sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ana


Ana, eu te aconselho não ir tão longe porque o mar está bravo. Por favor, respeite-me, não vá mais além. Espere um pouco que te levo, eu te sigo aonde for, mas mesmo assim, não corra tanto porque minhas pernas não me obedecem mais. Quando eu tinha a sua idade, Ana, eu tenho muitas lembranças na cabeça, mas a que mais marca é que eu corria para ir estudar no morro da poeira, era um morro alto que hoje foi destruído para a construção de uma hidrelétrica do outro lado do rio Cachoeira, eu corria em média cinco quilômetros sem parar, eu tinha a energia de um bruto. Eu acho bom lembrar. Ana, espere pelo menos para me ouvir falar, você chega alvoroçada e nem bola me dá, parece que sou um desconhecido. Não fuja de mim. Como fico a pensar que minha Ana não é também mais a mesma, e parece que sua energia triplica diariamente, a cada noitada que chega de madrugada de algum novo lugar, encosta a porta sem fazer barulhos e pensa, eu imagino, que o velho senhor não a escute com murmúrios e festejos. Meu rivotril não faz mais efeito, uso cápsulas de outras porcarias, mas nada resolve, bebo meu uísque e ele desce feito água garganta abaixo. Ana, não grite tanto à tarde porque durmo igual um porco quase morto, meus tímpanos não me obedecem mais. Embora eu lembre todos os dias das minhas noitadas com altos sons de madrugada, eu passava horas fora de casa e quando voltava ainda poderia reunir três ou quatro moças para festejar com álcool e orgias. Eu não me arrependo de nada, mas no fundo eu sei que estou ausente da vida da Ana, ela vive à beira, na margem de um projeto triunfante que não me diz nada. Espere, minha querida, não vá tão longe porque eu não te alcanço, você cresceu demais, me passou e agora eu fiquei para trás. Olha só, eu grito, hein. Ainda consigo me virar, veja bem aqui, me viro distante. Estou distante de você mas queria que fosse diferente, eu gostaria de estar mais perto. Aguarde-me, Ana, chamo teu nome quando estou calmo e quando me altero chamo Ana Bernadina, que fora o sobrenome resgatado de sua tetravô, que viveu setenta anos de uma vida dura e labutada. Tenho as fotografias até hoje, o que dia em que você quiser visualizar, estão todas na sala, na terceira portinha do armarinho amarelo e velho, deixado por seu avô com condecoração e tudo. Agora, aqui da minha porta com uma sacada minúscula consigo vê-la tomar o ônibus e partir a diante, sei lá aonde vai, mas foi. Esta menina não tem jeito, sua cabeça vive fervendo e sua vida é corrida. Espero que não esteja envolvida com drogas. Ontem ela me ligou, o telefone tocou sete ou oito vezes, eu estava no banho, saí que quase quebrei-me todo, quando atendi já havia desligado, tenho certeza de que era ela. Tenta me procurar, mas quando o faz, eu estou ausente. Eu não tenho mania de procurá-la, pois minha função não permite. Já é quase meio dia, eu preciso comer um pouco, eu relatei esta notória história por falta do que fazer, pois minha mente não me obedece mais. Ana, só uma coisa, não vá tão fundo.

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