quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A moda do Crocs


Tinha uma menina que se chamava Paula, ela andava, toda santa terça-feira, numa combinação cruel entre um roxo da camisa, calça jeans azul e um crocs roxo, destes meio atravessados, ela vestia uma meia vermelha que dava uma real tonalidade se ser dieta para o resto da vida. Aquilo me deixava acabrunhado à beira de minhas relíquias de pensamento, aquilo não existia. Mas tão real o era que um dia, não era terça-feira e sim, sexta, ela apareceu num crocs verde limão com uma blusinha azul coração e uma calça vermelha. Ela olhava-me com um jeito de poderosa, dizia-se valente e gritava comigo, às vezes “o que está olhando, seu bobo?” eu fingia não ser comigo, continuava a minha jornada a analisar aquilo que me parecia ser a nova moda da vez. Na outra semana Paula aparecera com um olhar diferente, ao perceber seus pés, adivinhe? Estava, sim, vestida num novo crocs, parecia uma beterraba grudada ao chão, olhou-me novamente de forma a impor-me um novo esquema e disse-me sobriamente, eu acho: “Eu tenho, pelo menos, estilo próprio”. Pensei comigo que a menina estivesse maluca, continuei a minha jornada. Um dia desses andando pela calçada ali do teatro Guairá um bêbado me parou, pulou em meus pés e pediu-me esmola, quando fui dar um trocado ao sujeito, olhei em seus pés e, adivinha! Sim, lá estava o crocs molhado, encardido de sujeira sob um meião azul, pensei que jogasse na seleção, ou até mesmo fosse seu mascote. Perdi meu tempo, o cara pagou caro por aquilo. Novamente, sentei-me na biblioteca pública às sete da tarde de uma quarta feira ensolarada (isto é raro em Curitiba), quando comecei a resgatar algumas páginas da Gazeta (fui na biblioteca para não precisar comprá-la) encontrei uma foto magistral de George W. Bush num maravilhoso crocs preto, com um meião preto por baixo e aquilo, eu tenho quase que absoluta certeza, devia também estar encardido. A moda universal é uma migalha em nossos dias, e o mais engraçado dentre todas estas ocasiões que nos falecem dias de arrepio, é que o Brasil recebe as novidades com certo atraso. O All-star, por exemplo, de minha época, surgiu em meados de 1917 com uma tentativa de padronizar os sapatos para o basket, depois com os punks nos EUA, isso vamos contar à década de 50, mais ou menos, o Brasil recebeu em minha adolescência, em 90, eu andava como ditoso a procurar fronteiras em minha vida. E o passado é uma roupa que já não serve mais, como dizia Belchior. A moda dos jogadores de basketboll foi outra coisa que aqui se enjaulou, porém, com uma diferença, os conhecidos manos da era moderna pensam que são atuais, mas não sabem sua descendência. Estes dia encontrei Paula no Supermercado, sorri meio tímido e disse: “olá, Paula, como vai?” ela com um sorriso falso que porventura se fez perceber respondeu: “olá, querido, estou bem”, não pude preservar os meus olhos dentro do instante e pus-me a observar seus pés, que horror, não só os pés mas, de fato, ela estava vestida com uma camiseta tamanho extra-GG, acredito e acredite, com o número 55 na frente, seu verso dizia um Inglês extrovertido “Bear and Floor”, nos despedimos e eu, estático com o carrinho do supermercado nas duas mãos, notei que suavam no frio, o crocs era um tamanho três vezes maior que o pé, acredito que isso seria caso de psicanálise, neste momento tenho uma certeza. Se Freud estivesse ornamentando novas teorias e vivo, é lógico, lançaria uma teoria sob estas circunstâncias, diria ele: “Crocs, camisetas e carros enormes são dependência mútua de sexo, a pessoa incapaz de se satisfazer sexualmente através dos canais viáveis sacia o seu prazer curtido em coisas como; usar crocs maiores do que os pés, usar camisetas enormes e carros grandes, no caso de homens pequenos seria indizível, mas por escrito vai, seria uma dependência de um pênis um pouco maior em sua elasticidade. (Desculpem-me os baixos com carros grandes). Ao sair do mercado com uma olhadela ao lado, percebi que havia uma venda de churros, pedi um de doce de leite, estava a comer em minha inquietude e por perto se aproximou uma sombra, notei, a filha da mulher que me vendera o churros usava um crocs branco, e lógico, encardido de terra vermelha. Depois, ao estacionar meu carro no prédio, subi escandalizado a escadaria porém, antes disso, encontrei o seu Oswaldo, garagista de nosso condomínio, observei em seus pés e lá estava, um crocs preto com meia vermelha, pensei em minhas tarefas que o sujeito no fundo é atleticano, que seja sua sorte. Abri a porta do apartamento e Laura, minha esposa e Laurinha, minha filha, ambas de crocs aos pés a dizer num só som: “Surpresa”!!! Minha filha segurava nas mãos uma caixa com um novo modelo de crocs, diziam-me: “é pra você , papai”, entrei no quarto e refleti muito sobre meus dias, depois, a coçar levemente meus escassos fios de cabelos brancos, vesti um crocs rosa e saí no calçadão da XV com minha esposa e filha para comprar uma casquinha no MC, do outro lado da via, próximo à livraria passava Paula, que por certo me notara e com um cumprimento fez um gesto de positivo olhando aos meus pés. Fui pego de surpresa num dia monístico e monótono de minha felicidade. Eu sou atual, pelo menos.

Um comentário:

  1. Hunfffffff! Carro grande é sinônimo de frustração sexual?! Hunfffffff! Sem outros comentários sobre tal escrita...

    E o crocs?! Fiz um ensaio fotográfico onde os mesmos são as estrelas! Ficou uma COISA!

    Hehehehe...

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