É muito cruel pensar que a mulher luta por igualdade há séculos. Mais devastador é compreender que essa luta torna-se muitas vezes uma redundância no carimbo da história humana. “Parabéns às mulheres”? Por quê? Essa é a parte crucial sobre a qual deveríamos refletir de maneira compenetrada para, só então, tentarmos trazer à tona um modelo social diferenciado de conduta. Desta forma, parabéns por termos 70% de vítimas de estupro sendo crianças e adolescentes? Vamos celebrar que de acordo com o 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, há um caso de estupro a cada 11 minutos? É simpático e fácil todo dia 08 de março dar os parabéns, comprar flores, recitar poesias, o que dificulta é o modo de representação social que NÓS damos às mulheres de todas as idades em todo restante do ano. Parabéns por muitas mágoas, pelo filho perdido, pelo marido podre, pelo pai funesto e indigesto. Parabéns para a tropa de mortos em lutas por conta de um nome. Esse “parabéns” fajuto é um réquiem de Mozart, é um epitáfio antigo e repetitivo.
Outrossim, vale lembrar as palavras de Heleieth Saffioti quando traz à
contemporaneidade um processo correlato de construção social, no qual diz que
da mesma forma que não há ricos sem pobres (os capitalistas que nos perdoem),
não há superiores sem os inferiores. Logo, a construção social de uma
supremacia masculina exige a construção da subordinação feminina, ou seja,
mulher dócil é a contrapartida de macho forte. Mulher emotiva é a parte do
homem racional. Mulher inferior é a outra face do macho superior. Todavia, infelizmente
este imaginário construído a partir de muitos contextos históricos ainda é
muito presente em vários âmbitos culturais, principalmente na sociedade
brasileira, em que a mulher subordina-se ao homem de modo emblemático.
O grande problema está em apenas teorizar um fato explícito de grandes
dimensões sobre a Mulher com M maiúsculo, pois esta é sua representação digna que
deveria, sim, ser valorizada na prática. Porém, enquanto isso não acontece, de
nada resolve gastar com flores quando o que sobra no fundo são espinhos, de
nada resolvem os poemas, quando no íntimo as palavras perdem o sentido, de nada
adiantam os “parabéns”, quando o que restam são lágrimas de dor por não poder
ser quem se deseja.
Força e coragem para lutar!

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