A noite tinha em seu teor um barulhinho de solidão e aproximava-se
ao passo que Eulita caminhava em direção do freezer. Em seguida as baratas que
atormentavam sua paciência e depois ela voltava em passos lentos para a
cama da qual não saia há 25 horas.
Eulita na realidade fora apaixonada por Antonio, mas eles
terminaram faz três dias, ele encontrou outra mulher, mais jovem, ardente e
bonita.
As meninas amigas a visitavam, arrumavam seu quarto, davam
comida e nada daquilo fazia a diferença. A ausência de Antonio era maior do que
qualquer coisa no mundo, maior até mesmo que o mundo.
Depois do almoço vinha uma vertigem de coragem em sair da
cama, contudo, o pensamento reflexivo naquele homem grande e forte chegava como
tormenta e a declinava mais uma vez. A tímida menina esquivara-se da TV, rádio,
livros dos quais nunca vivera sem, também deixava de comer e beber.
A coisa da paixão quando ataca de surpresa mesclada ao
sofrimento quase mata, entretanto, em palavras simples, o “quase” mata muito
mais do que a própria morte.
No mais, o tempo passara e nada mudou a opinião de Antonio
nem a estrutura abalada de Eulita.
Dia desses, quando ela estava no parque a caminhar com seu cãozinho,
encontra o ex de mãos dadas com uma piriguete. Fecha os olhos, ele vem ao longe, ela segura mais firme o cordão que segura o cão, serra os dentes com espaços
de amargura e solidão, sem compaixão se aproxima cada vez mais, enquanto o
casal não a nota, apenas sorriem um ao outro como dois apaixonados, assim como
ele um dia fez para Eulita, fazia neste momento para outra sem moral e, quando
encontraram-se, ela acusou apenas uma renúncia esperançosa, enrolados num silêncio
fraco circundando o lago do parque. Em seguida ele teve remorsos, pois notou
que ela estava linda demais, olhou para trás enquanto já estava sentada num
banco vazio a notar o lago imenso. E o lago era ela, vazio, e a
esperança cheia de contágios e era frenética a loucura da paixão.
Chegara mais uma noite e Eulita estava novamente na cama a
lembrar do seu dia, do rosto daquele homem pelo qual fora apaixonada. Mas,
ainda estava apaixonada e mentia a si mesma. Enganava-se, sobretudo, às
escondidas. Havia um combate indestrutível entre razão e coração, no qual o
segundo sempre vencia e sua felicidade permanecia distante.
Um novo dia amanhece com novas vidas e novos pensamentos. O
telefone de Eulita toca até parar, ela ainda deitada um pouco sonâmbula não
lembra de nada. O telefone começa mais uma vez e ela sai da cama, ao atender
ouve a tão conhecida voz:
- Alô, Lita?
- Oi, é você?
- Sim, sou.
- O que você quer?
- Eu quero te ver...
A ligação cai, ou ela desliga. Encontram-se por ordem do
destino ao fim da tarde no mercado municipal. Beijam-se e se abraçam como dois
apaixonados.
No outro dia ele se casa com a antiga namorada e ela, a Eulita, volta à sua
cama debaixo de cobertas grossas e úmidas.

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