quarta-feira, 9 de maio de 2012

Imagem




A imagem fica mais próxima ao passo que me distraio das coisas reais do mundo. Aumento o zoom da paisagem e vejo o fundo dos olhos, da boca e os brincos em formatos celestiais. O meu sono aumenta e tudo o que vejo me alimenta de forma abundante.
Já estou inteiro no trânsito. Flutuo mediante as provocações de outros automóveis que me irritam e absorvem de mim todo o meu conteúdo. Fico vazio e já não tenho paz. Eu sempre digo que o ser - humano é como uma flor de jardim, deve se render aos encantos e proezas de que a vida lhe impõe, do contrário, sua sobrevivência corre sérios riscos.
Ligo o computador, já em casa novamente, coloco a mesma imagem e me nutro. Meu quarto vazio e escuro me deixa a vontade. A luz do computador restringe os meus olhos a ver outras partes do ambiente mudo, reflete sobre o espelho que parte de trás da porta e dá de frente ao cesto de roupas sujas.
Já não tenho coragem de contar quantas vezes faço a mesma coisa. Eu não sou fácil de lidar. Incomodo-me com a logística das coisas. Até a pizza demora quando eu peço com urgência. No entanto, a foto é o meu alimento. A única foto estimada e dilacerante quando por trás do mar, à espreita de um verso nulo e branco, fugaz, quem sabe me interpreta nostálgica.
Corro em direção ao mar, mas é maior do que eu o propósito de me ver assim. Fujo constantemente dos prejuízos da natureza. Embora eu faça parte dessa natureza, ainda tenho remorsos em guardar segredos. Ou melhor, quem vai me dizer o que fazer da vida?
Uma nuvem cruza o céu em alta velocidade. Frequência máxima. Estou absorto a observá-la quando de súbito uma moto quase me pega. Enlouqueço quieto e resplandeço. Nasço mais uma vez e tenho mais vidas do que imaginava. Tenho mais sorte do que juízo.
Mais uma vez estou em casa. Ligo o computador e a mesma imagem se mostra aos meus olhos. Uma imagem em baixa resolução. Uma imagem flácida. Não ligo a TV nem o rádio. Não leio nem penso. Apenas a imagem fixa de sei lá o que. Uma obra apenas, apesar da insistência, o zoom não resolve nada, reproduz um esmorecimento de dados aleatórios. Sem leitura de arquivos.
Minha ausência acomete-se em perturbar-me. Ainda assim digo infeliz que sou feliz e tudo, ou quase tudo na vida não passa de uma passagem, uma arquitetônica promessa que se resume na foto, na imagem do computador, agora como plano de fundo na tela. Sem mensagem, sem palavras. Apenas o indigesto, a vontade, a lembrança e a dor. Como em versos de jazz, já dizia Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Nada muda no mundo enquanto não se muda a si próprio. E a imagem se faz novamente em meu plano de vida.

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