
Pode até parecer pragmatismo de minha parte, mas se hei de criar um estereótipo de algum personagem, há de ser da recepcionista. Uma sujeita incômoda, que vira e mexe troca de lugar no escritório, de posição na cadeira, um bicho inquieto. As que ficam de frente para a porta principal são as mais perigosas, pois seus olhares sobressaem como câmeras de presídios ou do big brother, captam os acontecimentos até por entre as paredes. Seus ouvidos parecem aspiradores de sujeira, ou seja, tudo o que é de ruim elas internalizam na memória e o pior disso, é que depois soltam o que ouviram em segundos atrás, porém, sempre em versões completamente distorcidas, chiados e trincas.
Aconteceu que um dia, mais precisamente num dia de frio, cheguei ao trabalho exausto e atrasado, esta época ainda trabalhava na redação. A recepcionista já me olhou de soslaio, de canto, torta como se fosse perguntar-me: “está atraso, Senhor. O que houve”? E antes mesmo de eu exprimir um bom dia, a maior vontade era de gritar: “O que te interessa”? Mas eu refleti em pouco tempo e a cumprimentei. Em seguida sentei-me no meu setor.
Então lá vinha ela, rebolando e com um cabelo duro feito arroz de terceira, a usar uns óculos matutos destes que não servem para nada (só para dar um ar de artista intelectual – charme):
- Senhor! O João ligou... Ah, a Gisele da Construtora também entrou em contato, mas o senhor não estava. Então, ligue para eles, ta?
Ouvi quieto e minha alma inquieta a me perguntar: “Ela manda em você”? E eu permanecia em silêncio, mudo de verdade e estático. Em seguida ela ia saindo, a rebolar novamente como uma bola murcha, pior do que uma partida entre o Paraná e J. Malucelli.
O telefone toca. A recepcionista atende com uma voz tímida e impaciente, e com certeza curiosa em querer saber detalhes da ligação. Chama o meu ramal e atendo:
- Oi... Pois não?!
- Senhor. É o Eduardo da Academia São Roque. O senhor atende?! É conhecido, né?
- Sim, passe...
E passava a ligação que através da qual, sem sombra de dúvidas, a menina ficava resignada de raiva por eu falar tão baixo e não lhe informar quem era ao fone.
Chegou, um dia, à redação uma menina tímida com um rapaz. Visitantes, talvez? O rapaz entrou em reunião com a chefia e a menina começou a perambular nos setores. A recepcionista veio com seu traseiro empinado, em forma de almofada, e me soltou:
- Quem será esta, senhor? Será que é filha do rapaz?
E num rompimento de barreiras lhe disse:
- Um minuto, vou perguntar e volto para te dizer quem é a menina.
E fui até a moça, perguntei quem era, o que fazia, quantos anos tinha. Passei toda a fofoca à recepcionista. A menina foi embora e depois de tempos começou a me perseguir. Saímos juntos e deu no que deu. A recepcionista, dizem por aí, subiu de cargo, faz tanto tempo já, mas dizem que faz contatos pessoais também e, quando sobra tempo, faz programas na Silva Jardim, no apartamento 2804/A. Seu número é 222, eu sei lá, esqueci o resto... ela continua um aspirador de informações. Se a curiosidade a enriquecesse seria, hoje em dia, primeira dama chegando ao patamar do Silvio Santos.
kkkkkkkkk... Eu precisava rir, obrigada.
ResponderExcluirAbração, Guri!!!
Adorei Everton, mas achei um errinho de português verifique. Rsrsrs Beijos Evanise
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