quinta-feira, 12 de abril de 2012

Insônia




- Marta, cadê as minhas calças?
- Eu não vi amor; ainda estou com sono. – bocejando - Deixe-me dormir, por favor.
- Mas, Marta, eu preciso ir trabalhar.
            Não há mais resposta de nada. Marta vira-se de lado. Ainda vestida com uma lingerie vermelha, de meias vermelhas com rasgos da noite passada. Antônio encontra suas calças, veste-as junto de uma camisa branca amassada e se vai, beija a testa da mulher sem dizer tchau nem palavra alguma, deixa alguns trocados em cima do criado mudo e se abastece do poluído ar da cidade.
            Em meio a buzinas, desconfortos e infernos o rapaz chega a seu trabalho. Senta-se em sua poltrona e liga imediatamente para Marta. O telefone toca, mas ninguém atende. Talvez ela já tenha ido embora, é o que ele pensa. Talvez esteja no banho.
            Conhecem-se há mais de cinco anos, se vêem todas as quartas. Vibram juntos, sorriem juntos e vão ao cinema. Depois voltam, comem e transam. Em seguida ele fuma um cigarro barato, bebem um vinho e dormem. É uma sequência linear que percorre suas vidas, são dois em um, porém, um não vive pelo outro. São independentes até demais.
O telefone de Antonio toca no escritório, ele espera alguns segundos e atende. Conversa de forma impaciente, briga, discute e admite que desconheça o amor. Depois se despede num tom de mágoa, mas não se pode entender quem era do lado de lá da linha.
Sai de seu trabalho ainda cabisbaixo. Relembra os velhos tempos, porém destas lembranças nenhuma lhe remete a um passado feliz. Tentara passar uma borracha sobre os efeitos de sua libertinagem. Tentara refazer a estrutura líquida da vida. Sua vida solta, móvel como um agitador.
Ao cruzar a Rua das Graças vê um garoto a pedir esmola, não dá bola, não se entristece nem se alegre. Não se alimenta por causa do garoto que também não se alimentará. Faz jejum porque o amor não está mais lá.
E como num passe de mágica, de uma hora para outra pensa em Marta. Marta está longe. Está no litoral a curtir o mar. O mar com seu imenso azul por dentro. Ninguém sabe de Marta. Está de férias.
Antonio hospedara-se num hotel. Não tem mais casa. O dia seguinte chega, outros dias chegam e as mudanças são permanentes. Deixa de ir ao trabalho. Vagueia pelos becos do Largo, anima-se com os vendedores de bijuterias. Alimenta-se do amargo sólido do centro. Aflição e medo. Nada faz sentido. Dorme na rua e n’outro dia vai ao trabalho. Sujo, cansado e mal feito.
Seu telefone toca, enquanto os outros funcionários o observam.
- Alô!
- Oi, Antonio. Busque suas coisas hoje lá em casa. Não tenho muito tempo.
- Tá.
- Até logo.
- Tchau, Larissa.
Antonio derrama algumas lágrimas sobre o chão. Sai de sua sala em desespero furtivo. Despede-se dos amigos e fecha sua porta do escritório.
Busca todas as suas coisas e está na rua, ao lado do hipermercado, sem dinheiro nem família.
À noite liga para Marta.
- Alô! Oi Marta. Sou eu.
- Oi, alô. Eu quem?
- O Gilberto. Posso ir aí hoje?
- Pode, é claro amor. Só que meu preço aumentou. Agora é quatrocentos reais a hora.
- Tá!
- Até logo amor. Beijos.
Antônio se despede. Despe-se e se vira. Perde a lida e a compartilhada vida não há nem na imaginação. Nem imagens. No fundo, como planos, automóveis, trem, sons e prédios. Fulguras de uma luz distante lhe remete a lembrança da doce amante, a mulher amada que já não tem.

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