sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Vagas de emprego para Poetas


Ofertam-se vagas para Poeta
Não necessita ter experiência: basta vontade.
Não importa a idade.
Oferece-se boa condição salarial
Carteira assinada.
Belas rimas
Sinfonias
Acordes
Espessuras
Aventuras
Ofertam-se estas vagas aos homens de agora
Os de hoje que não tem o doce nos lábios
Aos que desencantam suas mulheres
Tempo integral
Vida integral
Faça parte de nossa equipe
Não se agite nem tema
Não trema
Sem trema
Faça sua poesia
Aos ouvidos de uma musa
Alegre o dia de alguém com esperança
Corra
Agite
Faça!
Nesta dança de bolero em que se vive
Como numa fita de seda fina
Grite
Ouse
Que eu deixo de te imperar.
E este ar que mo consome esvaecerá de todo.
Assim foi o lodo antes da poética
Dionísio antes do gole
Vênus antes do beijo
Apolo antes da luta pelos troianos.
Poetize o tempo espaço aço
E transgrida, vivo, esta estranha casa
A qual chamamos mundo.
Traga o seu currículo.
Esperamos-te sob medida
No Oráculo de Delfos.
Pensamentos
Momentos
Nomes
Sem
Um

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Um atropelamento?


Um carro veio em contramão na avenida principal do Passeio Público e atropelou uma velhinha. Pobre senhora com uma sacola nas mãos, almofadas nos pés e um chapéu de palha sob a cabeça. O Joel, taxista do Largo passa no exato momento, vê o alvoroço e para seu veículo hidramático, automaticamente desliga a chave e corre em direção ao tumulto. Surge um louco visionário que prevê futuros, diz que neste instante soltar-se-á uma dinamite nos calcanhares dos infames do Müller. Em seguida, como num toque de mágica surge o prefeito da cidade, inicia-se uma conversa fiada destas difíceis de ver em homens públicos. A velhinha, ainda estática na calçada, quebrada, esbaforida suspira lentamente, cospe ao chão um sentimento de raiva, desprezo, sei lá o quê. Depois disso surge uma confusão, uma mistura de sustos, comício e feira. A ambulância chega aos barrancos no local do desastre, uma kombi velha 72, sai esfumaçando dentre a praça dos pelados, cruza a Tiradentes e chega no centro, sei lá o que se dá depois, não leio jornal, não assisto tevê. Eu sou um pouco bitolado às vezes. Depois saem estas notícias todas nas bancas, mas, sei lá, nem compro jornal. Prefiro o mundo irreal, talvez eu tenha sido a personagem louca, visionária da dinamite e acabo de estourar por dentro um conchavo de milagres. Não sei como chamar isso tudo, porém, ninguém deu a mínima pra velhinha.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Esquecimento de mim mesma


http://www.camarabrasileira.com/contosdegrandesautores.htm

Hoje saí a passear com meu cachorro de estimação, ainda estava preocupada com meus três filhos que não me deram mais notícia. Mesmo assim, sem perspectivas, eu saí. O mar atônito demonstra sua demasiada loucura sobre a fina areia da praia. Conheço Gilberto, apaixono-me por ele durante três minutos, jogo rápido, tipo coisa de outro mundo, saímos e temos um caso secreto. Ele conta-me pouquíssimas coisas de sua vida e no mais, para agir com sinceridade, não espero que me conte muito; ao menos assim fico livre de preocupações.
Chego a casa tarde da noite. Encontro Gabriela, prima de meu ex-esposo. Esta menina tem tudo o que merece, tem uma vida feliz, uma casa simples, mas, bonita. Tem uma piscina nos fundos e não trabalha. Casou-se com um milionário e deu nisso.
Convido-a para adentrarmos em meu quarto. Subimos a escadaria em passos curtos e pensativos. Digo-lhe que precisa ver meus dois novos vestidos, já que aprecia coisas do gênero, percebo-lhe certa curiosidade em ver as peças. Quando entramos no quarto fecho a porta, estarrecidamente, e aos poucos começo a retirar as peças do guarda-roupa, uma a uma, amontôo sobre a cama de casal e ela, pávida sentada sobre a cômoda de ferro que há ao lado de minha escrivaninha me observa delicadamente. Visto um vestidinho curto, sinto pouca vergonha em não ter me depilado as pernas nem virilha, mas continuo com minha busca.
Em seguida, como num passe de mágica o meu celular vibra, desço do banquinho e atendo, é Gilberto, o homem com o qual saí em pouco tempo atrás. Quer me ver novamente inteira, quer marcar um encontro. Deve ter se apaixonado, tento induzi-lo a não mais procurar-me, mas, brusco e bruto, ele ofende-me a me chamar de galinha e puta. Desligo o telefone em seguida.
Minha amiga fica sem palavras, olha-me de uma forma amarga. Sei lá o que pensa, mas, eu não queria mais sair com aquele homem. Depois de tanto tempo em busca dos vestidos, encontro e mostro-os à Gabi, ela se delicia com o alinhamento e cores, seus olhos brilham e neste brilho intenso, quando ela menos se percebe eu lhe abraço por trás, como se fosse a enforcar, a pego com gosto. Sinto suas coxas grossas entre as minhas e, ao passo que penso que ela tentaria fugir, mais ela se doa aos meus braços. Por fim nos beijamos secretamente. Só meu cão observa. Isto dura mais ou menos três minutos, quando ela se afasta de leve, ainda a me observar, silenciosa, calma. Sinto que treme muito e como se nada tivesse ocorrido, ofereço-lhe um chá. Ela aceita com a cabeça, então descemos a escadaria sem nenhuma palavra.
Ao chegarmos à sala peço que se sente no sofá. Ela ainda me observa sem palavras. Tanto tempo que nos conhecemos, ela deve pensar, e por que isso aconteceu hoje? Ouço batidas na porta de entrada, quando vou atender são meus filhos, trazem-me presente e dão-me parabéns. Agradeço pelas palavras mas, neste momento, em especial, estou em uma importante conversa com a Gabi. Precisamos de um tempo e, em seguida, os filhos saem. Gabriela fica ainda mais perplexa com o meu forte caráter. Sente mais medo e pensa em sair de casa, porém, tranco as portas, janelas, enfim, tudo o que possa culminar à sua escapatória. Ela grita, estremece e cai sobre o chão. Dormimos afastadas, a noite promete, se inverte, se passa e no outro dia quando acordamo-nos, presas ainda sobre os corpos modificados, aprendemos a dizer bom dia. E por fim, eu chego à conclusão de que tudo não passou de um sonho, que meus filhos, depois de algum tempo, vieram até mim e eu, ingrata e tediosa preferi a Gabi. Eu ainda vou enlouquecer, o Gilberto acaba de me ligar de novo, deixo tocar por vasto tempo, ele desiste fácil, como todo homem. Vou-me embora para São Paulo, arrumo as malas com a Gabriela. Esqueço o mundo todo. Um verdadeiro caos este mundo. Vou-me embora ouvir o canto do sabiá. Aqui não dá.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

poema sem-vergonha


resolvi fazer um poema sem vergonha.
assim, tipo, do nada. escrever por escrever e,
quanto mais escrevo mais rimas vêm
e destas rimas sem-vergonhas,
absolutamente insensíveis, noto, porém,
que o meu quarto
precisa de ajustes como o
meu santo precisa de rezas.
resolvi, outrora escrever este poema
com rimas singelas
sem trelas nem meios termos.
resolvi, assim, tipo, de qualquer forma
escrever para contabilizar
o meu tempo na terra.
já que a terra não explodiu
eu explodo com tudo este poema
ao lodo do tempo que se engana.
uma rima só que se ajusta com o passar ou pesar.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Tic-tac do seu Paulo


Paulão que mais tarde batizaram-no por Paulinho do Shampoo. O homem do certo, limitado e coerente.
Ambivalente, um dia fumava e depois, vendo o poder obstruso do fumo, resolveu parar com o pito. Difícil foi domar a consciência, mas, com força de vontade conseguiu deixar o vício.
Em contrapartida resolveu encontrar outro vício: o de ter sempre sob a ponta da língua um tic-tac, destes branquinhos que se parecem com um dente de bebê.
Certo dia, no ônibus com destino à fábrica, estressado e querendo resolver seus problemas de forma rápida, estinguiu-se a esbaforir diálogos de repugnância sobre o país, sobre as coisas erradas do mundo, enfim, sobre todas as injustiças:
- Onde já se viu??? Eu não acredito numa coisa destas, como pode isto acontecer?
Enquanto isso, sua parceira de diálogo, a Dona Rebeca, senhora de mais ou menos oitenta anos, pelos quais ostentava uns cinqüenta; a chamada velha louca e gostosa ouvia-o pacientemente.
Até que em certo momento de sua fala, do Paulão, sua balinha tic-tac escapou da língua e foi parar no colo da velhinha. Dentro do ônibus, os dois lado a lado e ela, a de cabelos dourados e brancos olhou fixamente para a balinha e disse numa pergunta maliciosa:
- Menino do céu, isto que lhe escapou é um dente? Como pode? E meio cega, ainda tenta definir o objeto minúsculo sob o colo, percebe que junto foram relapsos de saliva, então o Paulão sem vergonha alguma reaparece no discurso, pede licença educadamente e retira devagar o tic-tac do colo da senhora.
Ontem no terminal rodoviário também. Estávamos nós a conversarmos entretidos sobre o campeonato brasileiro, enquanto o Paulo se exalta em sua análise futebolística, se irrita com a derrota de seu time preferido e lá se foi sua balinha... Saiu como ping-pong em direção ao busão amarelo que ia destino a Curitiba. Ele saiu capengando em busca da perda, pediu licença a um senhor que estava próximo da porta de entrada, catou a balinha tic-tac e a pôs no lixo.
Hoje, educada e respeitosamente, a partir desta crônica vivenciada, nos cumprimentamos da mesma forma, mas, a quem acha por acaso que ele desistiu do tic-tac persuade-se perfeitamente, porque no exato instante senti uma bolinha branca passar ping-pongueando pelo corredor e o seu Paulo atrás da infeliz dizendo: volta! Porra...volta...puta que pariu! Volta...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Mudanças para 2012 (Do título original: changes)


Departamento Internacional de Vendas de acessórios. Sala: Diretoria. Reunião com todos os funcionários. O atual vice-diretor começa sua palestra de frente para um data show importado:

- Opa! Então as estatísticas são estas. Pô. Vamu lá... hehe...

Em seguida os atuais sócios empreendedores do compartimento ambiental demonstram seu atual interesse pelo negócio:

- Através de uma base sincrônica de estudos relacionados ao mercado atual, percebe-se um desgaste na economia nacional. Com este fator, entretanto, acreditamos sinceramente que dentro de sete dias iremos bombar.

Após este palavreado: palmas sem cessar.

Então, como de praxe, a Presidenta toma a palavra com atenção e meditação. Respira sem graça, depois com graça, puxa um fôlego com vergonha e depois sem vergonha. Anuncia os itens:

- Bem. Vocês, funcionários nojentos, são muitíssimo importantes para nossa equipe. Tipo assim, para somar, né?! E com isto, pensamos muito nas questões ambientais, né?! Hihihhihi... aiaiaiai... a vida é bela, né?! A partir de hoje, os nossos motores serão recicláveis, o uso será de um mês e voltarão para nós.

Segue-se o tempo sob um silêncio perpétuo, e ela continua a delinear sua esquizofrenia:

- Nossa missão continua: fazer muitos acessórios. Porque o nosso maior bem é o ser-humano. Informo que mudaremos de local. Iremos para Vila Velha, bem no topo, pois estamos sempre acima de tudo, né?! Nas montanhas ninguém nos incomodará. Gente!!!! É o paraíso, eu com o Joaquinzinho fomos ontem lá. Terá Kombi para levá-los e trazê-los durante a semana, né?! Comidinha caseira e tudo tudo o que precisarem, ta?! Não se preocupem porque esta crise pela qual passamos, foi só uma marolinha, coisa pouca, né?!

Ainda um silêncio...

Temos uma visão empresarial que mudará, agora olharemos as montanhas e isto será nossa inspiração. Através desta explanação, trabalharemos o máximo, feito condenados a pena perpétua, ta?!

Os prestadores de serviço baixam suas cabeças...e ela, a presidenta continua...

- Peço que batam palmas e nos abracemos neste momento tão especial.

Enquanto seus assessores continuam à sua volta, cabisbaixos e rindo mentalmente de suas asneiras. Ela bolina seus funcionários e por volta de meio dia pede um brinde à mudança.

A empresa esconde-se a partir de hoje nos morros a margem de Ponta Grossa, parece simpaticamente com castelos vikings, bem no topo da serra, longe de tudo, de todos... num local de mais ou menos mil metros quadrados que existe também a mais ou menos cinco mil anos.

Os funcionários continuam cabisbaixos, porém, bêbados com o champanhe envelhecido.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Vênus

http://www.youtube.com/watch?v=YzjZHBiuNPg&feature=related

Apenas, Vênus, porque canto
Estes maus versos em teus ouvidos?
Hei de pensar em teus sonhos e fazer
Deles parte enquanto estiveres a dormir.
Não te aproximes a meiga e singela nobreza
Do teu encanto sobre os meus ombros, mas, embora
Eu padeça as tardes de amor, escuta-me com os
Teus ouvidos que foram feitos para
O mais tenro sentido da vida.
Ouve-me ou louve-me, embora sem ausência
Que se aproxima de qualquer encanto.
Como teus olhos, como a tempestade que chega.
Como as coisas que se te mostram à vida.
Minha vista que não sossega.
Hei de te encarar frente a frente
E num beijo crucial, esplêndido
Assim como flores no campo, como estrelas no céu...
Muitas satisfações.
Menções.
Orações.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Palavras


Chego à conclusão de que não devo proclamar de forma cruel o que sinto. Devo somente ser liquefeito, porque sou humano e fugaz. De nada resolve querermos resolver tudo de uma só vez, porque a vida não basta e, embora curta, devemos nos emancipar daquilo que nos faz bem e reciprocamente, fará ao próximo. Acredito que de tudo o que digo, abstraio uma porcentagem suficiente de valores. O ser - humano é dotado a pensar em si próprio, produzir coisas aos outros tendo como intermédio, si próprio. Amar ao outro tendo por base, si próprio. Por isso é eloqüente e promíscuo. Age com imaturidade e não obstante reflete o outro como se fosse um espelho à sua frente.
As teorias surgem no mundo e na vida simplesmente para fundamentar uma prática, todavia, acredito que implacavelmente durante séculos de estudos, o mais difícil foi pôr em prática a letra de Cristo: “Amarás ao teu próximo”. Isto é a coisa mais fácil e mais difícil de fazer. Porque o próximo é diferente. Estabelece um vínculo comparativo pelo qual todo o mundo se irrita. A disparidade das coisas do mundo serve para elucidar e refletir um conteúdo social. “Cogito, ergo sun”, basicamente sou eu o dono do meu nariz, mas, de vez em quando tenho enorme vontade de comandar o nariz d’outro. O ser – humano é dotado de razão e capacidade, por este motivo é incapaz.
Chego à conclusão de que a idade traz o silêncio e neste silêncio, de forma constante surge um tom em alto timbre de piano e violinos de J. Pachelbe, enquanto abastece-se uma taça de Malbec que suja friamente a toalha branca. E de todas estas palavras que exprimo ao meu filho, eu acredito completamente por intermédio dos meus compatriotas que, ainda que eu tenha escrito bonito, não chego a lugar algum com minha insignificante poesia.