quarta-feira, 22 de março de 2017

Buraco


Que importa a carne, a cevada, a previdência, o salário?

- O que vejo é o Buraco. 

quinta-feira, 16 de março de 2017

A carta


Ontem decidi escrever-te uma carta
Que falasse sobre o nosso amor.
Mas acontece que esqueci de escrever
sobre o sabor que tem em escrever pra
Alguém que nem sabe quem sou.
Ontem, quando tive a decisão de
Digitar a carta, já era tarde da madrugada e quanto mais o tempo
Passava, mais me lembrava que o
Esquecimento era minha morada
Predileta e que, de passo em passo
Eu passava infinitos segundos
Sem pensar em absolutamente nada.
O mais engraçado foi que quando
Terminei a escritura preferida,
Bem na hora do ponto final,
Da referida nota mal tocada,
Decidi dizer-te que de ti já nem
Lembrava.
A carta envelheceu como um cais
À espera do navio.
E o pensamento transbordou-se
como dilúvio.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Parabéns. Por quê?



É muito cruel pensar que a mulher luta por igualdade há séculos. Mais devastador é compreender que essa luta torna-se muitas vezes uma redundância no carimbo da história humana. “Parabéns às mulheres”? Por quê? Essa é a parte crucial sobre a qual deveríamos refletir de maneira compenetrada para, só então, tentarmos trazer à tona um modelo social diferenciado de conduta. Desta forma, parabéns por termos 70% de vítimas de estupro sendo crianças e adolescentes? Vamos celebrar que de acordo com o 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, há um caso de estupro a cada 11 minutos? É simpático e fácil todo dia 08 de março dar os parabéns, comprar flores, recitar poesias, o que dificulta é o modo de representação social que NÓS damos às mulheres de todas as idades em todo restante do ano. Parabéns por muitas mágoas, pelo filho perdido, pelo marido podre, pelo pai funesto e indigesto. Parabéns para a tropa de mortos em lutas por conta de um nome. Esse “parabéns” fajuto é um réquiem de Mozart, é um epitáfio antigo e repetitivo. 
Outrossim, vale lembrar as palavras de Heleieth Saffioti quando traz à contemporaneidade um processo correlato de construção social, no qual diz que da mesma forma que não há ricos sem pobres (os capitalistas que nos perdoem), não há superiores sem os inferiores. Logo, a construção social de uma supremacia masculina exige a construção da subordinação feminina, ou seja, mulher dócil é a contrapartida de macho forte. Mulher emotiva é a parte do homem racional. Mulher inferior é a outra face do macho superior. Todavia, infelizmente este imaginário construído a partir de muitos contextos históricos ainda é muito presente em vários âmbitos culturais, principalmente na sociedade brasileira, em que a mulher subordina-se ao homem de modo emblemático.
O grande problema está em apenas teorizar um fato explícito de grandes dimensões sobre a Mulher com M maiúsculo, pois esta é sua representação digna que deveria, sim, ser valorizada na prática. Porém, enquanto isso não acontece, de nada resolve gastar com flores quando o que sobra no fundo são espinhos, de nada resolvem os poemas, quando no íntimo as palavras perdem o sentido, de nada adiantam os “parabéns”, quando o que restam são lágrimas de dor por não poder ser quem se deseja. 

Força e coragem para lutar!