quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Tic-tac do seu Paulo


Paulão que mais tarde batizaram-no por Paulinho do Shampoo. O homem do certo, limitado e coerente.
Ambivalente, um dia fumava e depois, vendo o poder obstruso do fumo, resolveu parar com o pito. Difícil foi domar a consciência, mas, com força de vontade conseguiu deixar o vício.
Em contrapartida resolveu encontrar outro vício: o de ter sempre sob a ponta da língua um tic-tac, destes branquinhos que se parecem com um dente de bebê.
Certo dia, no ônibus com destino à fábrica, estressado e querendo resolver seus problemas de forma rápida, estinguiu-se a esbaforir diálogos de repugnância sobre o país, sobre as coisas erradas do mundo, enfim, sobre todas as injustiças:
- Onde já se viu??? Eu não acredito numa coisa destas, como pode isto acontecer?
Enquanto isso, sua parceira de diálogo, a Dona Rebeca, senhora de mais ou menos oitenta anos, pelos quais ostentava uns cinqüenta; a chamada velha louca e gostosa ouvia-o pacientemente.
Até que em certo momento de sua fala, do Paulão, sua balinha tic-tac escapou da língua e foi parar no colo da velhinha. Dentro do ônibus, os dois lado a lado e ela, a de cabelos dourados e brancos olhou fixamente para a balinha e disse numa pergunta maliciosa:
- Menino do céu, isto que lhe escapou é um dente? Como pode? E meio cega, ainda tenta definir o objeto minúsculo sob o colo, percebe que junto foram relapsos de saliva, então o Paulão sem vergonha alguma reaparece no discurso, pede licença educadamente e retira devagar o tic-tac do colo da senhora.
Ontem no terminal rodoviário também. Estávamos nós a conversarmos entretidos sobre o campeonato brasileiro, enquanto o Paulo se exalta em sua análise futebolística, se irrita com a derrota de seu time preferido e lá se foi sua balinha... Saiu como ping-pong em direção ao busão amarelo que ia destino a Curitiba. Ele saiu capengando em busca da perda, pediu licença a um senhor que estava próximo da porta de entrada, catou a balinha tic-tac e a pôs no lixo.
Hoje, educada e respeitosamente, a partir desta crônica vivenciada, nos cumprimentamos da mesma forma, mas, a quem acha por acaso que ele desistiu do tic-tac persuade-se perfeitamente, porque no exato instante senti uma bolinha branca passar ping-pongueando pelo corredor e o seu Paulo atrás da infeliz dizendo: volta! Porra...volta...puta que pariu! Volta...

2 comentários: