marta. Marta está longe. Está no litoral a curtir o mar. O mar com seu imenso azul por dentro. Ninguém sabe de Marta. Está de férias.
Antonio hospedara-se num hotel. Não tem mais casa. O dia seguinte chega, outros dias chegam e as mudanças são permanentes. Deixa de ir ao trabalho. Vagueia pelos becos do Largo, anima-se com os vendedores de bijuterias. Alimenta-se do amargo sólido do centro. Aflição e medo. Nada faz sentido. Dorme na rua e n’outro dia vai ao trabalho. Sujo, cansado e mal feito.
Seu telefone toca, enquanto os outros funcionários o observam.
- Alô!
- Oi, Antonio. Busque suas coisas hoje lá em casa. Não tenho muito tempo.
- Tá.
- Até logo.
- Tchau, Larissa.
Antonio derrama algumas lágrimas sobre o chão. Sai de sua sala em desespero furtivo. Despede-se dos amigos e fecha sua porta do escritório.
Busca todas as suas coisas e está na rua, ao lado do hipermercado, sem dinheiro nem família.
À noite liga para Marta.
- Alô! Oi Marta. Sou eu.
- Oi, alô. Eu quem?
- O Gilberto. Posso ir aí hoje?
- Pode, é claro amor. Só que meu preço aumentou. Agora é quatrocentos reais a hora.
- Tá!
- Até logo amor. Beijos.
Antônio se despede. Despe-se e se vira. Perde a lida e a compartilhada vida não há nem na imaginação. Nem imagens. No fundo, como planos, automóveis, trem, sons e prédios. Fulguras de uma luz distante lhe remete a lembrança da doce amante, a mulher amada que já não tem.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Tomara...




Até pensei que fosse um risco te amar. Essa coisa incrédula que permeia minha cabeça por vasto tempo e não me dá explicações razoáveis. O meu silêncio grita. Acomete-se perpetuamente entre flashes pelos quais me precipito em baixar os olhos ao chão num impasse solúvel de aflição e medo. Contudo, sinto a minha idade resoluta e imprópria para sofrimentos. Calo-me de vez com tristes notificações do passado. Disco cheio.
E do amor intenso que causava o medo, agora se faz em saudade. Quase nunca as rosas se abrem no outono, porém, a minha esperança deste milagre é como as ondas do mar que vêm límpidas e próximas e se vão levando da beira da praia suas impurezas e destroços.


Sentado sob essa poltrona frouxa que se estremece a cada nova palavra eu me lembro de hoje, quando um menino de dezessete chegou-me e perguntou-me sobre o amor. Ele se envolveu em palavras tristes:
- Doutor, eu gostaria de saber o que há comigo. Eu amo. Amor uma menina que não me quer, embora ela me dê atenção e creia em mim, ela não me quer e com isso eu sofro, choro e quase morro.
Eu, a ouvi-lo em suas diásporas de louco da idade não respondo. Depois de dez minutos ele me interroga, por que razão o meu silêncio o detona? Respondo com clareza que esse seu sofrimento irá passar. Que na vida tudo tem um sentido, ainda que algumas vezes nós, seres imperfeitos tentemos não acreditar. Respondo que com o tempo ele refletirá sobre seus atos passados e rirá de suas esquisitices. Basicamente a vida se resume em um ponto único; o agora. Por este ponto, o passado e o presente já não existem. Porém, por outro lado, o passado são os pilares de nossas vidas, e o futuro o telhado em que devemos agir lucidamente para não se ter nenhuma decepção. (A vida é tomada por decepções).

O menino me agradeceu naquele dia. Disse que não entendera absolutamente nada do que eu lhe dissera, mas, que faria o possível para digerir minhas palavras com a melhor das intenções. Hoje estou cheio de memórias e predições. Futuros lançamentos da memória. Coisas que devem ser postas em papéis. Lá no fundo eu confio que tudo faz sentido. Os domingos, os sábados e as segundas. Amo em tantos kbytes. Tenho milhões de ideias novas, infinitas palavras de amor. Estão todas guardadas no inconsciente, são poemas, prosas e relíquias.
Tomara que eu volte ao normal. Tomara que amanhã um amor reconstruído me estimule a construir apartamentos inteiros. A minha maior esperança é ter esperança sem negar minha identidade. Eu aprendi que para ser feliz basta procurar a felicidade, e mesmo a sua procura, caso a não encontre, outras felicidades aparecerão e contagiar-me irão entre infinitas possibilidades. E o menino de dezessete há de me responder daqui algum tempo que eu realmente tinha razão. Que aquela paixão é o seu maior amor por toda a vida. E os mundos se reconstituirão, outros planetas se formarão. Outras galáxias se farão e o amor dele, o seu grande amor será o mesmo. E seu sofrimento será o combustível, meteoro de luz sob o qual viverá. E eu, agora tenso da idade, em fase de absorção do conhecimento, dedicarei meus versos às moscas de padaria. E desabrocharei por vezes como as rosas no inverno. Meus olhos se esquivarão dos olhos tristes e desesperados das memórias, e as histórias se farão de nuvens e sonhos.