terça-feira, 17 de maio de 2011

Quebranto e Lembranças




http://www.camarabrasileira.com/ourocontos2011.htm

Havia um choro de criança que aos poucos diminuía... Clarissa, ao levantar-se do sofá da sala abre com força a janela que dá de frente pra Ópera. Em seguida, num sol amadurecido toma o primeiro táxi que passa por ali e segue em direção ao centro da cidade. Encontra-se com Bárbara, sua melhor amiga e num gesto tímido abre o jogo; as duas amigas sentam-se num café próximo do terminal Guadalupe, o barulho da máquina é causa da cidade, e de cima se pode perceber uma margem de pessoas a correr pelo viés do calçadão. Após uma tragada lenta do café, Clarissa retoma o diálogo com a amiga e, indescritivelmente, aparece no meio da porta do bar um homem grande, com barba branca e um chapéu sujo sob os cabelos. Olha fixamente para as duas, talvez mais por medo que demência e aproxima-se do balcão, as duas entreolham-se com algoz e pré-analisam o caráter do homem desconhecido. “Deve ser bêbado ou ladrão”, e numa trégua de pouquíssimos segundos: “Precisamos sair daqui, pode ser um presidiário foragido”. Ao final da conversa, o homem de chapéu pede uma boa média tradicional e pão com manteiga.
Ao passo que o tempo se modifica, as duas, Clarissa e Bárbara continuam numa conversa fiada que aos pouco toma um rumo inverso. Uma inicia um assunto sobre o irmão mais velho que, tendo tudo para casar-se, resolvera abandonar os bens e sumir mundo afora. Em contrapartida, Bárbara relembra através da tênue conversa o seu irmão mais velho que também abandonara sua família e se perdeu no mundo das conquistas fúnebres.
No impasse que o relógio caminha, carros passam em frente na avenida, Clarissa baixa a cabeça e começa a falar de forma baixa, nisto, o homem de chapéu fecha poucamente os olhos e observa e analisa com certa eloquência o diálogo que se mantém ante a porta da lanchonete. Ele ouve sem querer ouvir, seus ouvidos são obrigados a ouvir e mesmo sem ter presenciado o fato que se segue, o homem miraculoso como testemunha viva puxa num som lúcido a carteira do bolso e, com uma voz rouca pede a conta. O atendente que também transparece medo informa o valor, toca no dinheiro com as mãos trêmulas e agradece. Em seguida o homem velho com roupa suja vai à porta, olha mais uma vez para trás, Clarissa e Bárbara estão neste momento sobrepujando a própria sorte, tristes e reflexivas pensam em continuar a conversa mas alguma coisa as impede.
Ao abrir o jogo para Bárbara, despedem-se e Clarissa segue até a Tiradentes, caminha lentamente. Entra na Matriz, a igreja lhe remete um cheiro de lembranças, mas não consegue definir do quê. Ajoelha-se sob o terceiro banco da fileira esquerda. Quando abre os olhos fixos mirados ao altar nota que o mesmo homem que estivera no bar, agora mede sua altura com o ministro em frente ao oratório. O homem a percebe e parece a conhecer, baixa a cabeça com fulgor, seu chapéu está na mão esquerda, Clarissa continua imóvel, pensa em sair, mas suas pernas estão presas. Sente que o sujeito seja um bom homem, pelo menos tirou o chapéu dentro da igreja; é sinal de respeito.
Ao fazer o sinal da cruz, Clarissa sai em passos curtos da igreja, o tempo está a chover e numa hora destas, no centro da cidade, a única maneira é aguardar dentro da catedral ou correr para alguma loja, prefere a segunda opção, corre e quando chega numa loja de acessórios antigos, nota um ambiente escuro, um lugar tenebroso. Uma mão leve toma seu ombro esquerdo e apavorada vira a face, solta um tapa do pavor que a subtraiu a nada, o homem cai ao chão com o barulho. Em poucos instantes o segurança do ambiente ouve a confusão e se aproxima do ocorrido, sem proferir palavra alguma apenas atira sobre o peito do homem que tomara o tapa de Clarissa a confundir este com qualquer bandido. O homem velho de chapéu, caído agonizando ao chão tem um tempo de dizer simplesmente “Clarissa, filha, eu sou o seu irmão que estava longe de ti”. A menina apenas ajoelha-se ao chão e depois disso nada mais se ouve.

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