terça-feira, 29 de maio de 2012

Paixão esquiva




A noite tinha em seu teor um barulhinho de solidão e aproximava-se ao passo que Eulita caminhava em direção do freezer. Em seguida as baratas que atormentavam sua paciência e depois ela voltava em passos lentos para a cama da qual não saia há 25 horas.
Eulita na realidade fora apaixonada por Antonio, mas eles terminaram faz três dias, ele encontrou outra mulher, mais jovem, ardente e bonita.
As meninas amigas a visitavam, arrumavam seu quarto, davam comida e nada daquilo fazia a diferença. A ausência de Antonio era maior do que qualquer coisa no mundo, maior até mesmo que o mundo.
Depois do almoço vinha uma vertigem de coragem em sair da cama, contudo, o pensamento reflexivo naquele homem grande e forte chegava como tormenta e a declinava mais uma vez. A tímida menina esquivara-se da TV, rádio, livros dos quais nunca vivera sem, também deixava de comer e beber.
A coisa da paixão quando ataca de surpresa mesclada ao sofrimento quase mata, entretanto, em palavras simples, o “quase” mata muito mais do que a própria morte.
No mais, o tempo passara e nada mudou a opinião de Antonio nem a estrutura abalada de Eulita.
Dia desses, quando ela estava no parque a caminhar com seu cãozinho, encontra o ex de mãos dadas com uma piriguete. Fecha os olhos, ele vem ao longe, ela segura mais firme o cordão que segura o cão, serra os dentes com espaços de amargura e solidão, sem compaixão se aproxima cada vez mais, enquanto o casal não a nota, apenas sorriem um ao outro como dois apaixonados, assim como ele um dia fez para Eulita, fazia neste momento para outra sem moral e, quando encontraram-se, ela acusou apenas uma renúncia esperançosa, enrolados num silêncio fraco circundando o lago do parque. Em seguida ele teve remorsos, pois notou que ela estava linda demais, olhou para trás enquanto já estava sentada num banco vazio a notar o lago imenso. E o lago era ela, vazio, e a esperança cheia de contágios e era frenética a loucura da paixão.
Chegara mais uma noite e Eulita estava novamente na cama a lembrar do seu dia, do rosto daquele homem pelo qual fora apaixonada. Mas, ainda estava apaixonada e mentia a si mesma. Enganava-se, sobretudo, às escondidas. Havia um combate indestrutível entre razão e coração, no qual o segundo sempre vencia e sua felicidade permanecia distante.
Um novo dia amanhece com novas vidas e novos pensamentos. O telefone de Eulita toca até parar, ela ainda deitada um pouco sonâmbula não lembra de nada. O telefone começa mais uma vez e ela sai da cama, ao atender ouve a tão conhecida voz:
- Alô, Lita?
- Oi, é você?
- Sim, sou.
- O que você quer?
- Eu quero te ver...
A ligação cai, ou ela desliga. Encontram-se por ordem do destino ao fim da tarde no mercado municipal. Beijam-se e se abraçam como dois apaixonados. 
No outro dia ele se casa com a antiga namorada e ela, a Eulita, volta à sua cama debaixo de cobertas grossas e úmidas. 

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