Um narrador que se
repreende diante da vida a que se cometeu. Chega a um ponto em que esquece a
própria existência. Interage com um mundo imaginário no qual é vítima furtiva
com sérias consequências. Este mal-estar subjacente lhe confere uma timidez
lúcida e devastadora. Aumenta, portanto, o seu grau de insensatez enquanto
procura uma saída que, talvez, possa até ser o seu estágio de embriaguez. Sua
loucura absorta se revela como uma opressão à sociedade, mas, por outro lado,
esta sociedade é parte da veia que ele faz parte. Ele é, nisto, um líquido
móvel, concreto e abstrato, ao mesmo tempo, que significa a moda, algumas
vezes, e outras, um objeto somente, biodegradável.
Aprecio um delicioso gourmet. Depois me volto à mesa em
destaque e peço mais uma rodada ao garçom. Depois me vou embora torto, chego a
casa mudo e meto a cara no chuveiro no escuro. A água gelada me robusta os
pelos. Sinto um calafrio nos ombros e respiro fundo com pequenas dores. Tomo
coragem em ter coragem. Saio do banheiro. Maltrato meu cachorro e me entrego de
presente ao sofá murcho. Sento-me de frente pra TV, desligo tudo. O escuro faz
com que minha cabeça rode mais para lugares inimagináveis. Desço um precipício
afegão. Supostamente sou um monge. Atravesso o deserto inteiro sozinho e quando
me dou conta do que faço, já não me compreendo. Chego à casa corado. Bochechas
avermelhadas e o nariz ardendo. Sinto novamente um calafrio nos ombros. Tomo
mais um banho. Perco o sabonete liso que, com a queda, se amassa. Cheio de
pelos. Minha vulgaridade não me representa porque sou eu o próprio inimigo de
minhas atitudes. Sonho com coisas loucas das quais me esqueço porque tento
lembrá-las. As músicas começam todas em um só tempo. Fecho meu guarda-roupas.
Não tenho nada. O frio inicia-se na minha cidade. Escuto a estrada ao longe com
seus carros em movimentos sub-atraentes. Um caminhão de carniça passa em frente
a minha residência. Depois um garoto de bicicleta grita. Pedala até o final da
ruazinha que se some junto dos cafezais de outrora. Tempos queridos não voltam
nem tempos curtos. Os tempos são imagens de um passado milagroso que, só pelas
mãos de Deus podemos acreditar que fomos uma peça fundamental para a alegria de
muitas pessoas diferentes. Deus credita os nossos pensamentos. Nada mais há que
não seja o tempo mudo. O silêncio da vida. O cálice mártir da gota. O êxtase. A
fase. O prazer de tesão e a emoção em ter qualquer tesão. O verso quando sai
errado. Que não deu certo seja o proceder, um ato ridículo que nos torna
humanos, um homem de três meses fiel. Felicidade se encontra no parque, não na
loja. O mundo necessita de bons negócios. Basta ouvir o rádio, ligar a TV. Mas
odeio tudo isso. Chego a casa molhado da chuva. Mudo tudo de lugar. Ameaço a
empregada de casa. Ela vai embora, não demora muito tenho outra em seu lugar. A
coisa é assim, não tem muito enrosco. Sou um sintoma que me basta. O sofá não
me representa mais. Bebo água com gás. Dou uma bacorejada no ar através da
janela e me envolvo com as articulações do frio lá de fora. Não sei se é certo
ou errado, mais um instante e estarei pronto, quem sabe. Surto mais um pouco e
finalizo meu texto.
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