A imagem fica mais próxima ao passo que me distraio das
coisas reais do mundo. Aumento o zoom da paisagem e vejo o fundo dos olhos, da
boca e os brincos em formatos celestiais. O meu sono aumenta e tudo o que vejo
me alimenta de forma abundante.
Já estou inteiro no trânsito. Flutuo mediante as provocações
de outros automóveis que me irritam e absorvem de mim todo o meu conteúdo. Fico
vazio e já não tenho paz. Eu sempre digo que o ser - humano é como uma flor de
jardim, deve se render aos encantos e proezas de que a vida lhe impõe, do
contrário, sua sobrevivência corre sérios riscos.
Ligo o computador, já em casa novamente, coloco a mesma
imagem e me nutro. Meu quarto vazio e escuro me deixa a vontade. A luz do
computador restringe os meus olhos a ver outras partes do ambiente mudo, reflete
sobre o espelho que parte de trás da porta e dá de frente ao cesto de roupas
sujas.
Já não tenho coragem de contar quantas vezes faço a mesma
coisa. Eu não sou fácil de lidar. Incomodo-me com a logística das coisas. Até a
pizza demora quando eu peço com urgência. No entanto, a foto é o meu alimento.
A única foto estimada e dilacerante quando por trás do mar, à espreita de um
verso nulo e branco, fugaz, quem sabe me interpreta nostálgica.
Corro em direção ao mar, mas é maior do que eu o propósito
de me ver assim. Fujo constantemente dos prejuízos da natureza. Embora eu faça
parte dessa natureza, ainda tenho remorsos em guardar segredos. Ou melhor, quem
vai me dizer o que fazer da vida?
Uma nuvem cruza o céu em alta velocidade. Frequência máxima.
Estou absorto a observá-la quando de súbito uma moto quase me pega. Enlouqueço
quieto e resplandeço. Nasço mais uma vez e tenho mais vidas do que imaginava.
Tenho mais sorte do que juízo.
Mais uma vez estou em casa. Ligo o computador e a mesma imagem se
mostra aos meus olhos. Uma imagem em baixa resolução. Uma imagem flácida. Não ligo
a TV nem o rádio. Não leio nem penso. Apenas a imagem fixa de sei lá o que. Uma
obra apenas, apesar da insistência, o zoom não resolve nada, reproduz um
esmorecimento de dados aleatórios. Sem leitura de arquivos.
Minha ausência acomete-se em perturbar-me. Ainda
assim digo infeliz que sou feliz e tudo, ou quase tudo na vida não passa de uma
passagem, uma arquitetônica promessa que se resume na foto, na imagem do computador,
agora como plano de fundo na tela. Sem mensagem, sem palavras. Apenas o
indigesto, a vontade, a lembrança e a dor. Como em versos de jazz, já dizia
Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o
mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Nada muda no
mundo enquanto não se muda a si próprio. E a imagem se faz novamente em meu
plano de vida.
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