quarta-feira, 18 de abril de 2012

Sons



Um narrador que se repreende diante da vida a que se cometeu. Chega a um ponto em que esquece a própria existência. Interage com um mundo imaginário no qual é vítima furtiva com sérias consequências. Este mal-estar subjacente lhe confere uma timidez lúcida e devastadora. Aumenta, portanto, o seu grau de insensatez enquanto procura uma saída que, talvez, possa até ser o seu estágio de embriaguez. Sua loucura absorta se revela como uma opressão à sociedade, mas, por outro lado, esta sociedade é parte da veia que ele faz parte. Ele é, nisto, um líquido móvel, concreto e abstrato, ao mesmo tempo, que significa a moda, algumas vezes, e outras, um objeto somente, biodegradável.

Aprecio um delicioso gourmet. Depois me volto à mesa em destaque e peço mais uma rodada ao garçom. Depois me vou embora torto, chego a casa mudo e meto a cara no chuveiro no escuro. A água gelada me robusta os pelos. Sinto um calafrio nos ombros e respiro fundo com pequenas dores. Tomo coragem em ter coragem. Saio do banheiro. Maltrato meu cachorro e me entrego de presente ao sofá murcho. Sento-me de frente pra TV, desligo tudo. O escuro faz com que minha cabeça rode mais para lugares inimagináveis. Desço um precipício afegão. Supostamente sou um monge. Atravesso o deserto inteiro sozinho e quando me dou conta do que faço, já não me compreendo. Chego à casa corado. Bochechas avermelhadas e o nariz ardendo. Sinto novamente um calafrio nos ombros. Tomo mais um banho. Perco o sabonete liso que, com a queda, se amassa. Cheio de pelos. Minha vulgaridade não me representa porque sou eu o próprio inimigo de minhas atitudes. Sonho com coisas loucas das quais me esqueço porque tento lembrá-las. As músicas começam todas em um só tempo. Fecho meu guarda-roupas. Não tenho nada. O frio inicia-se na minha cidade. Escuto a estrada ao longe com seus carros em movimentos sub-atraentes. Um caminhão de carniça passa em frente a minha residência. Depois um garoto de bicicleta grita. Pedala até o final da ruazinha que se some junto dos cafezais de outrora. Tempos queridos não voltam nem tempos curtos. Os tempos são imagens de um passado milagroso que, só pelas mãos de Deus podemos acreditar que fomos uma peça fundamental para a alegria de muitas pessoas diferentes. Deus credita os nossos pensamentos. Nada mais há que não seja o tempo mudo. O silêncio da vida. O cálice mártir da gota. O êxtase. A fase. O prazer de tesão e a emoção em ter qualquer tesão. O verso quando sai errado. Que não deu certo seja o proceder, um ato ridículo que nos torna humanos, um homem de três meses fiel. Felicidade se encontra no parque, não na loja. O mundo necessita de bons negócios. Basta ouvir o rádio, ligar a TV. Mas odeio tudo isso. Chego a casa molhado da chuva. Mudo tudo de lugar. Ameaço a empregada de casa. Ela vai embora, não demora muito tenho outra em seu lugar. A coisa é assim, não tem muito enrosco. Sou um sintoma que me basta. O sofá não me representa mais. Bebo água com gás. Dou uma bacorejada no ar através da janela e me envolvo com as articulações do frio lá de fora. Não sei se é certo ou errado, mais um instante e estarei pronto, quem sabe. Surto mais um pouco e finalizo meu texto. 

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