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Hoje saí a passear com meu cachorro de estimação, ainda estava preocupada com meus três filhos que não me deram mais notícia. Mesmo assim, sem perspectivas, eu saí. O mar atônito demonstra sua demasiada loucura sobre a fina areia da praia. Conheço Gilberto, apaixono-me por ele durante três minutos, jogo rápido, tipo coisa de outro mundo, saímos e temos um caso secreto. Ele conta-me pouquíssimas coisas de sua vida e no mais, para agir com sinceridade, não espero que me conte muito; ao menos assim fico livre de preocupações.
Chego a casa tarde da noite. Encontro Gabriela, prima de meu ex-esposo. Esta menina tem tudo o que merece, tem uma vida feliz, uma casa simples, mas, bonita. Tem uma piscina nos fundos e não trabalha. Casou-se com um milionário e deu nisso.
Convido-a para adentrarmos em meu quarto. Subimos a escadaria em passos curtos e pensativos. Digo-lhe que precisa ver meus dois novos vestidos, já que aprecia coisas do gênero, percebo-lhe certa curiosidade em ver as peças. Quando entramos no quarto fecho a porta, estarrecidamente, e aos poucos começo a retirar as peças do guarda-roupa, uma a uma, amontôo sobre a cama de casal e ela, pávida sentada sobre a cômoda de ferro que há ao lado de minha escrivaninha me observa delicadamente. Visto um vestidinho curto, sinto pouca vergonha em não ter me depilado as pernas nem virilha, mas continuo com minha busca.
Em seguida, como num passe de mágica o meu celular vibra, desço do banquinho e atendo, é Gilberto, o homem com o qual saí em pouco tempo atrás. Quer me ver novamente inteira, quer marcar um encontro. Deve ter se apaixonado, tento induzi-lo a não mais procurar-me, mas, brusco e bruto, ele ofende-me a me chamar de galinha e puta. Desligo o telefone em seguida.
Minha amiga fica sem palavras, olha-me de uma forma amarga. Sei lá o que pensa, mas, eu não queria mais sair com aquele homem. Depois de tanto tempo em busca dos vestidos, encontro e mostro-os à Gabi, ela se delicia com o alinhamento e cores, seus olhos brilham e neste brilho intenso, quando ela menos se percebe eu lhe abraço por trás, como se fosse a enforcar, a pego com gosto. Sinto suas coxas grossas entre as minhas e, ao passo que penso que ela tentaria fugir, mais ela se doa aos meus braços. Por fim nos beijamos secretamente. Só meu cão observa. Isto dura mais ou menos três minutos, quando ela se afasta de leve, ainda a me observar, silenciosa, calma. Sinto que treme muito e como se nada tivesse ocorrido, ofereço-lhe um chá. Ela aceita com a cabeça, então descemos a escadaria sem nenhuma palavra.
Ao chegarmos à sala peço que se sente no sofá. Ela ainda me observa sem palavras. Tanto tempo que nos conhecemos, ela deve pensar, e por que isso aconteceu hoje? Ouço batidas na porta de entrada, quando vou atender são meus filhos, trazem-me presente e dão-me parabéns. Agradeço pelas palavras mas, neste momento, em especial, estou em uma importante conversa com a Gabi. Precisamos de um tempo e, em seguida, os filhos saem. Gabriela fica ainda mais perplexa com o meu forte caráter. Sente mais medo e pensa em sair de casa, porém, tranco as portas, janelas, enfim, tudo o que possa culminar à sua escapatória. Ela grita, estremece e cai sobre o chão. Dormimos afastadas, a noite promete, se inverte, se passa e no outro dia quando acordamo-nos, presas ainda sobre os corpos modificados, aprendemos a dizer bom dia. E por fim, eu chego à conclusão de que tudo não passou de um sonho, que meus filhos, depois de algum tempo, vieram até mim e eu, ingrata e tediosa preferi a Gabi. Eu ainda vou enlouquecer, o Gilberto acaba de me ligar de novo, deixo tocar por vasto tempo, ele desiste fácil, como todo homem. Vou-me embora para São Paulo, arrumo as malas com a Gabriela. Esqueço o mundo todo. Um verdadeiro caos este mundo. Vou-me embora ouvir o canto do sabiá. Aqui não dá.
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