domingo, 27 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Em canto

Encanta-me um pingo do seu amor;
Eis miraculoso e cheio de dedos
Como num arrombo de sonhos se chega, pede, despede e se vai.
Encanta-me o seu jeito
Que some, mas sem jeito explode
Numa circunstância de tempo que desvanece ausente.
Causa-me espanto te ver passar
E numa algema de dores reapareço:
- como está clara a noite!
- Foi o paraíso que me deixou assim, seca!
E num instante cheio de surpresa
A realizar-se num plano de sentidos;
Surge no fundo da calma uma voz bondosa
Que dita algumas regras:
- Neste íntimo do ser realiza-se um silêncio,
E é por um tempo sem medida.
E o seu amor ainda me encanta
Como quem canta de tédio aos prédios
De uma cidade sem fim.
E me encanta sua dança a sua presença
E a sua ausência me causa dor.
Mais uma vez eu me esqueço
E digo entre meus versos assim:
- Sou eu quem te diz o que quiser ouvir.
Eis miraculoso e cheio de dedos
Como num arrombo de sonhos se chega, pede, despede e se vai.
Encanta-me o seu jeito
Que some, mas sem jeito explode
Numa circunstância de tempo que desvanece ausente.
Causa-me espanto te ver passar
E numa algema de dores reapareço:
- como está clara a noite!
- Foi o paraíso que me deixou assim, seca!
E num instante cheio de surpresa
A realizar-se num plano de sentidos;
Surge no fundo da calma uma voz bondosa
Que dita algumas regras:
- Neste íntimo do ser realiza-se um silêncio,
E é por um tempo sem medida.
E o seu amor ainda me encanta
Como quem canta de tédio aos prédios
De uma cidade sem fim.
E me encanta sua dança a sua presença
E a sua ausência me causa dor.
Mais uma vez eu me esqueço
E digo entre meus versos assim:
- Sou eu quem te diz o que quiser ouvir.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
O homem que se olhou

Um homem recrutava-se em bojos.
Tenso, e a música finalizava.
Ele enxergava em sua frente a estrada
E sua coragem se manipulava;
Este homem, depois, absorvia desafios
E entruncando seu peso em meios
Abafados pressentiu de vez uma culpa.
- Onde estará o culpado?! perguntou alvorás -
E mudo, o tempo, lhe respondeu:
- Olhe no espelho de seu banheiro.
- Olhe no espelho de seu banheiro.
Depois, em minutos, lhe respondeu a vida:
- Olhe, agora, em qualquer espelho.
E lá estava ele fora da estrada encorajado a se olhar de vez...
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
A moça

Uma moça singela passa a escada,
Vai indo, andando, que bela;
Depois do paraíso come a maçã;
Depois, em diante; torna-se pequena orfã.
Já tem um marido;
Um homem grosso, estúpido e sem graça.
Depois uma moça singela torna-se sutileza;
Ela adormece no quarto chorando
Lágrimas de solidão. E sem nenhuma compaixão
O homem esquece da bela moça, da maçã, nobreza.
E o mundo se faz em minuciosa solidão.
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Outono

http://www.camarabrasileira.com/contosdeoutono2011.htm
Depois do verão iniciou-se um chuvisco enigmático que aos poucos se transparecia sob os prédios da estação de ônibus. A temperatura caía a cada segundo e Mirela estava somente com uma blusinha fina, usada na festa do dia anterior no teatro da esquina. As folhas das árvores se descontrolavam num compasso triste entre a vontade de viver e a angústia da morte que lhes anunciava no fundo uma esperança.
Fim de março. Mirela acorda às sete da manhã. Abre a portinha do microondas e coloca sob o prato um sanduíche com maionese e algumas salsichas. Pensa duas vezes antes de pegar no telefone, reflete poucamente sobre as possibilidades de encontrar Alberto em casa neste horário. Disca uma vez, em seguida tenta novamente, só dá ocupado, desliga o telefone e acrescenta-lhe uma porrada de mal gosto.
Um rio de lágrimas corre em direção ao oeste do estado e nele, algumas folhas sortidas se vão a um destino incerto também. Mirela, a menina dos olhos castanhos que mais parece com uma mulher pronta para enfrentar a vida, caminha de acordo com a astúcia de suas pernas. Está infeliz sem motivo. Deslumbra uma paisagem de cinema ao passar pelo Passeio e novamente, ao baixar a cabeça de forma consignada, entristece como um cão sem guarda.
Ao adentrar numa loja de confecções, sua luz brilha de forma estarrecedora. Caem do teto migalhas de tinta sem frescor, com cores múltiplas que se fazem penetrar em sua coragem. Encara um novo vestido, destes que combinam com qualquer outono. Outrora enternece sob o chão úmido do parque do centro. Ao voltar para casa pela Linha Verde, embora esteja quase nua de visão, enxerga ao longe um homem com grande barba. Ele está a caminhar de forma recíproca. Parece haver qualquer coisa de errado. Sim, é o que ela responde a si: É Alberto. Ela puxa a campainha e desce no próximo ponto.
Ainda assim há um vento forte de nuance que corta aos ouvidos de Mirela. Alberto some por entre os prédios, e, atrás dum muro pichado escreve com seu sangue o nome de Alberto. Compra na esquina uma garrafa de vinho tinto. Bebe no bico. Não se importa com o que os outros pensem. Começa a rever seu passado e viver das lembranças. Depois de embriagada descem folhas ainda por sua cabeleira gigante.
Inicia uma nova manhã de outono. Pássaros de outra estação começam uma ladainha, dispersos, comovem ao mundo com seus cantos. Mirela, a menina dos olhos castanhos amanhece dispersa. Vomita na cama e ao escovar os dentes desconhece-se a si mesma. O espelho mente e de fato, a mentira causada por ele é um reflexo de sua perspectiva com relação aos seus próprios atos impensados. Dentro de uma cômoda, Mirela encontra um diploma velho, amarelo, rasgado. Verifica o nome e lá está: Alberto Ferdino Milagres. Ela chora de modo a interromper a respiração, fraquejam as mãos e volta ao banheiro.
Outro dia se faz presente e ainda é outono em sua vida. Suas lembranças ainda focam uma ilusão perdida. Mirela relembra os momentos passados com Alberto e a notícia de que ele já foi embora se passa no jornal das oito. É quase incerta a sua ausência no teatro da esquina neste momento. O trem faz um escândalo ao passar no centro da cidade. Quando Mirela, de forma meiga, abre as cortinas de sua sala, observa longe, numa escuridão liquefeita, um homem de casaco preto, a partir de uma penumbra que corta entre o bar do seu João e a venda da dona Josefa. Infelizmente ela não consegue prever se é Alberto ou não, mas se fosse, ele estaria bem, ou pelo menos a deambular pelas vias mais circunscritas do bosque ao lado da prefeitura. Os jardins perdem diminutivamente suas últimas flores, a presença do outono é cheirosa e aquece as almas com seu frio generoso. A menina dos olhos castanhos inicia novamente uma busca frenética de si, a partir do que encontrara no espelho dias atrás. O vento que corta o poste da rua em frente ao trilho do trem faz um ruído de tristeza i miraculoso, enobrece a vida dos sem paz que passam em busca de qualquer coisa que os faça felizes. Alberto tornou-se um homem sem preocupações. Vive agora, dizem por aí, à margem do rio Escalibur. O outono de sua vida não termina e as árvores estão completamente secas.
Fim de março. Mirela acorda às sete da manhã. Abre a portinha do microondas e coloca sob o prato um sanduíche com maionese e algumas salsichas. Pensa duas vezes antes de pegar no telefone, reflete poucamente sobre as possibilidades de encontrar Alberto em casa neste horário. Disca uma vez, em seguida tenta novamente, só dá ocupado, desliga o telefone e acrescenta-lhe uma porrada de mal gosto.
Um rio de lágrimas corre em direção ao oeste do estado e nele, algumas folhas sortidas se vão a um destino incerto também. Mirela, a menina dos olhos castanhos que mais parece com uma mulher pronta para enfrentar a vida, caminha de acordo com a astúcia de suas pernas. Está infeliz sem motivo. Deslumbra uma paisagem de cinema ao passar pelo Passeio e novamente, ao baixar a cabeça de forma consignada, entristece como um cão sem guarda.
Ao adentrar numa loja de confecções, sua luz brilha de forma estarrecedora. Caem do teto migalhas de tinta sem frescor, com cores múltiplas que se fazem penetrar em sua coragem. Encara um novo vestido, destes que combinam com qualquer outono. Outrora enternece sob o chão úmido do parque do centro. Ao voltar para casa pela Linha Verde, embora esteja quase nua de visão, enxerga ao longe um homem com grande barba. Ele está a caminhar de forma recíproca. Parece haver qualquer coisa de errado. Sim, é o que ela responde a si: É Alberto. Ela puxa a campainha e desce no próximo ponto.
Ainda assim há um vento forte de nuance que corta aos ouvidos de Mirela. Alberto some por entre os prédios, e, atrás dum muro pichado escreve com seu sangue o nome de Alberto. Compra na esquina uma garrafa de vinho tinto. Bebe no bico. Não se importa com o que os outros pensem. Começa a rever seu passado e viver das lembranças. Depois de embriagada descem folhas ainda por sua cabeleira gigante.
Inicia uma nova manhã de outono. Pássaros de outra estação começam uma ladainha, dispersos, comovem ao mundo com seus cantos. Mirela, a menina dos olhos castanhos amanhece dispersa. Vomita na cama e ao escovar os dentes desconhece-se a si mesma. O espelho mente e de fato, a mentira causada por ele é um reflexo de sua perspectiva com relação aos seus próprios atos impensados. Dentro de uma cômoda, Mirela encontra um diploma velho, amarelo, rasgado. Verifica o nome e lá está: Alberto Ferdino Milagres. Ela chora de modo a interromper a respiração, fraquejam as mãos e volta ao banheiro.
Outro dia se faz presente e ainda é outono em sua vida. Suas lembranças ainda focam uma ilusão perdida. Mirela relembra os momentos passados com Alberto e a notícia de que ele já foi embora se passa no jornal das oito. É quase incerta a sua ausência no teatro da esquina neste momento. O trem faz um escândalo ao passar no centro da cidade. Quando Mirela, de forma meiga, abre as cortinas de sua sala, observa longe, numa escuridão liquefeita, um homem de casaco preto, a partir de uma penumbra que corta entre o bar do seu João e a venda da dona Josefa. Infelizmente ela não consegue prever se é Alberto ou não, mas se fosse, ele estaria bem, ou pelo menos a deambular pelas vias mais circunscritas do bosque ao lado da prefeitura. Os jardins perdem diminutivamente suas últimas flores, a presença do outono é cheirosa e aquece as almas com seu frio generoso. A menina dos olhos castanhos inicia novamente uma busca frenética de si, a partir do que encontrara no espelho dias atrás. O vento que corta o poste da rua em frente ao trilho do trem faz um ruído de tristeza i miraculoso, enobrece a vida dos sem paz que passam em busca de qualquer coisa que os faça felizes. Alberto tornou-se um homem sem preocupações. Vive agora, dizem por aí, à margem do rio Escalibur. O outono de sua vida não termina e as árvores estão completamente secas.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
A moda do Crocs

Tinha uma menina que se chamava Paula, ela andava, toda santa terça-feira, numa combinação cruel entre um roxo da camisa, calça jeans azul e um crocs roxo, destes meio atravessados, ela vestia uma meia vermelha que dava uma real tonalidade se ser dieta para o resto da vida. Aquilo me deixava acabrunhado à beira de minhas relíquias de pensamento, aquilo não existia. Mas tão real o era que um dia, não era terça-feira e sim, sexta, ela apareceu num crocs verde limão com uma blusinha azul coração e uma calça vermelha. Ela olhava-me com um jeito de poderosa, dizia-se valente e gritava comigo, às vezes “o que está olhando, seu bobo?” eu fingia não ser comigo, continuava a minha jornada a analisar aquilo que me parecia ser a nova moda da vez. Na outra semana Paula aparecera com um olhar diferente, ao perceber seus pés, adivinhe? Estava, sim, vestida num novo crocs, parecia uma beterraba grudada ao chão, olhou-me novamente de forma a impor-me um novo esquema e disse-me sobriamente, eu acho: “Eu tenho, pelo menos, estilo próprio”. Pensei comigo que a menina estivesse maluca, continuei a minha jornada. Um dia desses andando pela calçada ali do teatro Guairá um bêbado me parou, pulou em meus pés e pediu-me esmola, quando fui dar um trocado ao sujeito, olhei em seus pés e, adivinha! Sim, lá estava o crocs molhado, encardido de sujeira sob um meião azul, pensei que jogasse na seleção, ou até mesmo fosse seu mascote. Perdi meu tempo, o cara pagou caro por aquilo. Novamente, sentei-me na biblioteca pública às sete da tarde de uma quarta feira ensolarada (isto é raro em Curitiba), quando comecei a resgatar algumas páginas da Gazeta (fui na biblioteca para não precisar comprá-la) encontrei uma foto magistral de George W. Bush num maravilhoso crocs preto, com um meião preto por baixo e aquilo, eu tenho quase que absoluta certeza, devia também estar encardido. A moda universal é uma migalha em nossos dias, e o mais engraçado dentre todas estas ocasiões que nos falecem dias de arrepio, é que o Brasil recebe as novidades com certo atraso. O All-star, por exemplo, de minha época, surgiu em meados de 1917 com uma tentativa de padronizar os sapatos para o basket, depois com os punks nos EUA, isso vamos contar à década de 50, mais ou menos, o Brasil recebeu em minha adolescência, em 90, eu andava como ditoso a procurar fronteiras em minha vida. E o passado é uma roupa que já não serve mais, como dizia Belchior. A moda dos jogadores de basketboll foi outra coisa que aqui se enjaulou, porém, com uma diferença, os conhecidos manos da era moderna pensam que são atuais, mas não sabem sua descendência. Estes dia encontrei Paula no Supermercado, sorri meio tímido e disse: “olá, Paula, como vai?” ela com um sorriso falso que porventura se fez perceber respondeu: “olá, querido, estou bem”, não pude preservar os meus olhos dentro do instante e pus-me a observar seus pés, que horror, não só os pés mas, de fato, ela estava vestida com uma camiseta tamanho extra-GG, acredito e acredite, com o número 55 na frente, seu verso dizia um Inglês extrovertido “Bear and Floor”, nos despedimos e eu, estático com o carrinho do supermercado nas duas mãos, notei que suavam no frio, o crocs era um tamanho três vezes maior que o pé, acredito que isso seria caso de psicanálise, neste momento tenho uma certeza. Se Freud estivesse ornamentando novas teorias e vivo, é lógico, lançaria uma teoria sob estas circunstâncias, diria ele: “Crocs, camisetas e carros enormes são dependência mútua de sexo, a pessoa incapaz de se satisfazer sexualmente através dos canais viáveis sacia o seu prazer curtido em coisas como; usar crocs maiores do que os pés, usar camisetas enormes e carros grandes, no caso de homens pequenos seria indizível, mas por escrito vai, seria uma dependência de um pênis um pouco maior em sua elasticidade. (Desculpem-me os baixos com carros grandes). Ao sair do mercado com uma olhadela ao lado, percebi que havia uma venda de churros, pedi um de doce de leite, estava a comer em minha inquietude e por perto se aproximou uma sombra, notei, a filha da mulher que me vendera o churros usava um crocs branco, e lógico, encardido de terra vermelha. Depois, ao estacionar meu carro no prédio, subi escandalizado a escadaria porém, antes disso, encontrei o seu Oswaldo, garagista de nosso condomínio, observei em seus pés e lá estava, um crocs preto com meia vermelha, pensei em minhas tarefas que o sujeito no fundo é atleticano, que seja sua sorte. Abri a porta do apartamento e Laura, minha esposa e Laurinha, minha filha, ambas de crocs aos pés a dizer num só som: “Surpresa”!!! Minha filha segurava nas mãos uma caixa com um novo modelo de crocs, diziam-me: “é pra você , papai”, entrei no quarto e refleti muito sobre meus dias, depois, a coçar levemente meus escassos fios de cabelos brancos, vesti um crocs rosa e saí no calçadão da XV com minha esposa e filha para comprar uma casquinha no MC, do outro lado da via, próximo à livraria passava Paula, que por certo me notara e com um cumprimento fez um gesto de positivo olhando aos meus pés. Fui pego de surpresa num dia monístico e monótono de minha felicidade. Eu sou atual, pelo menos.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Do guardanapo da padaria

Um instante de minhas
palavras será a eternidade
de minha vida.
Enquanto elas durarem
eu também o durarei.
Um momento infinito
de minha face será
desenhado e mantido
na lápide de um
paraíso, enquanto isso,
minha memória será
mantida na cultura
de minha índole.
Embora, ainda, que minha
mente se funda, eu a
fundarei antes por
indignação. 05/II/2011
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Pré-juízo

“...Porque eu to, completamente, numa situação difícil por demais, eu to, aqui, eu to entre o canal e o riacho, o comércio ta todo parado, os carro, muita perda, lama, aqui no Crato, dá medo demais na gente”
Voltamos em instantes com mais notícias – (TV fora do ar)
A propaganda diária é uma besteira só, não me incomodo com tanta coisa ruim, mas meus olhos não são obrigados a enxergar tudo o que passa. Deito-me sobre o chão da sala escura e a imagem daquela mulher no meio da tragédia não me sai da cabeça. Tento me virar, mesmo assim continuo atônito e apreensivo feito um lobo fora de sua casa. Entreguei meus sapatos ao lugar comum da ordem natural de uma vida. Em seguida ligo novamente a TV:
“...porque eu to – a mulher agora chorando – numa situação. Crato ta diferente, aqui temos o Sopé da serra de Araripi, Crato tem um cinturão de água, muita fonte, dá medo, viu? Em minha casa são duzentos milímetro de água”.
Desligo. Chega minha irmã em casa, abre a geladeira de camisola sob o corpo e bota um creme na torrada que retira do fogão. Vê-me e some em busca de seu namorado que se encontra, provavelmente, no quarto. Passa o caminhão de lixo na cidade, a rua é um escarcéu, um ruído estridente amedronta-me e continuo fissionado naquela mulher do Crato.
“...Segui-me, adiante... olha aqui, oh, olha o que sobrou de minha casa”...
Em instantes voltamos com mais notícias.
A TV se apaga e pareço estar distante do mundo, de todos. Estou a refratar uma imagem de forma que minha mente apaga todas as outras existentes. Desvaneço mais uma vez num dia qualquer de minha vida.
O namorado de minha irmã a chama, diz “vem cá”, e ela responde com um “calma, bem”. Eu acho isso uma imensa de uma bajulice, creio que pelo fato de ser sozinho dei-me conta que não preciso ouvir tantas asneiras. Requebro o meu silêncio com um susto do pesadelo anterior. Arrepio-me por dentro e por fora em lembrar aquela mulher do Crato, lá no Ceará. Lembro que minha sorte está por chegar em instantes na minha vida, ora, quantos sonhos planejei este momento. Batem à porta. Vou até a cozinha e encontro um silêncio astuto e selvagem. Guardo o pote de azeitonas na geladeira, enxergo uma cerveja gelada, mas não temo em pegá-la, já é tarde e beber neste momento me faria um incrédulo sob meus pensamentos. Ligo a TV, por volta da madrugada e meia:
“...Isso aqui parece o Rio, lembra dias deste? O Rio fico assim, a chuva levo tudo, não sei mais nada. Oi, não dá mais pra se ajeitá, tenho muito medo”...
Assisto timidamente o que se passa. Mas nada sai de minha boca. Não me entrego porque estou a incluir muitos sucessos no calendário automático da cidade em que medito. A imagem daquela cidade linda sendo inundada me dá calafrios. Abstenho-me em aniquilar tudo isso de mim, mas não posso, eu não consigo. E aos poucos as pessoas voltam com seus lixos nas ruas, com suas feridas nos pastos, as pessoas, aos poucos, voltam com a poluição nos asfaltos e meus olhos ardem e não choram. Volto a ser humano e volto a ligar a TV. Rumando ao nosso episódio do Jornal da madrugada porque a noite inteira não passa, isso porque meus olhos se ferem nesta penumbra que me chama de estagnado e relapso. Volto a mim e não me encontro porque já estou a dormir como uma pedra imóvel na cidade.
Voltamos em instantes com mais notícias – (TV fora do ar)
A propaganda diária é uma besteira só, não me incomodo com tanta coisa ruim, mas meus olhos não são obrigados a enxergar tudo o que passa. Deito-me sobre o chão da sala escura e a imagem daquela mulher no meio da tragédia não me sai da cabeça. Tento me virar, mesmo assim continuo atônito e apreensivo feito um lobo fora de sua casa. Entreguei meus sapatos ao lugar comum da ordem natural de uma vida. Em seguida ligo novamente a TV:
“...porque eu to – a mulher agora chorando – numa situação. Crato ta diferente, aqui temos o Sopé da serra de Araripi, Crato tem um cinturão de água, muita fonte, dá medo, viu? Em minha casa são duzentos milímetro de água”.
Desligo. Chega minha irmã em casa, abre a geladeira de camisola sob o corpo e bota um creme na torrada que retira do fogão. Vê-me e some em busca de seu namorado que se encontra, provavelmente, no quarto. Passa o caminhão de lixo na cidade, a rua é um escarcéu, um ruído estridente amedronta-me e continuo fissionado naquela mulher do Crato.
“...Segui-me, adiante... olha aqui, oh, olha o que sobrou de minha casa”...
Em instantes voltamos com mais notícias.
A TV se apaga e pareço estar distante do mundo, de todos. Estou a refratar uma imagem de forma que minha mente apaga todas as outras existentes. Desvaneço mais uma vez num dia qualquer de minha vida.
O namorado de minha irmã a chama, diz “vem cá”, e ela responde com um “calma, bem”. Eu acho isso uma imensa de uma bajulice, creio que pelo fato de ser sozinho dei-me conta que não preciso ouvir tantas asneiras. Requebro o meu silêncio com um susto do pesadelo anterior. Arrepio-me por dentro e por fora em lembrar aquela mulher do Crato, lá no Ceará. Lembro que minha sorte está por chegar em instantes na minha vida, ora, quantos sonhos planejei este momento. Batem à porta. Vou até a cozinha e encontro um silêncio astuto e selvagem. Guardo o pote de azeitonas na geladeira, enxergo uma cerveja gelada, mas não temo em pegá-la, já é tarde e beber neste momento me faria um incrédulo sob meus pensamentos. Ligo a TV, por volta da madrugada e meia:
“...Isso aqui parece o Rio, lembra dias deste? O Rio fico assim, a chuva levo tudo, não sei mais nada. Oi, não dá mais pra se ajeitá, tenho muito medo”...
Assisto timidamente o que se passa. Mas nada sai de minha boca. Não me entrego porque estou a incluir muitos sucessos no calendário automático da cidade em que medito. A imagem daquela cidade linda sendo inundada me dá calafrios. Abstenho-me em aniquilar tudo isso de mim, mas não posso, eu não consigo. E aos poucos as pessoas voltam com seus lixos nas ruas, com suas feridas nos pastos, as pessoas, aos poucos, voltam com a poluição nos asfaltos e meus olhos ardem e não choram. Volto a ser humano e volto a ligar a TV. Rumando ao nosso episódio do Jornal da madrugada porque a noite inteira não passa, isso porque meus olhos se ferem nesta penumbra que me chama de estagnado e relapso. Volto a mim e não me encontro porque já estou a dormir como uma pedra imóvel na cidade.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Sem cócoras nem joelhos
Se senti, já não me lembro se era real.
Do sonho e do pesadelo mesclam-se lástimas de lembranças.
Se enternece, aos poucos, a infância sem medo.
A tarde se esvai. Em outro tempo, sim, estive.
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