sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Pré-juízo


“...Porque eu to, completamente, numa situação difícil por demais, eu to, aqui, eu to entre o canal e o riacho, o comércio ta todo parado, os carro, muita perda, lama, aqui no Crato, dá medo demais na gente”
Voltamos em instantes com mais notícias – (TV fora do ar)
A propaganda diária é uma besteira só, não me incomodo com tanta coisa ruim, mas meus olhos não são obrigados a enxergar tudo o que passa. Deito-me sobre o chão da sala escura e a imagem daquela mulher no meio da tragédia não me sai da cabeça. Tento me virar, mesmo assim continuo atônito e apreensivo feito um lobo fora de sua casa. Entreguei meus sapatos ao lugar comum da ordem natural de uma vida. Em seguida ligo novamente a TV:
“...porque eu to – a mulher agora chorando – numa situação. Crato ta diferente, aqui temos o Sopé da serra de Araripi, Crato tem um cinturão de água, muita fonte, dá medo, viu? Em minha casa são duzentos milímetro de água”.
Desligo. Chega minha irmã em casa, abre a geladeira de camisola sob o corpo e bota um creme na torrada que retira do fogão. Vê-me e some em busca de seu namorado que se encontra, provavelmente, no quarto. Passa o caminhão de lixo na cidade, a rua é um escarcéu, um ruído estridente amedronta-me e continuo fissionado naquela mulher do Crato.
“...Segui-me, adiante... olha aqui, oh, olha o que sobrou de minha casa”...
Em instantes voltamos com mais notícias.
A TV se apaga e pareço estar distante do mundo, de todos. Estou a refratar uma imagem de forma que minha mente apaga todas as outras existentes. Desvaneço mais uma vez num dia qualquer de minha vida.
O namorado de minha irmã a chama, diz “vem cá”, e ela responde com um “calma, bem”. Eu acho isso uma imensa de uma bajulice, creio que pelo fato de ser sozinho dei-me conta que não preciso ouvir tantas asneiras. Requebro o meu silêncio com um susto do pesadelo anterior. Arrepio-me por dentro e por fora em lembrar aquela mulher do Crato, lá no Ceará. Lembro que minha sorte está por chegar em instantes na minha vida, ora, quantos sonhos planejei este momento. Batem à porta. Vou até a cozinha e encontro um silêncio astuto e selvagem. Guardo o pote de azeitonas na geladeira, enxergo uma cerveja gelada, mas não temo em pegá-la, já é tarde e beber neste momento me faria um incrédulo sob meus pensamentos. Ligo a TV, por volta da madrugada e meia:
“...Isso aqui parece o Rio, lembra dias deste? O Rio fico assim, a chuva levo tudo, não sei mais nada. Oi, não dá mais pra se ajeitá, tenho muito medo”...
Assisto timidamente o que se passa. Mas nada sai de minha boca. Não me entrego porque estou a incluir muitos sucessos no calendário automático da cidade em que medito. A imagem daquela cidade linda sendo inundada me dá calafrios. Abstenho-me em aniquilar tudo isso de mim, mas não posso, eu não consigo. E aos poucos as pessoas voltam com seus lixos nas ruas, com suas feridas nos pastos, as pessoas, aos poucos, voltam com a poluição nos asfaltos e meus olhos ardem e não choram. Volto a ser humano e volto a ligar a TV. Rumando ao nosso episódio do Jornal da madrugada porque a noite inteira não passa, isso porque meus olhos se ferem nesta penumbra que me chama de estagnado e relapso. Volto a mim e não me encontro porque já estou a dormir como uma pedra imóvel na cidade.

Um comentário:

  1. Perder-se entre o real e o pensado é tão piloto automático que, ao nos darmos conta do ocorrido, toda a programação repetitiva da tv já passou.

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    Salve, salve Guri!!

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