- Marta, cadê
as minhas calças?
- Eu não vi
amor; ainda estou com sono. – bocejando - Deixe-me dormir, por favor.
- Mas, Marta,
eu preciso ir trabalhar.
Não
há mais resposta de nada. Marta vira-se de lado. Ainda vestida com uma lingerie
vermelha, de meias vermelhas com rasgos da noite passada. Antônio encontra suas
calças, veste-as junto de uma camisa branca amassada e se vai, beija a testa da
mulher sem dizer tchau nem palavra alguma, deixa alguns trocados em cima do
criado mudo e se abastece do poluído ar da cidade.
Em
meio a buzinas, desconfortos e infernos o rapaz chega a seu trabalho. Senta-se
em sua poltrona e liga imediatamente para Marta. O telefone toca, mas ninguém
atende. Talvez ela já tenha ido embora, é o que ele pensa. Talvez esteja no
banho.
Conhecem-se
há mais de cinco anos, se vêem todas as quartas. Vibram juntos, sorriem juntos e
vão ao cinema. Depois voltam, comem e transam. Em seguida ele fuma um cigarro
barato, bebem um vinho e dormem. É uma sequência linear que percorre suas
vidas, são dois em um, porém, um não vive pelo outro. São independentes até
demais.
O telefone de
Antonio toca no escritório, ele espera alguns segundos e atende. Conversa de
forma impaciente, briga, discute e admite que desconheça o amor. Depois se
despede num tom de mágoa, mas não se pode entender quem era do lado de lá da
linha.
Sai de seu
trabalho ainda cabisbaixo. Relembra os velhos tempos, porém destas lembranças
nenhuma lhe remete a um passado feliz. Tentara passar uma borracha sobre os
efeitos de sua libertinagem. Tentara refazer a estrutura líquida da vida. Sua
vida solta, móvel como um agitador.
Ao cruzar a
Rua das Graças vê um garoto a pedir esmola, não dá bola, não se entristece nem
se alegre. Não se alimenta por causa do garoto que também não se alimentará.
Faz jejum porque o amor não está mais lá.
E como num
passe de mágica, de uma hora para outra pensa em Marta. Marta está
longe. Está no litoral a curtir o mar. O mar com seu imenso azul por dentro.
Ninguém sabe de Marta. Está de férias.
Antonio
hospedara-se num hotel. Não tem mais casa. O dia seguinte chega, outros dias
chegam e as mudanças são permanentes. Deixa de ir ao trabalho. Vagueia pelos
becos do Largo, anima-se com os vendedores de bijuterias. Alimenta-se do amargo
sólido do centro. Aflição e medo. Nada faz sentido. Dorme na rua e n’outro dia
vai ao trabalho. Sujo, cansado e mal feito.
Seu telefone
toca, enquanto os outros funcionários o observam.
- Alô!
- Oi, Antonio.
Busque suas coisas hoje lá em
casa. Não tenho muito tempo.
- Tá.
- Até logo.
- Tchau,
Larissa.
Antonio
derrama algumas lágrimas sobre o chão. Sai de sua sala em desespero furtivo.
Despede-se dos amigos e fecha sua porta do escritório.
Busca todas as
suas coisas e está na rua, ao lado do hipermercado, sem dinheiro nem família.
À noite liga
para Marta.
- Alô! Oi
Marta. Sou eu.
- Oi, alô. Eu
quem?
- O Gilberto.
Posso ir aí hoje?
- Pode, é
claro amor. Só que meu preço aumentou. Agora é quatrocentos reais a hora.
- Tá!
- Até logo
amor. Beijos.
Antônio se
despede. Despe-se e se vira. Perde a lida e a compartilhada vida não há nem na
imaginação. Nem imagens. No fundo, como planos, automóveis, trem, sons e
prédios. Fulguras de uma luz distante lhe remete a lembrança da doce amante, a
mulher amada que já não tem.
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