Grandioso amor minha face compreende
E uma pequena angústia me trinca os olhos,
Ardem dolorosamente sem senti-los ao piscar.
Meu corpo se faz de um tremor sem explicação
e sofro por ti, por isso, sofro por ti.
Amanheço em uma cama úmida e singela
Condigo-me, amarelo de padecimento,
Numa volúpia tangente que me desorienta
A cada encruzilhada.
Nestas noites que passo sobre
As vibrações dolorosas e penosas do fastio
Morro de tédio e paixão
Que pareço um animal feroz, mas que no fundo
É um manso bicho sem paz.
Então as flores com seus perfumes
Abrem-se num novo porvir
Sinto-as coloridas nas mãos:
- Eu enlouqueço.
Por instantes o teu olhar me incendeia,
O amor dos teus lábios me toma o corpo
E teus seios que palpitam sobre uma fenda no divã
Deixam-me à luz da lua a ver navios,
Coloco-me entre teus cabelos; mulher amada,
Rubros ou instantâneos, não sei ao certo
Mas são Obra de uma beleza infindável.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Poeira

A poesia me aniquilou
Tornou-me repulsivo
Não esqueço
Não me lembro
Se a coragem de poeta
Aconteceu ou se raiou.
Nas basta, poeta, apenas escrever:
- porque agora vives num mundo doido!
A doideira não passa de um intervalo
Entre uma geração e outra.
Acontece, criado mudo, sob os meus sonhos
Um turbilhão de estrelas
Que talvez já tenham sido apagadas,
Mas, mas... mas elas ainda iluminam
Por causa da longitude que demora a me chegar...
A poesia me repetiu de vez
Palavras surdas quase tortas
Mas palavras certas exatas...
Agora sou eu, poeta, imaginando-me
Parte desta poesia
Que se fez no inverno de dia alegria
Sou-me dentro dela quanto o fundo
Da vida é em meio ao ar.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
O Sonho

Este sonho que te orienta
Não passa de um intervalo
Entre certo motivo vulgo, falho
E uma agulha na esperança latente.
Não basta a ambição que te envolve
Mas um intermédio reles
Em meio a uma faca de meia tona
Que busque conseguinte, o que te encobre.
O ouro lançado ao purunã apetecido e disfarçado
Ainda existe rubro... Um pretexto sem regra
Na estância lastimosa de meia trégua
Um contato solto, meio injuriado e estilhaçado.
Esta preciosidade se faz na vida
Em uma determinada idade
Quando de quando um céu se contorna
Resplandecente e grunhe nas montanhas
A realidade ilusória que mais uma vez
Faz-se esquecida.
quinta-feira, 19 de maio de 2011
A Recepcionista

Pode até parecer pragmatismo de minha parte, mas se hei de criar um estereótipo de algum personagem, há de ser da recepcionista. Uma sujeita incômoda, que vira e mexe troca de lugar no escritório, de posição na cadeira, um bicho inquieto. As que ficam de frente para a porta principal são as mais perigosas, pois seus olhares sobressaem como câmeras de presídios ou do big brother, captam os acontecimentos até por entre as paredes. Seus ouvidos parecem aspiradores de sujeira, ou seja, tudo o que é de ruim elas internalizam na memória e o pior disso, é que depois soltam o que ouviram em segundos atrás, porém, sempre em versões completamente distorcidas, chiados e trincas.
Aconteceu que um dia, mais precisamente num dia de frio, cheguei ao trabalho exausto e atrasado, esta época ainda trabalhava na redação. A recepcionista já me olhou de soslaio, de canto, torta como se fosse perguntar-me: “está atraso, Senhor. O que houve”? E antes mesmo de eu exprimir um bom dia, a maior vontade era de gritar: “O que te interessa”? Mas eu refleti em pouco tempo e a cumprimentei. Em seguida sentei-me no meu setor.
Então lá vinha ela, rebolando e com um cabelo duro feito arroz de terceira, a usar uns óculos matutos destes que não servem para nada (só para dar um ar de artista intelectual – charme):
- Senhor! O João ligou... Ah, a Gisele da Construtora também entrou em contato, mas o senhor não estava. Então, ligue para eles, ta?
Ouvi quieto e minha alma inquieta a me perguntar: “Ela manda em você”? E eu permanecia em silêncio, mudo de verdade e estático. Em seguida ela ia saindo, a rebolar novamente como uma bola murcha, pior do que uma partida entre o Paraná e J. Malucelli.
O telefone toca. A recepcionista atende com uma voz tímida e impaciente, e com certeza curiosa em querer saber detalhes da ligação. Chama o meu ramal e atendo:
- Oi... Pois não?!
- Senhor. É o Eduardo da Academia São Roque. O senhor atende?! É conhecido, né?
- Sim, passe...
E passava a ligação que através da qual, sem sombra de dúvidas, a menina ficava resignada de raiva por eu falar tão baixo e não lhe informar quem era ao fone.
Chegou, um dia, à redação uma menina tímida com um rapaz. Visitantes, talvez? O rapaz entrou em reunião com a chefia e a menina começou a perambular nos setores. A recepcionista veio com seu traseiro empinado, em forma de almofada, e me soltou:
- Quem será esta, senhor? Será que é filha do rapaz?
E num rompimento de barreiras lhe disse:
- Um minuto, vou perguntar e volto para te dizer quem é a menina.
E fui até a moça, perguntei quem era, o que fazia, quantos anos tinha. Passei toda a fofoca à recepcionista. A menina foi embora e depois de tempos começou a me perseguir. Saímos juntos e deu no que deu. A recepcionista, dizem por aí, subiu de cargo, faz tanto tempo já, mas dizem que faz contatos pessoais também e, quando sobra tempo, faz programas na Silva Jardim, no apartamento 2804/A. Seu número é 222, eu sei lá, esqueci o resto... ela continua um aspirador de informações. Se a curiosidade a enriquecesse seria, hoje em dia, primeira dama chegando ao patamar do Silvio Santos.
terça-feira, 17 de maio de 2011
Quebranto e Lembranças

http://www.camarabrasileira.com/ourocontos2011.htm
Havia um choro de criança que aos poucos diminuía... Clarissa, ao levantar-se do sofá da sala abre com força a janela que dá de frente pra Ópera. Em seguida, num sol amadurecido toma o primeiro táxi que passa por ali e segue em direção ao centro da cidade. Encontra-se com Bárbara, sua melhor amiga e num gesto tímido abre o jogo; as duas amigas sentam-se num café próximo do terminal Guadalupe, o barulho da máquina é causa da cidade, e de cima se pode perceber uma margem de pessoas a correr pelo viés do calçadão. Após uma tragada lenta do café, Clarissa retoma o diálogo com a amiga e, indescritivelmente, aparece no meio da porta do bar um homem grande, com barba branca e um chapéu sujo sob os cabelos. Olha fixamente para as duas, talvez mais por medo que demência e aproxima-se do balcão, as duas entreolham-se com algoz e pré-analisam o caráter do homem desconhecido. “Deve ser bêbado ou ladrão”, e numa trégua de pouquíssimos segundos: “Precisamos sair daqui, pode ser um presidiário foragido”. Ao final da conversa, o homem de chapéu pede uma boa média tradicional e pão com manteiga.
Ao passo que o tempo se modifica, as duas, Clarissa e Bárbara continuam numa conversa fiada que aos pouco toma um rumo inverso. Uma inicia um assunto sobre o irmão mais velho que, tendo tudo para casar-se, resolvera abandonar os bens e sumir mundo afora. Em contrapartida, Bárbara relembra através da tênue conversa o seu irmão mais velho que também abandonara sua família e se perdeu no mundo das conquistas fúnebres.
No impasse que o relógio caminha, carros passam em frente na avenida, Clarissa baixa a cabeça e começa a falar de forma baixa, nisto, o homem de chapéu fecha poucamente os olhos e observa e analisa com certa eloquência o diálogo que se mantém ante a porta da lanchonete. Ele ouve sem querer ouvir, seus ouvidos são obrigados a ouvir e mesmo sem ter presenciado o fato que se segue, o homem miraculoso como testemunha viva puxa num som lúcido a carteira do bolso e, com uma voz rouca pede a conta. O atendente que também transparece medo informa o valor, toca no dinheiro com as mãos trêmulas e agradece. Em seguida o homem velho com roupa suja vai à porta, olha mais uma vez para trás, Clarissa e Bárbara estão neste momento sobrepujando a própria sorte, tristes e reflexivas pensam em continuar a conversa mas alguma coisa as impede.
Ao abrir o jogo para Bárbara, despedem-se e Clarissa segue até a Tiradentes, caminha lentamente. Entra na Matriz, a igreja lhe remete um cheiro de lembranças, mas não consegue definir do quê. Ajoelha-se sob o terceiro banco da fileira esquerda. Quando abre os olhos fixos mirados ao altar nota que o mesmo homem que estivera no bar, agora mede sua altura com o ministro em frente ao oratório. O homem a percebe e parece a conhecer, baixa a cabeça com fulgor, seu chapéu está na mão esquerda, Clarissa continua imóvel, pensa em sair, mas suas pernas estão presas. Sente que o sujeito seja um bom homem, pelo menos tirou o chapéu dentro da igreja; é sinal de respeito.
Ao fazer o sinal da cruz, Clarissa sai em passos curtos da igreja, o tempo está a chover e numa hora destas, no centro da cidade, a única maneira é aguardar dentro da catedral ou correr para alguma loja, prefere a segunda opção, corre e quando chega numa loja de acessórios antigos, nota um ambiente escuro, um lugar tenebroso. Uma mão leve toma seu ombro esquerdo e apavorada vira a face, solta um tapa do pavor que a subtraiu a nada, o homem cai ao chão com o barulho. Em poucos instantes o segurança do ambiente ouve a confusão e se aproxima do ocorrido, sem proferir palavra alguma apenas atira sobre o peito do homem que tomara o tapa de Clarissa a confundir este com qualquer bandido. O homem velho de chapéu, caído agonizando ao chão tem um tempo de dizer simplesmente “Clarissa, filha, eu sou o seu irmão que estava longe de ti”. A menina apenas ajoelha-se ao chão e depois disso nada mais se ouve.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
O Ato como fonte da vida, em O Livro de Eli

O Livro de Eli (no original em inglês The Book of Eli) é um filme norte-americano do gênero ação e ficção científica de 2010, dirigido por Albert Hughes e Allen Hughes, escrito por Gary Whitta e estrelado por Denzel Washington, Gary Oldman, Mila Kunis e Jennifer Beals.
Após um apocalípse em que a Terra fora devastada por uma guerra nuclear, Eli (Denzel Washington), um homem que vive perambulando há 30 anos em direção ao oeste, chega a um vilarejo cujo "prefeito" Carnegie (Gary Oldman) procura incessantemente por um livro que, segundo o próprio, trará a ele o poder para governar as pessoas. Trata-se da Bíblia Sagrada, livro que Eli tem em sua posse e que é o motivo que faz viajar rumo ao Oeste, onde entregará o exemplar da Bíblia, que possívelmente seja o último.
O Livro de Eli trata de uma complexidade fundamental aos dias que transcorrem. Interessante ter em mente a perspectiva dualística que existe entre o processo de entendimento da palavra propriamente dita Divína. Em sua devida proporção, Eli vive uma miséria para alcançar um destino muito distante. Em meio a seu trajeto encontra conflitos que o denigrem como ser-humano. Ao passar do tempo o personagem principal carrega um segredo imparcial, isto é, a palavra divina. Carnegie é o único ser, além de Eli, que conhece o poder do Livro sagrado. O antagonista o usaria, deste modo, para um fim ilícito, representando por sua vez um poder persuasivo e retrógrado da sociedade sobre a Bíblia, usando-a para a arrecadação de dinheiro, buscaria fiéis e fundaria, enfim, sua igreja. Esta instabilidade é retida por Eli, que em todo momento proteje o livro até alcançar, no oeste, uma indústria de impressão gráfica, (seu destino) porém, neste ato Carnegie já havia tomado o livro do personagem e descobre, ao abri-lo, que fora escrito em Braile. Por outro lado, Eli guarda toda a palavra em sua mente, processa suas informações e as dita para o representante gráfico, levando dias até o final deste trabalho. Eli seria cego, e sua fé agiria como movedora de seu mundo? Talvez, sim. Em um lugar distante, em meio a um caos desorganizador, o mundo inteiro revive a reconstrução da palavra santa e diante desta informação, os cegos (representados no filme pelos analfabetos) tem sua razão muito próxima de suas mãos mas, ainda sob uma ambição retrógrada, permeia em não se aproximar do livro que tão meramente se infundou. Eli sabia, desde o início que a maior virtude do ser-humano é viver em meio à palavra de Deus, não somente a ter como suposta guia, mas adaptá-la como prática existencial.
terça-feira, 10 de maio de 2011
As minhas pernas guiam meu mundo

Quando eu crescer quero ser igual a meu pai, quero ter estes carros e fazendas, e também correr pela mata sem parar. Quero atingir primeiro o mastro de primeiro lugar nesta pequena cidade. Acontece, amigo meu, que ninguém agora se importa comigo. Desde que fiquei desta forma as pessoas se abstém de minha existência. Antes era Neguinho de lá, Neguinho de cá e agora, nem um “oi”. É engraçado como a gente só tem valor quando está bem e quando, principalmente, tem di din. A Manu, minha namorada também me deixou, dizem por aí que arrumou outro melhor, ou que pelo menos tenha as pernas no lugar. Eu não me dou por vencido. Quando eu crescer quero ser igual ao meu pai. Forte, rico e uma de suas principais características, negociante nato. Faço parte de uma família de classe média-alta. Moro em Curitiba há 19 anos, toda vida morei aqui. Só não consigo entender como meus amigos, os meus melhores amigos também me deixaram na estrada da amargura. Não tenho muita coisa, vivo encostado nesta cadeira e de vez em quando saio para passear em função da empregada que me guia, é uma gostosa de primeira, mas nada consigo multiplicar em minhas entranhas saudosistas. Sempre digo a ela também, que quero ser como meu pai, ela fica em silêncio e continua a me empurrar. Não consigo entender o porquê das pessoas não me perceberem, eu sempre fui um rapaz com ótima aparência, às vezes tímido, mas sempre bem apessoado. Incrível, amigo meu, o mundo não vive mais de aparência. Isto chega a ser um inferno. Este negócio de sentimentalismo barato deixa a gente numa angústia, ainda mais quando se vive só. Meu pai apareceu agora há pouco aqui em casa, ficou no quarto bom tempo com a boa da empregada, depois saiu, beijo-me na bochecha esquerda e se foi num pulo. Sei lá, mas não sou bobo. Mas vivo, por incrível que pareça, em um lugar onde ninguém me percebe. Eu preciso de alguém que guie minha vida, além desta cadeira rolante, senão morrerei, preciso de alguém que me prenda. Eu não consigo entender mais nada nesta vida. E quem sabe, talvez, se quando eu crescer não serei igual a meu pai? Dá para prever. Ora, acabo de ligar a TV e meu pai está foragido, não se manda mais, não me manda mais. Ora, talvez quando eu crescer seja como ele, porém, nunca me conseguirei foragir. Que merda.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Madrugada
http://www.camarabrasileira.com/ouropoesias2011.htm
Letra para samba
O telefone toca na madrugada
- Não me ama? Não me pede nada?
E o silêncio que depois segue
É um tédio, um descontrole.
Me faço em tantas
Me amanheço, sou as palavras
Eu enlouqueço.
E o telefone toca
- Mais uma vez você? Diz o que queres...
E o silêncio apreende
Meu corpo em tédio
Uma febre angústia
Então produzo uma voz rouca:
- Me fala agora o que quero ouvir!
E o telefone para
Fica mudo
Quase nada
Fico surdo?
Ou o que aconteceu?
A madrugada se derrota
Para um dia de amargura
Um dia núblio sem ternura
E a minha sina já não suporta mais.
Letra para samba
O telefone toca na madrugada
- Não me ama? Não me pede nada?
E o silêncio que depois segue
É um tédio, um descontrole.
Me faço em tantas
Me amanheço, sou as palavras
Eu enlouqueço.
E o telefone toca
- Mais uma vez você? Diz o que queres...
E o silêncio apreende
Meu corpo em tédio
Uma febre angústia
Então produzo uma voz rouca:
- Me fala agora o que quero ouvir!
E o telefone para
Fica mudo
Quase nada
Fico surdo?
Ou o que aconteceu?
A madrugada se derrota
Para um dia de amargura
Um dia núblio sem ternura
E a minha sina já não suporta mais.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Colorir

Amarelo!
E começa mais um dia...
Um tom sobre tom sobrepondo sobre o mundo sobre tu:
Bela de meu prazer
Aos poucos a se casar com o azul do mar
Com o azul do céu com o azul do anil.
Sorriso de alteza!
Um vermelho puro sangue puro medo puro muito ver melhor!
Verde que transmite a vida e verdade te digo a ti:
- Oh, tu... mais uma vez...nobreza...
Colora um colorido de amora
Ameixa ao menos
Me deixa mas já não deixa
Porque sou poeta
Sou poeta
Já não sei
E Como poeta que sou
Já não sei
O que digo.
(...)
Coloriu...
Aguenta

Não fará o homem limpo um palácio de bronze?
...E o lobo se faz presente no galinheiro!
Uma visita sorrateira, um tremendo.
Em seguida vem um murmúrio de vozes:
- Aguenta!!! Santa calma...
Faz-se um segundo de silêncio.
Seguidamente um outro barulho:
“Não há mais nada no mundo,
Evaporou-se o doce sonho
Do sólido por entre as mãos do senhor do engenho novo”.
O lobo visita novamente o galinheiro,
Ninguém convidou e,
No entanto, faz a visita mesmo assim.
A gentileza se veste de ouro.
Outro dia a gente termina:
- Aguenta!!! Santa calma...
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