segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Feijoada completa (Chico Buarque)

Um grande vídeo para o início de semana. Produção do Chico com Francis Hime. Uma relíquia da Música Popular Brasileira.

Feijoada completa
(Chico Buarque)

Mulher, você vai gostar:
Tô levando uns amigos pra conversar.
Eles vão com uma fome
Que nem me contem;
Eles vão com uma sede de anteontem.
Salta a cerveja estupidamente
Gelada pr'um batalhão
E vamos botar água no feijão.
Mulher, não vá se afobar;
Não tem que pôr a mesa, nem dá lugar.
Ponha os pratos no chão e o chão tá posto
E prepare as lingüiças pro tiragosto.
Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão
E vamos botar água no feijão.
Mulher, você vai fritar
Um montão de torresmo pra acompanhar:
Arroz branco, farofa e a malagueta;
A laranja-bahia ou da seleta.
Joga o paio, carne seca,
Toucinho no caldeirão
E vamos botar água no feijão.
Mulher, depois de salgar
Faça um bom refogado,
Que é pra engrossar.
Aproveite a gordura da frigideira
Pra melhor temperar a couve mineira.
Diz que tá dura, pendura
A fatura no nosso irmão
E vamos botar água no feijão.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Vida de professor


Como os velhos da Idade Nova dizem: vida de professor não é fácil. Além de ter um salário nada compactuado com a Ganja dos Servidores Públicos, ainda passa necessidade nas filas para pegar aulas no PSS, um programa criado para fins anti-concursos lançado pelo Governo Estadual em mil Novecentos e lá vai fumaça. Me fui de mala e cuia nas mãos, caneta no bolso e apreensivo. Cheguei no local informado no site para a entrega da documentação necessária, uma mulher com um cigarro mastigado informa que isso se dá em outro lugar, no colégio Macedo, se não me engano, Soares. Veja bem, Recebo a senha nove a com uma vontade tremenda de pegar aulas o mais rápido possível, isso porque todo professor é apertado, todo professor precisa comprar livros, beber café e comer pastel. Começa a chamada, eu estou feliz por ter concluído uma pós-graduação, isso me concebeu 15 pontos à frente, portanto – batata! “Senha nove” ouço uma voz rouca, levanto-me com cuidado e dirijo-me até a mesa da bancada com mais ou menos seis pessoas, “Identidade”, retiro do bolso minha identidade e ao mesmo tempo percebo que ela se amarela cada vez mais, isso me dá um calafrio. A mulher vai ticando meus documentos, um a um, diploma, certificado, histórico, RG, CPF e a cor da cueca: branca. “OK” ela diz: eu respondo “ok”, “Opa”, ela diz, “Hãm”? eu respondo. “Você não prestou serviço à Rede Municipal, e aqui consta que sim, você comprova”? “Não, eu não coloquei” retruco para ela, e ela “colocou sim”, então eu, na minha mais cruel meticulosidade e humildade respondo: “eu errei?” e ela cabisbaixa diz: “sim, errou”. Agradeço a compaixão, afinal, sou um professor sem contrato. A inscrição estava complexa, não era fácil, eu sei ao mesmo tempo que isto não é desculpa para se apropriar neste momento. Ela diz que meu nome irá para o final da lista, por sorte não fui indeferido e agora concluo que Os últimos serão mesmo os primeiros. Com isto, demorarei a resgatar algumas aulinhas e guardarei, quem sabe, meu dinheiro na poupança um pouco à frente, por enquanto me contento com o que tenho e o que posso. A vida é uma correria sempre e não compensa nem basta culpar o Governo, é certo que o sistema político da educação corrompe e negligencia muitos dos seus integrantes, porém, nós, a Classe de professores capacitados somos a parte limpa desta sociedade. Somos, com certeza absoluta, conforme a comparação com a Idade antiga, os pensadores que formam uma sociedade mais justa e competente para erguer o país (embora muitos o tentem derrubar). Não desistir é o lema, o tema é o PSS da vez. A história meramente acontece. A ficção de minha vida envolve-me em prodígios de realidades incomparáveis.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Um dia...


As lembranças são que nem água no gelo
Que se dissolvem e vão levando ao mar adentro
Eu vou pensando devagar em minha vida
E os meus planos anunciam um novo espaço

Ainda lembro das manhãs de geada
E pela estrada eu caminhava a esmo e lindo
Como a procurar por um milagre em um dia infindo
Que não passava de um plano de chegada...

Nas noites claras com a lua equilibrada
Entre a paz e a lucidez de cada instancia
Eu ia pulsando meus olhos sob uma distância
Que se dissipava através de um campo de milho...

Depois o dia amanhecia em forma de alegria
Tomava conta das montanhas, das BR’s, do rio
E o gelo se quebrava e seu lugar entregava em tantos mil
E o pecado mútuo quebranto aos pouco se derretia...

E dos passarinhos escorriam cantorias
Que perfaziam as varandas das senhoras felizes,
Em cada uma das casas tinha um beija-flor aprendiz
Quase instalado idilicamente a produzir arterias...

Era um encanto viver naquela terra que se descobriu
Num dia de minha infância e eu que nasci ali naquele dia
Porque lembrei que viver era o mais importante e eu queria
Mostrar ao mundo a minha coragem e num segundo a porta se abriu...

Dentro desta terra cheia de encantos e desejos
Eu corri na chuva de verão quando ele entrou num porvir
E da igrejinha se avistava o ninho d’um João-de-barro na hora de sair
E aquilo dava mais entusiasmo nas orações e nos festejos...

Foi então que acabou meu dia porque eu já era homem.
Quando me olhei no espelho eu tinha barba e era grande
Meus olhos funcionavam como uma espécie de cais num semblante
E aos poucos fui me doando a mim mesmo como fazem os que somem...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Sonho


Desejas, meu encanto,
Que eu seja somente aquilo que pensas?
Amiúde não basta que sintas
Meramente o que sou ou digo.

Pensas, talvez, meu bem,
Que qualquer dia eu te encontres?
Andarei a caminhar d’outro lado da via
Para não esbarrar em teus assombros.

Conceda-me, anjo, um leve olhar
E, portanto, mais que além de um sorriso
Me levarás sozinha, estarrecida ao paraíso
E estarei eu, informe, com a vista para o mar.

E não serei nem aquilo que pensas
E não serei nem aquilo que és.
O que pensas se transformará em sonhos
E o que és será sempre a cópia do que sonhas.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Vai ela


Lá vai ela
O cobertor do meu antiquário
O busão que passa era o bonde perdido
Que me perder fez dela

Mas olha a fera
Com cabelos molhados
Com olhos delgados
Com sorrisos fartos
Com tantos partos

O tempo
Meu perdido tempo
Não é meu tempo
Porque sou obra também

Sou um trabalho de arquivo
Um netbook original da vila Eterna
Um Brown do teu desejo
Que se entrega a cada ensejo.

Me fez perder dela
Mas não perdi a esperança
Lá vai ela a fera
A misteriosa bela

Teus olhos que somem
Teus lábios que medem
Teu tempo sem tempo
Teu medo que mente
Teus passos que mentem
Tua mente que mente

Mas como é dela

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ana


Ana, eu te aconselho não ir tão longe porque o mar está bravo. Por favor, respeite-me, não vá mais além. Espere um pouco que te levo, eu te sigo aonde for, mas mesmo assim, não corra tanto porque minhas pernas não me obedecem mais. Quando eu tinha a sua idade, Ana, eu tenho muitas lembranças na cabeça, mas a que mais marca é que eu corria para ir estudar no morro da poeira, era um morro alto que hoje foi destruído para a construção de uma hidrelétrica do outro lado do rio Cachoeira, eu corria em média cinco quilômetros sem parar, eu tinha a energia de um bruto. Eu acho bom lembrar. Ana, espere pelo menos para me ouvir falar, você chega alvoroçada e nem bola me dá, parece que sou um desconhecido. Não fuja de mim. Como fico a pensar que minha Ana não é também mais a mesma, e parece que sua energia triplica diariamente, a cada noitada que chega de madrugada de algum novo lugar, encosta a porta sem fazer barulhos e pensa, eu imagino, que o velho senhor não a escute com murmúrios e festejos. Meu rivotril não faz mais efeito, uso cápsulas de outras porcarias, mas nada resolve, bebo meu uísque e ele desce feito água garganta abaixo. Ana, não grite tanto à tarde porque durmo igual um porco quase morto, meus tímpanos não me obedecem mais. Embora eu lembre todos os dias das minhas noitadas com altos sons de madrugada, eu passava horas fora de casa e quando voltava ainda poderia reunir três ou quatro moças para festejar com álcool e orgias. Eu não me arrependo de nada, mas no fundo eu sei que estou ausente da vida da Ana, ela vive à beira, na margem de um projeto triunfante que não me diz nada. Espere, minha querida, não vá tão longe porque eu não te alcanço, você cresceu demais, me passou e agora eu fiquei para trás. Olha só, eu grito, hein. Ainda consigo me virar, veja bem aqui, me viro distante. Estou distante de você mas queria que fosse diferente, eu gostaria de estar mais perto. Aguarde-me, Ana, chamo teu nome quando estou calmo e quando me altero chamo Ana Bernadina, que fora o sobrenome resgatado de sua tetravô, que viveu setenta anos de uma vida dura e labutada. Tenho as fotografias até hoje, o que dia em que você quiser visualizar, estão todas na sala, na terceira portinha do armarinho amarelo e velho, deixado por seu avô com condecoração e tudo. Agora, aqui da minha porta com uma sacada minúscula consigo vê-la tomar o ônibus e partir a diante, sei lá aonde vai, mas foi. Esta menina não tem jeito, sua cabeça vive fervendo e sua vida é corrida. Espero que não esteja envolvida com drogas. Ontem ela me ligou, o telefone tocou sete ou oito vezes, eu estava no banho, saí que quase quebrei-me todo, quando atendi já havia desligado, tenho certeza de que era ela. Tenta me procurar, mas quando o faz, eu estou ausente. Eu não tenho mania de procurá-la, pois minha função não permite. Já é quase meio dia, eu preciso comer um pouco, eu relatei esta notória história por falta do que fazer, pois minha mente não me obedece mais. Ana, só uma coisa, não vá tão fundo.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Vida, minha vida!

É desesperador pensar em desespero,
Espero que isto não te toque.
Quanto mais penso mais temo.
Mas ali vinha ela no seu vestido
No seu sorriso no seu abrigo
E eu Calcularia cada passo seu
Porque a cada passo eu mudaria meu mundo.
Eu roubaria tudo o que fosse certo
E deixaria o errado no lugar certo,
Ainda que eu tivesse sede eu morreria de tédio
E por tudo que é mais sagrado, viveria de amor.
Olhe, doçura, no meu ombro
Suporto escombros mas da face em diante,
Daqui em diante é tua possibilidade de sorrir
Que me faz sentir que também posso viver.