quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Outono


http://www.camarabrasileira.com/contosdeoutono2011.htm


Depois do verão iniciou-se um chuvisco enigmático que aos poucos se transparecia sob os prédios da estação de ônibus. A temperatura caía a cada segundo e Mirela estava somente com uma blusinha fina, usada na festa do dia anterior no teatro da esquina. As folhas das árvores se descontrolavam num compasso triste entre a vontade de viver e a angústia da morte que lhes anunciava no fundo uma esperança.
Fim de março. Mirela acorda às sete da manhã. Abre a portinha do microondas e coloca sob o prato um sanduíche com maionese e algumas salsichas. Pensa duas vezes antes de pegar no telefone, reflete poucamente sobre as possibilidades de encontrar Alberto em casa neste horário. Disca uma vez, em seguida tenta novamente, só dá ocupado, desliga o telefone e acrescenta-lhe uma porrada de mal gosto.
Um rio de lágrimas corre em direção ao oeste do estado e nele, algumas folhas sortidas se vão a um destino incerto também. Mirela, a menina dos olhos castanhos que mais parece com uma mulher pronta para enfrentar a vida, caminha de acordo com a astúcia de suas pernas. Está infeliz sem motivo. Deslumbra uma paisagem de cinema ao passar pelo Passeio e novamente, ao baixar a cabeça de forma consignada, entristece como um cão sem guarda.
Ao adentrar numa loja de confecções, sua luz brilha de forma estarrecedora. Caem do teto migalhas de tinta sem frescor, com cores múltiplas que se fazem penetrar em sua coragem. Encara um novo vestido, destes que combinam com qualquer outono. Outrora enternece sob o chão úmido do parque do centro. Ao voltar para casa pela Linha Verde, embora esteja quase nua de visão, enxerga ao longe um homem com grande barba. Ele está a caminhar de forma recíproca. Parece haver qualquer coisa de errado. Sim, é o que ela responde a si: É Alberto. Ela puxa a campainha e desce no próximo ponto.
Ainda assim há um vento forte de nuance que corta aos ouvidos de Mirela. Alberto some por entre os prédios, e, atrás dum muro pichado escreve com seu sangue o nome de Alberto. Compra na esquina uma garrafa de vinho tinto. Bebe no bico. Não se importa com o que os outros pensem. Começa a rever seu passado e viver das lembranças. Depois de embriagada descem folhas ainda por sua cabeleira gigante.
Inicia uma nova manhã de outono. Pássaros de outra estação começam uma ladainha, dispersos, comovem ao mundo com seus cantos. Mirela, a menina dos olhos castanhos amanhece dispersa. Vomita na cama e ao escovar os dentes desconhece-se a si mesma. O espelho mente e de fato, a mentira causada por ele é um reflexo de sua perspectiva com relação aos seus próprios atos impensados. Dentro de uma cômoda, Mirela encontra um diploma velho, amarelo, rasgado. Verifica o nome e lá está: Alberto Ferdino Milagres. Ela chora de modo a interromper a respiração, fraquejam as mãos e volta ao banheiro.
Outro dia se faz presente e ainda é outono em sua vida. Suas lembranças ainda focam uma ilusão perdida. Mirela relembra os momentos passados com Alberto e a notícia de que ele já foi embora se passa no jornal das oito. É quase incerta a sua ausência no teatro da esquina neste momento. O trem faz um escândalo ao passar no centro da cidade. Quando Mirela, de forma meiga, abre as cortinas de sua sala, observa longe, numa escuridão liquefeita, um homem de casaco preto, a partir de uma penumbra que corta entre o bar do seu João e a venda da dona Josefa. Infelizmente ela não consegue prever se é Alberto ou não, mas se fosse, ele estaria bem, ou pelo menos a deambular pelas vias mais circunscritas do bosque ao lado da prefeitura. Os jardins perdem diminutivamente suas últimas flores, a presença do outono é cheirosa e aquece as almas com seu frio generoso. A menina dos olhos castanhos inicia novamente uma busca frenética de si, a partir do que encontrara no espelho dias atrás. O vento que corta o poste da rua em frente ao trilho do trem faz um ruído de tristeza i miraculoso, enobrece a vida dos sem paz que passam em busca de qualquer coisa que os faça felizes. Alberto tornou-se um homem sem preocupações. Vive agora, dizem por aí, à margem do rio Escalibur. O outono de sua vida não termina e as árvores estão completamente secas.

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