quinta-feira, 31 de maio de 2012

Charla




Abichornado neste achego tipo um cusco
Eu me comparo a um flaquito.
Tímido e trôpego, hoje distante do taura
E saudoso da vacaria longa entre as guampas.

No parecer de um tempo entre invernadas
Eu me custo a dobrar a guaiaca
Para no fim de toda tarde saudar a linda prenda...
Mesma querela qual me alimenta
E me bota como taco.

Não sou de ludibriar minha querência
Ainda que o mal custe a deixar-se vencer
Sorvo meu mate amargo em uma porunga antiga
E desta vida aprendo aos poucos a me domar.

Quando me tombo embretado numa cincha velha
Não me assusta o maula.
Tchê! Digas por fim se tu te pareces a um maludo
E entras nesta minha quincha.

A china vestida agora és minha
Sobre o desvalido de minha lábia tão bem querida.
Cupincha, Se aprochega gaudério
Pois tua barbaridade não incomoda
Os meus quilombos.

Aqui se sente a água-de-cheiro do mato
Se abanque e escute o bugio velho que te fala,
Embora este mundo antigo esteja uma valha
Ainda vale uma daga...
Uma mesmice de minha charla.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Paixão esquiva




A noite tinha em seu teor um barulhinho de solidão e aproximava-se ao passo que Eulita caminhava em direção do freezer. Em seguida as baratas que atormentavam sua paciência e depois ela voltava em passos lentos para a cama da qual não saia há 25 horas.
Eulita na realidade fora apaixonada por Antonio, mas eles terminaram faz três dias, ele encontrou outra mulher, mais jovem, ardente e bonita.
As meninas amigas a visitavam, arrumavam seu quarto, davam comida e nada daquilo fazia a diferença. A ausência de Antonio era maior do que qualquer coisa no mundo, maior até mesmo que o mundo.
Depois do almoço vinha uma vertigem de coragem em sair da cama, contudo, o pensamento reflexivo naquele homem grande e forte chegava como tormenta e a declinava mais uma vez. A tímida menina esquivara-se da TV, rádio, livros dos quais nunca vivera sem, também deixava de comer e beber.
A coisa da paixão quando ataca de surpresa mesclada ao sofrimento quase mata, entretanto, em palavras simples, o “quase” mata muito mais do que a própria morte.
No mais, o tempo passara e nada mudou a opinião de Antonio nem a estrutura abalada de Eulita.
Dia desses, quando ela estava no parque a caminhar com seu cãozinho, encontra o ex de mãos dadas com uma piriguete. Fecha os olhos, ele vem ao longe, ela segura mais firme o cordão que segura o cão, serra os dentes com espaços de amargura e solidão, sem compaixão se aproxima cada vez mais, enquanto o casal não a nota, apenas sorriem um ao outro como dois apaixonados, assim como ele um dia fez para Eulita, fazia neste momento para outra sem moral e, quando encontraram-se, ela acusou apenas uma renúncia esperançosa, enrolados num silêncio fraco circundando o lago do parque. Em seguida ele teve remorsos, pois notou que ela estava linda demais, olhou para trás enquanto já estava sentada num banco vazio a notar o lago imenso. E o lago era ela, vazio, e a esperança cheia de contágios e era frenética a loucura da paixão.
Chegara mais uma noite e Eulita estava novamente na cama a lembrar do seu dia, do rosto daquele homem pelo qual fora apaixonada. Mas, ainda estava apaixonada e mentia a si mesma. Enganava-se, sobretudo, às escondidas. Havia um combate indestrutível entre razão e coração, no qual o segundo sempre vencia e sua felicidade permanecia distante.
Um novo dia amanhece com novas vidas e novos pensamentos. O telefone de Eulita toca até parar, ela ainda deitada um pouco sonâmbula não lembra de nada. O telefone começa mais uma vez e ela sai da cama, ao atender ouve a tão conhecida voz:
- Alô, Lita?
- Oi, é você?
- Sim, sou.
- O que você quer?
- Eu quero te ver...
A ligação cai, ou ela desliga. Encontram-se por ordem do destino ao fim da tarde no mercado municipal. Beijam-se e se abraçam como dois apaixonados. 
No outro dia ele se casa com a antiga namorada e ela, a Eulita, volta à sua cama debaixo de cobertas grossas e úmidas. 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

De nihilo nihil




Era uma música que ia diminuindo aos poucos enquanto eu permanecia sentado no divã. Barba crescida, cabelos longos e uma xícara de chá na mão direita, com a esquerda segurando o pires que reluzia pela janela numa fria noite.
O disco se remexia na vitrola e eu notava que lá fora, além do gelo havia uma garoa fina e dispersa. Depois disso, ouvi crianças no parque, da mesma forma; um som que aos poucos ia diminuindo, um tom simples e longe, mas, eu, quase nulo fui diminuindo porque eram só memórias. E destas memórias sólidas guardadas em mim eu conseguia perceber que eram como uma virtude, pois me faziam feliz. Aquilo me tornava um homem-menino.
Reiniciava outra melodia, doce e fugaz como as outras, como a vida, mas sem despedidas. Apenas o reflexo dos carros que passavam em frete à minha rua davam um ar cinematográfico ao meu estar daquele momento único. Outro chá e, solitário, meio apreensivo dediquei-me a reler as capas dos discos. E, aos poucos, em cada nova oportunidade relia cartas, pequenos paraísos da existência, depois os acordes antigos de uma música sem fim, apenas um estágio. Em seguida compreendia caladamente os gritos das crianças do parque que diminuíam. A voz na canção também se apagava de vez em quando, tudo era um plano de fundo ao meu instante. Talvez fosse o mais perfeito possível, quem sabe?
O ser - humano, irrequieto, reflexivo faz de sua vida uma paisagem com naturezas vivas, prédios e sons, cheiros e tédios, depois medos e beijos, porque ele, o ser é uma cópia de si, ainda que se mude perpetuamente quem saberá por que razão, o homem ignora a sua natureza e se veste de uma roupa semelhante porém, que lhe serve de metáfora e não condiz com sua índole, muitas vezes.
E no delírio em que eu me encontrava não conseguia diferenciar um gesto de um abrigo. O perigo por perto, uma luz que aparecesse de verdade. No entanto, ainda como humilde garoto, sem saber as razões pelas quais me ausentava de tudo, eu continuava na solidão que me envolvia de lembranças doces, estas que me colocavam em um âmago da alegria, e a imagem ao falar destas palavras é a mais bela possível, uma imagem de entardecer de inverno, com um céu alaranjado embalsamado numa penumbra de sonhos com semelhanças de Deus.
Acreditei, enfim, que a noite acabaria, assim como o medo e o sofrimento. Apenas as imagens não se ausentariam porque a memória é a nossa vida numa lata de filme antigo que às vezes reaparece distante e outras vezes próxima demais que acabamos por quase acreditar que o passado é presente. Contudo, entre tantas razões escondidas, o presente somente existe porque existiu um passado e haverá de existir um futuro, a semelhança entre estes tempos são as coisas que fazemos ou deixamos de fazer, porque no fim teremos motivos para agradecer ou só lembrar de forma um pouco triste.
Retomava o chá na outra mão e o frio continuado, em timbre de solo, o disco a parar aos poucos e as vozes das crianças do parque sumidas. E eu era um novo homem por causa do passado e o passado me escondia entre cortinas de um palco de teatro, todos os atos se passavam ao vivo e eu, parecendo-me a um protagonista, devia ter vivido com mais intensidade aqueles tempos de paz. As coisas reapareciam na cabeça, enquanto as estrelas se faziam mais presentes. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Imagem




A imagem fica mais próxima ao passo que me distraio das coisas reais do mundo. Aumento o zoom da paisagem e vejo o fundo dos olhos, da boca e os brincos em formatos celestiais. O meu sono aumenta e tudo o que vejo me alimenta de forma abundante.
Já estou inteiro no trânsito. Flutuo mediante as provocações de outros automóveis que me irritam e absorvem de mim todo o meu conteúdo. Fico vazio e já não tenho paz. Eu sempre digo que o ser - humano é como uma flor de jardim, deve se render aos encantos e proezas de que a vida lhe impõe, do contrário, sua sobrevivência corre sérios riscos.
Ligo o computador, já em casa novamente, coloco a mesma imagem e me nutro. Meu quarto vazio e escuro me deixa a vontade. A luz do computador restringe os meus olhos a ver outras partes do ambiente mudo, reflete sobre o espelho que parte de trás da porta e dá de frente ao cesto de roupas sujas.
Já não tenho coragem de contar quantas vezes faço a mesma coisa. Eu não sou fácil de lidar. Incomodo-me com a logística das coisas. Até a pizza demora quando eu peço com urgência. No entanto, a foto é o meu alimento. A única foto estimada e dilacerante quando por trás do mar, à espreita de um verso nulo e branco, fugaz, quem sabe me interpreta nostálgica.
Corro em direção ao mar, mas é maior do que eu o propósito de me ver assim. Fujo constantemente dos prejuízos da natureza. Embora eu faça parte dessa natureza, ainda tenho remorsos em guardar segredos. Ou melhor, quem vai me dizer o que fazer da vida?
Uma nuvem cruza o céu em alta velocidade. Frequência máxima. Estou absorto a observá-la quando de súbito uma moto quase me pega. Enlouqueço quieto e resplandeço. Nasço mais uma vez e tenho mais vidas do que imaginava. Tenho mais sorte do que juízo.
Mais uma vez estou em casa. Ligo o computador e a mesma imagem se mostra aos meus olhos. Uma imagem em baixa resolução. Uma imagem flácida. Não ligo a TV nem o rádio. Não leio nem penso. Apenas a imagem fixa de sei lá o que. Uma obra apenas, apesar da insistência, o zoom não resolve nada, reproduz um esmorecimento de dados aleatórios. Sem leitura de arquivos.
Minha ausência acomete-se em perturbar-me. Ainda assim digo infeliz que sou feliz e tudo, ou quase tudo na vida não passa de uma passagem, uma arquitetônica promessa que se resume na foto, na imagem do computador, agora como plano de fundo na tela. Sem mensagem, sem palavras. Apenas o indigesto, a vontade, a lembrança e a dor. Como em versos de jazz, já dizia Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Nada muda no mundo enquanto não se muda a si próprio. E a imagem se faz novamente em meu plano de vida.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Brutal



Não me deixe assim tão só
Não me cale
Minha boca ora condiz ditas
E outrora não diz nada.
Não me convença
Me deixe
Porque quem abrirá o lar
Um estranho lar
Sem poesia seria um imenso
Vapor à luz do dia.
Mas, sem rima nem tanto.
Me abrigue no deserto
Dos teus sonhos.
Sonhos impossíveis
E te ponho na poesia
Inimaginável.
Te curo da tosse
E da luz que te fere.
Fica escuro
E mesmo assim eu canto.
Faz frio na alma
Eu canto.
A cifra do título
E uma canção de miséria
A qualquer canto.
Sutilezas
Tristezas
Esperanças
E certezas
(...)
Tudo em vão se a coragem
Não habita o corpo.
Mente
Ou finge.
Sonhe contigo
Em terceira pessoa
E acordará, quem sabe,
Suada e com febre.
Contudo, uma febre louca
Se espandirá
E acordará a vila
Os peixes do mar.
Não me deixe assim tão no pó
Amiúde uma escolta de amor
Apareça aos poucos
E eu me sinta melhor.
Pois o amor
Esta palavra humilde
Representa uma pintura
O de tanta aventura
Tanta censura
Eu obedeça os atos.
Três, dois, um
Quem saberá?
Uma música persiste
Brutalmente da cabeça.