
Quando eu crescer quero ser igual a meu pai, quero ter estes carros e fazendas, e também correr pela mata sem parar. Quero atingir primeiro o mastro de primeiro lugar nesta pequena cidade. Acontece, amigo meu, que ninguém agora se importa comigo. Desde que fiquei desta forma as pessoas se abstém de minha existência. Antes era Neguinho de lá, Neguinho de cá e agora, nem um “oi”. É engraçado como a gente só tem valor quando está bem e quando, principalmente, tem di din. A Manu, minha namorada também me deixou, dizem por aí que arrumou outro melhor, ou que pelo menos tenha as pernas no lugar. Eu não me dou por vencido. Quando eu crescer quero ser igual ao meu pai. Forte, rico e uma de suas principais características, negociante nato. Faço parte de uma família de classe média-alta. Moro em Curitiba há 19 anos, toda vida morei aqui. Só não consigo entender como meus amigos, os meus melhores amigos também me deixaram na estrada da amargura. Não tenho muita coisa, vivo encostado nesta cadeira e de vez em quando saio para passear em função da empregada que me guia, é uma gostosa de primeira, mas nada consigo multiplicar em minhas entranhas saudosistas. Sempre digo a ela também, que quero ser como meu pai, ela fica em silêncio e continua a me empurrar. Não consigo entender o porquê das pessoas não me perceberem, eu sempre fui um rapaz com ótima aparência, às vezes tímido, mas sempre bem apessoado. Incrível, amigo meu, o mundo não vive mais de aparência. Isto chega a ser um inferno. Este negócio de sentimentalismo barato deixa a gente numa angústia, ainda mais quando se vive só. Meu pai apareceu agora há pouco aqui em casa, ficou no quarto bom tempo com a boa da empregada, depois saiu, beijo-me na bochecha esquerda e se foi num pulo. Sei lá, mas não sou bobo. Mas vivo, por incrível que pareça, em um lugar onde ninguém me percebe. Eu preciso de alguém que guie minha vida, além desta cadeira rolante, senão morrerei, preciso de alguém que me prenda. Eu não consigo entender mais nada nesta vida. E quem sabe, talvez, se quando eu crescer não serei igual a meu pai? Dá para prever. Ora, acabo de ligar a TV e meu pai está foragido, não se manda mais, não me manda mais. Ora, talvez quando eu crescer seja como ele, porém, nunca me conseguirei foragir. Que merda.
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