sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Ausente explicação sobre o amor


Eu não me vejo como um bitolado acústico a falar sobre as peripécias do amor, embora este seja cruel e devastador às vezes. Amor, em minha opinião é somente ato abstrato que existe por si, não há definição, ainda que muitos tenham tentado tal proeza. O amor é sofrimento, dor, chuva e agonia. Amor é a busca incessante do que se não consegue alcançar. É a dor no peito, o choro e quando após o choro, um martírio sensato e ético. Talvez alguns acabem por pensar que amor seja concreto, que existe como o mar, e realmente é como o mar, no qual muitos se afogam, se perdem por caminhos sem volta. Quando se descobre ou redescobre o verdadeiro amor, ele também é abstrato, irreal e misterioso. Existe o desejo de atingir em plena astúcia este objeto que se faz em muitas mentes, e, mesmo assim, mata-se por amor, morre-se por ele ou se vive por toda a vida feliz com e por ele, sendo que o amor romântico, amor dos filósofos ou, seja lá como se explique, existe no psicológico, alimentado pela paixão, por emoções distintas e ambições que fazem da falta que há no coração uma forma de dar mais valor direcionado a quem ama ou é amado. Nós, seres humanos amamos, mas, isso não é a explicação concreta para sermos seres humanos, apenas uma base que não tem muito sentido óbvio. A seguir coloco duas explanações de diferentes pensadores sobre o mesmo tema:
Shopenhauer define amor como um sentimento que radica do impulso sexual, um nome inventado que damos a um impulso de reprodução.
Sócrates já define de uma forma amena, diz que o amor inicia-se com a paixão por um corpo atraente e finaliza-se no amor da beleza absoluta. O sexo é o desejo irrelevante para o amor, com qualidade inferior ao amor que descobrimos quando abandonamos os desejos físicos.
Há um mito por trás disso tudo de que quando Afrodite nasceu os deuses baqueteavam no olímpo, mas, haviam se esquecido de convidar Penúria, deusa da pobreza, que, após a festa, miserável e faminta, veio à caça dos restos enquanto todos dormiam. Nisso encontrou Poros, deus dos recursos, embriagado e prostrado no jardim dos deuses. Deitou-se com ele, e concebeu Eros. "Eis porque o Amor se tornou amante do belo e servo de Afrodite, pois foi gerado em seu dia natalício", explica Sócrates. Assim como sua mãe, o amor vive faminto e sedento, deseja preencher-se; como o pai, encontra sempre expediente para alcançar o que deseja.
O mito revela uma grande lição: amar é desejar o que nos completa, é a possibilidade de preenchimento pleno, uma busca pela perfeição. O amor se vale de todos os recursos para aplacar a dor da falta, e procura pela forma pura e perfeita. Amar é desejar o belo em sua essência, para além do mundo das ilusões.
Portanto, sobre este título complexo e sem definição compreensível, o amor acaba se tornando o inexplicável sentimento que existe em nosso ser. Amor talvez seja aquela dor no peito quando se toca o refrão da música que te faz lembrar de seu amado ou amada, talvez seja o sentimento de saudades quando você passa pelos lugares que te fazem lembrar desta pessoa, é o toque no celular de madrugada, a busca desenfreada pelas conquistas que não conseguimos atingir. É a vitória sobre o júbilo em forma de paz, um sentimento bom que é ruim, que se ganha e se perde muito, que é isso e aquilo. Ainda que nunca cheguemos a uma explicação fiel, é importante refletiremos sobre o ato de amar, se for ato. E amar e amar mesmo sem saber o que é amor. Faz parte da vida e faz bem.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Natal de Jesus


SÚPLICA DE NATAL

Casemiro Cunha

Na noite santificada,
Em maravilhas de luz,
Sobem preces, cantam vozes
Lembrando-Te, meu Jesus!

Entre as doces alegrias
De Teu Natal, meu Senhor,
Volve ao mundo escuro e triste
Os olhos cheios de amor.

Repara conosco a Terra,
Angustiada e ferida,
E perdoa, Mestre Amado,
Os erros de nossa vida.

Onde puseste a alegria
Da paz, da misericórdia,
Desabam tormentas rudes
De iniqüidade e discórdia.

No lugar, onde plantaste
As árvores da união,
Vivem monstros implacáveis
De dor e separação.

Ao longo de Teus caminhos
Sublimes e abençoados,
Surgem trevas pavorosas
De abismos escancarados.

Ao invés de Teus ensinos
De caridade e perdão,
Predominam sobre os homens
A sombra, o crime, a opressão.

Perdoa, Mestre, aos que vivem
Erguendo-Te a nova cruz!
Dá-nos, ainda, a bonança
De Tua divina luz.

Desculpa mundo infeliz
Distante das leis do bem,
Releva as destruições
Da humana Jerusalém...

Se a inteligência dos homens
Claudicou a recaiu,
A Tua paz não mudou
E ao Teu amor não dormiu.

Por isso, ó Pastor Divino,
Nos júbilos do Natal,
Saudamos a Tua estrela
De vida excelsa e imortal.

Que o mundo Te guarde a lei
Pela fé que nos conduz
Das sombras de nossa vida
Ao reino de Tua luz!...


LIVRO ANTOLOGIA MEDIÚNICA DO NATAL - Psicografia: Francisco Cândido Xavier - Espíritos Diversos

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Torcedor é um bicho bobo


Veja bem, o torcedor torce, se remexe, se precipita e se acomoda. O termo torcedor, segundo o professor Ari Riboldi, autor do livroCabeça-de-bagre- termos, expressões e gírias do futebol, é oriundo do latim, do verbo "torquere", que tem o significado original de torcer, desvirtuar, distorcer, adulterar, tornar, virar, torturar e atormentar. A palavra "torcedor" é específica da linguagem brasileira, e o torcedor, fiel ao sentido original do termo, distorce os fatos e falseia a verdade. "É movido apenas pela paixão, pelo coração, pelo fanatismo, o que o impede de ter uma visão racional dos fatos, uma visão isenta e imparcial. O torcedor, na verdade, vê apenas o que lhe é favorável. Por seu amor incondicional ao clube do qual é simpatizante e seguidor, é capaz de desvirtuar as notícias a seu favor". Pois é, o torcedor é uma sujeito com vendas nos olhos, que mensura uma paixão incontrolável por seu time e, por tantas asneiras, perde a razão em prol do que lhe é favorável. Por exemplo, o time de um amigo joga neste exato momento um clássico contra seu maior rival, se ganhar vai para libertadores e rebaixa o temeroso rival, se perder o rival o tira da libertadores e mesmo assim se rebaixa. Fim de jogo, o rival vence e noutro dia, uma loucura total no twitter, facebook, orkut e messenger. Um constatando a ausência do outro. Um rindo da derrota do outro. O outro rindo da perda de um e a guerra de torcidas que abala o centro da cidade se resume em disparos ímpares aos matutos de um coração inflável que já nem existe. O futebol é mesmo coisa de doido, embora os atletas se equiparem a filósofos sobre o amor e outras coisas mais, o torcedor em plena chuva, frio e nevasca está lá, segurando a bandeira e orando, chorando, resmungando e xingando. É incrível como esta paixão cruel faz com que o torcedor invada seu subconsciente e creia nele fielmente, em uma voz que vem sabe lá de onde e diz – no momento em que seu jogador fez uma penalidade máxima no rival e leva um cartão vermelho – Não foi nada, juiz @#%@&****. O cara caiu de maduro. Ou então quando seu goleiro entra em campo, início de jogo e você diz de peito aberto: Este sim, é goleiro de seleção. No entanto, após os vinte minutos de jogo o sujeito toma um gol, então troca-se de discurso no exato momento e o “eu” torcedor, narrador inquieto lamenta-se e diz: Goleiro sem-vergonha, joga nada. E sobra até para o técnico, quando o time perde: Esse técnico é um horror, deve-se retirar isso daí. E quando o time ganha: Este técnico sabe o que faz, está indo bem. Constata-se por esta pequena análise que o torcedor é bipolar, ou seja, ele tem discursos diferenciados a cada segundo. E por ora, o meu time que se lamenta por mais uma derrota em fim de partida dá uma entrevista sincera: - “Nóis demo tudo, tipo assim. Tava difícil. Eu disparei muitos disparos com a bola, mais é compricado. Futebol é uma caixinha de surpresas mesmo e o jogo só acaba quando termina”.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Relógio Ponto


Os tempos mudam. Eu sou funcionário público desde 78 e, pra você ter noção, as coisas nunca ajudam o trabalhador brasileiro. Eu acho uma injustiça atrás da outra. Pois bem, sou da época em que batia o ponto com caneta, assinava o nome na folhinha diária, colocava o horário e ia pro expediente. Depois de um período - e é lógico que muitos burlavam este sistema do caderninho, eu nunca. Então, após esta divertida situação, aconteceu que as maquinetas de ponto tornaram-se modernas, assim como a evolução dos corpos e eletrônicos, as maquinetas de ponto também o sofrem a famosa mutação. Depois veio o ponto de carimbo, que até hoje existe em alguns lugares. No entanto, foi ficando velho, tenho os cartões ponto guardados até os dias de hoje, só por lembrança mesmo. Todo o mundo sempre reclama destas coisas. E de vez em quando eu chegava pouco atrasado, pouco frouxo, pouco abstrato com cara de tacho como se nada tivesse ocorrido. Contudo, nos dias de hoje meu amigo, as coisas mudaram mesmo. Já não sou nenhum garotinho. Preciso comprar meus remédios, meus trâmites, minhas furadeiras e meu viagra. E por isso preciso suar por meu dinheiro, para sustentar parte da família. Família é complicado, janta junto todo dia, nunca perde essa mania. E o meu dinheiro? Sim! Escafede-se, vai buraco abaixo. Mas não posso reclamar a vida toda, afinal, sou filho de Deus e como brasileiro que sou, amanhã tenho médico agendado. Exame disso e daquilo. Uma porcaria atrás da outra. E agora, para triplicarem meus problemas, puseram o Relógio ponto biométrico onde trabalho. É pra foder tudo mesmo, e logo hoje acordei-me atrasado, quase caí da cama, escovei os dentes rapidamente, troquei a roupa e pus-me a correr pela rua atrás do busão tipo um velho tarado, sim, tipo assim, bem doido. Quando cheguei ao job, enfio o dedo com a digital na máquina, sai aos poucos um papel marche quase que podre com a inscrição do meu nome e horário de entrada. Essa minha vida supervisionada não é nada tranqüila. Este tipo de tratamento é uma típica réplica de períodos medievais e eu, um mísero prisioneiro atrelado a um sistema medíocre e nostálgico. Um abraço e até logo. Ass: Jacinto Nóbrega.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Cela


Sou brasileiro portador de uma identidade velha e esquecida. Tenho trinta e quatro anos e tenho certeza que a esta hora da manhã o sol deve estar escaldante na Praça da Ucrânia. Penso muito o dia todo e, embora pensando, acho que fugir ainda seria a melhor atitude. Esquecer toda esta droga aqui. Se estou no quarto há sujeira, no banheiro nem se fala, é horrível. Não vejo a hora de estar passeando com meu cachorro, cultivando minha horta se é que ela ainda está lá.
Só vejo amiúde um pedaço do céu e agora chove lá fora, retomo Crime e Castigo, estou na página 30, isso é grande para diabos, sei lá quando o terminarei. Ah, mas aqui tenho todo tempo do mundo. Ou não tenho? Às vezes não sei ao certo quem sou, o que faço aqui, fico completamente perdido. Que droga.
Lembro-me da época em que andava por estas ruas de bike, fazia dos meus caprichos prediletos os mais belos momentos. As coisas mudam perante o tempo e este, a que chamamos instante, não passa de uma imagem abstrata que recompomos à mente. Parece que me deitei para dormir um pouco e, no fundo acredito, acordei-me hoje como se fossem dez anos depois. Minha cabeça está virada num tormento.
A comida me recompõe as energias. Sensatez é meu segundo nome. Tive tantos professores com os quais nada aprendi, apenas ensinaram-me o que não fazer. Aqui não me utilizo dos números, das palavras, não me utilizo nem mesmo dos atos. Aqui eu sou um mórbido homem esquecido e difamado por uma sociedade ínfima e devastadora. Repito: a sociedade não sabe o que faz.
Acredito, por fim, nos boys velozes dos dias de hoje, e amanhã serão velhos imbecis a debocharem do rock passado. Os garotos são estúpidos e aproveitam a vida da mais ridícula forma. Sentam-se em esquinas com putas devastadoras e não comovem a mais ninguém. Não há mais surpresas, não há mais paixão. Não há mais poemas.
Eu creio na donzela vestida de nada, com cabelos soltos nos ombros sobre uma concha milagrosa, uma deusa que reflete a mim, a esta história, uma ameaça de paixão. Não existe antídoto contra este mal, basta seguir contando os minutos e no final talvez nada aconteça.
Entre o que eu penso e a molecagem das ruas há uma disparidade infinita, quase que súmula. Por isso não sustento imbecis, faço minha política, faço minhas leis e delas sou confidente até mesmo nas incertezas e proezas. Penso se ainda tenho filho, onde ele estará? Sei que tive um filho com uma menina pobre na época de adolescente, hoje deve ter uns dezoito anos, se não estou enganado. Mas para que saber de filho uma hora assim? Novamente pego com a mão direita estendida o Crime e Castigo, deitado nesta cama suja envolvo-me com o cobertor marrom sobre a pele. O que será que Rodion Românovitch Raskólnikov pensava? Este cara era doido, eu acho. Mas, Dostoievski não era bobo.
Chega a noite ou vai-se embora o dia, isso acontece todas as vezes em que me encontro no estado de latência, porém, acredito que desde a última vez que vi o por do sol, nunca haverá outro como aquele. É estranho pensar nestas coisas. O meu delírio se ausenta à sorte de meu viver. Vejo a deusa de volta a passar por meus sonhos, parece estar ausente e feliz e fico feliz, embora eu creia que a felicidade é estado supérfluo.
Coloco meu fone de ouvidos, ouço Moonlight Sonata no último volume e, neste instante estático e límpido, ouço o barulho do vento lá fora, vejo um inseto a pousar lentamente sobre a mão esquerda que segura o MP3. Minha mente descansa de vez e aos poucos vou perdendo os sentidos, meus olhos se entorpecem de um sono robusto e pesado e, mesmo assim nesta ausência de sorte a música continua em notas brilhantes e soltas, o piano vai, volta, sola e enriquece no momento propício em que perco o sono. Beethoven produziu para alguma mulher, eu acho, deveria já estar surdo e com as vibrações fez uma bela arte sobre a qual o mundo se compadece nos dias atuais e hiperficiais.
Inicia-se a próxima, é Jesus bleibet meine Freude, de Bach. Os violinos, depois as múltiplas vozes e novamente os violinos a dançarem num salão liquefeito e vazio. Isso tudo preenche o vazio em meu peito e não há dor, nem sofrimento, já não há nada. Talvez neste momento eu já esteja em estado de dormência e não sei o que digo, nem o que faço neste sonho. Entretanto, a porta da cela na qual me vejo se abre, o policial me corresponde um olhar, sim, talvez queira hoje, enfim, soltar-me deste inferno. Não! Entra outra pessoa, uma companhia aos meus dias, um menino ainda na casa de seus dezoito anos. Eu sempre digo que essa rapaziada não sabe o que faz da vida. Termina a música. Termina o meu sono e infelizmente nada era sonho, estou perdido.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Vênus de Luz


És, Vênus, um ímpeto de luz.
Surges sempre bela e tímida.
Depois sorri e busca em ínfima paz um olhar tenro,
Próprio, que não se pode entender
Se és azul ou se és mar...


E aos poucos o que eu entendo,
Se é que eu entendo, cumpro de aviso
Um terço de abraço e resplandeço.
Me mexo e sou o mesmo, simplesmente...

Quando desvaneces sobre os cabelos
Me enlouquece e do teu olhar meigo
Retiro sutilezas, grandezas que se
Constroem humildemente com pequenas coisas:
Sorriso, simpatia, ternura e sensatez...

Teu trejeito me deixa sem jeito,
Arrependo-me dos ditos não ditos
E das coisas mais intensas das quais
somos parte. És fatia de sonho
que quando se torna realidade
Fica longe, mórbido e lúcido ao mesmo tempo.
E se és este pedaço sem explicação viável no mundo,
Continuo eu, reluzente como céu em dias de amor.
E mesmo do amor desfeito
Acredito intensamente, por fim, conseguir encontrar o grand canyon
sobre seu olhar de mistério que lucidamente me beija,
Me comove e derrete-me até aos eixos da própria existência.
[...] Porque esta, a vida encontrada, merece mais do que imaginas e do que fazes...
E tudo é tão perfeito que faltam-me letras.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Mórbido


Acordarás sentida e me guiarás ao teu umbigo.
Parte inteira, inteiro um mundo
Ou pedaço dele. Quem sabe o que serás?
Interrogações surgirão sobre tua boca e ela,
Esquisita, beijar-me-á no prelúdio de tuas ideias.

Não acontecerá talvez noção de modo
Espaço ou momento.
Tudo será apenas um guia. Sei lá!
Estranha, beijar-me-á devagar
E os teus olhos mórbidos meio calados
Se esquivarão do medo do meu olhar.

Uma coisa meio que doida acontecerá.
Acontecerão fases recíprocas.
Depois da tempestade o sol voltará a sorrir.
Num ato! porvir, a vida guiar-me-á ao teu lazer
Que o meu laser detectou desde o futuro.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Bordô



http://www.camarabrasileira.com/tt11-008.htm


Rua São Jorge, apartamento 108, praça Tiradentes. Inicia-se uma conversa do outro lado do apartamento que aos poucos vai aumentando sua tonalidade. Larissa inquieta no seu canto ouve sem querer ouvir estas vozes que dilaceram seu coração. Sai em prantos, abre a porta com uma pancada de solavanco e se manda rua abaixo. O chafariz entupido apenas acomoda-se indiscretamente revelando apenas mais um descompromisso da política com o cidadão. Seus cabelos ao vento e ela, graciosa com um sorriso embutido em lágrimas tortas. Continua seu trajeto sem olhar para trás. Chega enfim na Lancheria Alameda, pede uma sopa e uma taça de vinho, um pouco incômoda ainda por estar só e, do outro lado de sua mesa há um casal que se beija reciprocamente, saem do local depois de duas horas e se vão quem sabe a um motel próximo.
Larissa já na quinta taça projeta-se sob uma sombra oblíqua que não a leva a lugar nenhum, e sim, muito pelo contrário, a detona em cada esquina. Não quer voltar para casa tão cedo, o barulho infernal naquele lugar é antigo, o lugar passivo e as pessoas terroristas. Gritos, bafos, socos, empurrões, um caos que a inaugura em todo segundo. De preto, olhos pintados, cachecol bordô e uma blusa jeans que remete aos tempos de dantes. Caminha com um susto longínquo, como se estivesse num passado simples e que neste tempo não soubesse o que fazer. Apenas continua.
Ao passar pela XV de novembro três garotos a impedem o trajeto.
- Que foi tia? Passa a grana! Tira a roupa, vadia!
Então a menina, num desespero entrançado, repele com um silêncio solto:
- Não tenho dinheiro, moleque! – e retira a blusa jeans, depois a saia preta com os sapatos, retira o cachecol e corre enlouquecidamente pela rua com destino incerto. Grita e os malandros a perseguem até certa altura, porque ela entra numa farmácia que mesmo tarde da noite continua aberta.
Depois do fôlego recapitulado volta à rua. Caminha lentamente como se alguém estivesse à sua espreita. Chega novamente em casa, na Rua São Jorge, apartamento 108...por enquanto um leve som de música clássica, e no entanto aumenta gradativamente ao passo em que ela se aproxima da porta, como uma canção de Wagner que fere no momento oportuno.
Uma mão repele Larissa ao passar pela entrada de sua residência e logo ela tenta se segurar no vão da escada para não cair. A mão surgiu vagarosamente e do nada a derrubou. A mãe, caída ao chão agoniza ainda depressiva, rola sob o chão úmido do qual depende. A mão sumiu como num passe de mágica, a mesma mão que gritava anteriormente e que fez com que a mãe entrasse num desespero surdo.
Depois, não mais que dois ou três minutos a vizinha estava escondida sob a porta, observando com um olhar frio as caudalosas noites de angústia de Larissa que veio a ser mãe com seus 13 anos. A mão, dizem hoje em dia que era de Gabriela, sua filhinha e que, no momento do pranto um estrondo em seu apartamento ocorreu.
Hoje, ao passar pela Rua dos Golfinhos, sob um sol dilacerante e mudo, um mundo observa numa lápide da praça ali contido o cachecol bordô com uma frase: Foi-se o mundo em que a coragem era temida. Os moleques arruaceiros continuam a perpetuarem os cômodos vazios da cidade, a picharem os prédios abandonados e a esconderem-se da polícia em dias de futebol e, no mais por ventura, o ar que habita o lugar nos dias comuns é o mesmo, forte e tenebroso. O bordô das ruas se apaga da mesma forma que as lâmpadas são estilhaçadas por pedras corrompidas.
Larissa, a invenção da mãe que teve uma filhinha foi mantida presa por muito tempo em uma casa de recuperação. Não se sabe o que sucedeu.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O óleo Trunco


Leio um anúncio no Jornal do Povo que me instiga. Dizia mais ou menos assim: “Venha conhecer os milagres do Reino Mundi, liberte-se”. E eu, nas alturas em que me encontro vou até o local. Uma igreja enorme, com estruturas funestas, arquitetura incomparável com vitrais reluzentes e cores diferentes. Ao chegar à porta um homem de preto, talvez segurança do local me questiona: “Identificação!”, eu deslocado me viro nos trinta, não compreendo e faço a ele um olhar de interrogação. Então volta com um chamado mais objetivo: “dez reais, moço”. Entendido. Pago e adentro-me no palácio.
Se fora era bonito, cá para nós, dentro o negócio é três vezes melhor, salas de jogos, piscinas, confraternizações e, ao centro, o local da pregação. Um homem, aparenta trinta anos fala quase rouco, grita, chora, esperneia, se contorce e chama deveras algumas pessoas ao palco para dar suas vivências à mostra.
- Agora quero chamar aquele senhor, isso, sim, este senhor, vem cá!
Um homem de mais ou menos sessenta anos sobe, vagarosamente, então se iniciam sessões de perguntas e respostas, uma famosa entrevista entre o legendário e o barroco. O pastor começa:
- Então o senhor dará sua dita!
- Sim, sim. Eu fui ao banco esta noite, quando não havia ninguém e lambuzei a porta com o óleo trunco, depois, depois, depois... no outro dia fui lá, pra ver minha dívida de trinta mil euros, então o gerente olhou-me e disse: Não, senhor. Não há dívida!
Toda plateia boquiaberta a babar sobre seus livros. Então o pastor repele:
- Palmas... Viram só? O óleo trunco o fez! O óleo trunco faz milagres. Este senhor devia ao banco e, passou o óleo nas portas e noutro dia foi até lá e nada mais devia. Palmas.
Eu, ainda com certo espanto em desacreditar do ocorrido, coço-me, olho para trás e há muita gente ali.
Ao final, o pastor segue com um olhar titubeante a todos dali e para justamente em mim, logo a mim! Chama-me, eu pergunto se sou eu e ele diz “sim, é você, venha”. Coloca as mãos em minha cabeça. Fala um árabe contínuo e pergunta-me: “o que quer?”. Respondo de pronto: “um carro zero”. E ele interpele: “pois terá ainda hoje”. E manda-me de volta ao meu lugar.
Então se acaba o evento e, depois da chamada, vou até a loja de conveniência da igreja, compro uma garrafinha do famoso óleo trunco. Saio do lugar ainda perplexo com tantas falações e diálogos. Chega a mim uma mulher linda e diz: “moço, este carro é seu”. Colo neste momento minha garrafinha no bolso. Ainda descreio daquilo, mas, ela entrega-me as chaves. Depois de um alvoroço danado, depois de minha gritaria e alegria, pego as chaves e saio de carro zero. Na primeira esquina da Desembargador Motta com a Carlos de Carvalho sou assaltado, levam-me o carro. Baixo minha cabeça. Chego a casa ainda triste, porém, suscitado com o milagre. Resolvo comer peixe. Pego então meu óleo trunco do bolso, ponho-o sobre a frigideira e faço peixe frito. E não é que este senhor óleo trunco é bom mesmo? Ficou divino.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Em rolo lados lado a lado


Teu olhar
Teu caminhar
Pena que peno
Pensando em ti.
Teu passo
Teu medo
Medo do que tens?
Teu sorriso malicioso
Teus lírios tidos
Em tempos passados...
Teus fragmentos
Melhores momentos,
Ah, estes nunca te esquecerás.
Teu rolo de rodas e cordas
As tranças, barrancas,
Sorrisos tímidos
E modas.
Teu passado
És parte do meu.
Pensando em ti
Zelarei as noites
E os dias inebriados
Serão contidos
Em minutos ou segundos.
Teu caminhar
Teu olhar.
Enrolado
De pensamentos
E momentos
Em rolo metro
Rodas de sal
Mar
Azul
Sol.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Eu não sou o Estado


Hoje cometi um erro.
Levantei-me e pensei sobre o mundo.
E meu mundo de mim se esquivou.
Hoje acordei pesado
Depois de um leve pesadelo.
Fiz-me lembrar por bem que o meu
Patrão me espera de cinta às mãos.
Fiz-me perceber que
Sou um objeto do Capital-Estado.
E neste estado no qual me vejo
Não sinto emoção nem sensatez.
É uma mistura destrambelhada de nojo
E arrepio.
E neste arredio convívio meu de mim mesmo,
Fecho as portas do meu quarto e ouço
A minha canção de amor;
Que diz em um dos versos
Que a maior solidão é aquela
Prolongada, dura, sólida
Que convive com a alma
Mesmo estando só, num mundo de mágoas.
A canção já não cura
Não desfruta coisa alguma.
Mas, uma de minhas melhores frases
Que esqueci, dizia que o mundo
Pode, ainda que com custo, tornar-se
Uma máquina que trabalhe
A favor de ti...de todos.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Querido Diário, de Chico Buarque




http://www.youtube.com/watch?v=TW_QM0H0ZYg

Chico revela em seu novo disco um discurso interno, mais precisamente, de um apanhado de memórias sob as quais revive de modo singular e autêntico. Parafraseando Gustavo Bonin que fez uma análise maravilhosa sobre esta obra e diz em questão da mesma que o narrador em Chico busca um relato no fundo do baú, comparando-se até mesmo ao Brás Cubas que narra suas memórias após a morte. O disco, enfim, apresenta inúmeras personagens com suas características, emana-se de um modo reflexivo sobre o amor, o sentimento, esta coisa perturbadora que nos deixa emaranhados e amarrados sobre nós mesmos.
Seu discurso subalterno, rico de elementos populares também faz parte de um pano de fundo bastante conhecido (muito mais em prática do que em teoria) que é exatamente, tomando o termo sugerido pelo grande teórico filósofo francês Gilles Lipovetsky, a hipermodernidade. Este termo sugere pensar a música “Querido Diário”, que apresenta aspectos hiper-reais, fundamentais para repensar o meio social no qual a vida se insere. Esta música baseia-se sob uma improbabilidade dos fatos dentro do momento hipermoderno. Compreende-se como uma melodia harmonizada em meio a um anseio subjetivo no discurso musical em pequenas sutilezas, uma voz vinda de um lugar profundo, sem muita expectativa. Se lida, porquanto, com uma disfunção da linguagem e esta, ainda que rebuscada e incompreendida diante de seus relatos, abrange uma grandeza ínfima que serve de parâmetro ao fato real em que o dia-a-dia causa.
Sob as palavras de Linda Hutcheon, a poética pós-moderna trata-se do “que é e como se dá” esta incompreensão realista. Trabalha-se num ambiente de desordem e fatos antigos, reinventados pelo olhar do narrador.
A canção enuncia perguntas que não são respondidas em torno da trama, enuncia também prodígios de pensamentos pelos quais o narrador perpassa um mundo imaginário, um caos desorganizador, pensa em ter religião, amar a uma mulher sem orifício. E hoje, afinal, conhece o amor, este objeto que se mostra como uma obscura trama.
Através de um emaranhado descaminho, a canção restaura uma beleza que se havia sido esquecida. A narração plausível e leve com novas memórias e situações aborda a temática da desventura e revela, a partir de então, aspectos contemporâneos que são, ao mesmo tempo, causa e efeito.


HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago,
19 91.

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2763082-EI6782,00-Entrevista+Gilles+Lipovetsky+parte+I.html

http://www.chicobastidores.com.br/

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Vagas de emprego para Poetas


Ofertam-se vagas para Poeta
Não necessita ter experiência: basta vontade.
Não importa a idade.
Oferece-se boa condição salarial
Carteira assinada.
Belas rimas
Sinfonias
Acordes
Espessuras
Aventuras
Ofertam-se estas vagas aos homens de agora
Os de hoje que não tem o doce nos lábios
Aos que desencantam suas mulheres
Tempo integral
Vida integral
Faça parte de nossa equipe
Não se agite nem tema
Não trema
Sem trema
Faça sua poesia
Aos ouvidos de uma musa
Alegre o dia de alguém com esperança
Corra
Agite
Faça!
Nesta dança de bolero em que se vive
Como numa fita de seda fina
Grite
Ouse
Que eu deixo de te imperar.
E este ar que mo consome esvaecerá de todo.
Assim foi o lodo antes da poética
Dionísio antes do gole
Vênus antes do beijo
Apolo antes da luta pelos troianos.
Poetize o tempo espaço aço
E transgrida, vivo, esta estranha casa
A qual chamamos mundo.
Traga o seu currículo.
Esperamos-te sob medida
No Oráculo de Delfos.
Pensamentos
Momentos
Nomes
Sem
Um

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Um atropelamento?


Um carro veio em contramão na avenida principal do Passeio Público e atropelou uma velhinha. Pobre senhora com uma sacola nas mãos, almofadas nos pés e um chapéu de palha sob a cabeça. O Joel, taxista do Largo passa no exato momento, vê o alvoroço e para seu veículo hidramático, automaticamente desliga a chave e corre em direção ao tumulto. Surge um louco visionário que prevê futuros, diz que neste instante soltar-se-á uma dinamite nos calcanhares dos infames do Müller. Em seguida, como num toque de mágica surge o prefeito da cidade, inicia-se uma conversa fiada destas difíceis de ver em homens públicos. A velhinha, ainda estática na calçada, quebrada, esbaforida suspira lentamente, cospe ao chão um sentimento de raiva, desprezo, sei lá o quê. Depois disso surge uma confusão, uma mistura de sustos, comício e feira. A ambulância chega aos barrancos no local do desastre, uma kombi velha 72, sai esfumaçando dentre a praça dos pelados, cruza a Tiradentes e chega no centro, sei lá o que se dá depois, não leio jornal, não assisto tevê. Eu sou um pouco bitolado às vezes. Depois saem estas notícias todas nas bancas, mas, sei lá, nem compro jornal. Prefiro o mundo irreal, talvez eu tenha sido a personagem louca, visionária da dinamite e acabo de estourar por dentro um conchavo de milagres. Não sei como chamar isso tudo, porém, ninguém deu a mínima pra velhinha.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Esquecimento de mim mesma


http://www.camarabrasileira.com/contosdegrandesautores.htm

Hoje saí a passear com meu cachorro de estimação, ainda estava preocupada com meus três filhos que não me deram mais notícia. Mesmo assim, sem perspectivas, eu saí. O mar atônito demonstra sua demasiada loucura sobre a fina areia da praia. Conheço Gilberto, apaixono-me por ele durante três minutos, jogo rápido, tipo coisa de outro mundo, saímos e temos um caso secreto. Ele conta-me pouquíssimas coisas de sua vida e no mais, para agir com sinceridade, não espero que me conte muito; ao menos assim fico livre de preocupações.
Chego a casa tarde da noite. Encontro Gabriela, prima de meu ex-esposo. Esta menina tem tudo o que merece, tem uma vida feliz, uma casa simples, mas, bonita. Tem uma piscina nos fundos e não trabalha. Casou-se com um milionário e deu nisso.
Convido-a para adentrarmos em meu quarto. Subimos a escadaria em passos curtos e pensativos. Digo-lhe que precisa ver meus dois novos vestidos, já que aprecia coisas do gênero, percebo-lhe certa curiosidade em ver as peças. Quando entramos no quarto fecho a porta, estarrecidamente, e aos poucos começo a retirar as peças do guarda-roupa, uma a uma, amontôo sobre a cama de casal e ela, pávida sentada sobre a cômoda de ferro que há ao lado de minha escrivaninha me observa delicadamente. Visto um vestidinho curto, sinto pouca vergonha em não ter me depilado as pernas nem virilha, mas continuo com minha busca.
Em seguida, como num passe de mágica o meu celular vibra, desço do banquinho e atendo, é Gilberto, o homem com o qual saí em pouco tempo atrás. Quer me ver novamente inteira, quer marcar um encontro. Deve ter se apaixonado, tento induzi-lo a não mais procurar-me, mas, brusco e bruto, ele ofende-me a me chamar de galinha e puta. Desligo o telefone em seguida.
Minha amiga fica sem palavras, olha-me de uma forma amarga. Sei lá o que pensa, mas, eu não queria mais sair com aquele homem. Depois de tanto tempo em busca dos vestidos, encontro e mostro-os à Gabi, ela se delicia com o alinhamento e cores, seus olhos brilham e neste brilho intenso, quando ela menos se percebe eu lhe abraço por trás, como se fosse a enforcar, a pego com gosto. Sinto suas coxas grossas entre as minhas e, ao passo que penso que ela tentaria fugir, mais ela se doa aos meus braços. Por fim nos beijamos secretamente. Só meu cão observa. Isto dura mais ou menos três minutos, quando ela se afasta de leve, ainda a me observar, silenciosa, calma. Sinto que treme muito e como se nada tivesse ocorrido, ofereço-lhe um chá. Ela aceita com a cabeça, então descemos a escadaria sem nenhuma palavra.
Ao chegarmos à sala peço que se sente no sofá. Ela ainda me observa sem palavras. Tanto tempo que nos conhecemos, ela deve pensar, e por que isso aconteceu hoje? Ouço batidas na porta de entrada, quando vou atender são meus filhos, trazem-me presente e dão-me parabéns. Agradeço pelas palavras mas, neste momento, em especial, estou em uma importante conversa com a Gabi. Precisamos de um tempo e, em seguida, os filhos saem. Gabriela fica ainda mais perplexa com o meu forte caráter. Sente mais medo e pensa em sair de casa, porém, tranco as portas, janelas, enfim, tudo o que possa culminar à sua escapatória. Ela grita, estremece e cai sobre o chão. Dormimos afastadas, a noite promete, se inverte, se passa e no outro dia quando acordamo-nos, presas ainda sobre os corpos modificados, aprendemos a dizer bom dia. E por fim, eu chego à conclusão de que tudo não passou de um sonho, que meus filhos, depois de algum tempo, vieram até mim e eu, ingrata e tediosa preferi a Gabi. Eu ainda vou enlouquecer, o Gilberto acaba de me ligar de novo, deixo tocar por vasto tempo, ele desiste fácil, como todo homem. Vou-me embora para São Paulo, arrumo as malas com a Gabriela. Esqueço o mundo todo. Um verdadeiro caos este mundo. Vou-me embora ouvir o canto do sabiá. Aqui não dá.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

poema sem-vergonha


resolvi fazer um poema sem vergonha.
assim, tipo, do nada. escrever por escrever e,
quanto mais escrevo mais rimas vêm
e destas rimas sem-vergonhas,
absolutamente insensíveis, noto, porém,
que o meu quarto
precisa de ajustes como o
meu santo precisa de rezas.
resolvi, outrora escrever este poema
com rimas singelas
sem trelas nem meios termos.
resolvi, assim, tipo, de qualquer forma
escrever para contabilizar
o meu tempo na terra.
já que a terra não explodiu
eu explodo com tudo este poema
ao lodo do tempo que se engana.
uma rima só que se ajusta com o passar ou pesar.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O Tic-tac do seu Paulo


Paulão que mais tarde batizaram-no por Paulinho do Shampoo. O homem do certo, limitado e coerente.
Ambivalente, um dia fumava e depois, vendo o poder obstruso do fumo, resolveu parar com o pito. Difícil foi domar a consciência, mas, com força de vontade conseguiu deixar o vício.
Em contrapartida resolveu encontrar outro vício: o de ter sempre sob a ponta da língua um tic-tac, destes branquinhos que se parecem com um dente de bebê.
Certo dia, no ônibus com destino à fábrica, estressado e querendo resolver seus problemas de forma rápida, estinguiu-se a esbaforir diálogos de repugnância sobre o país, sobre as coisas erradas do mundo, enfim, sobre todas as injustiças:
- Onde já se viu??? Eu não acredito numa coisa destas, como pode isto acontecer?
Enquanto isso, sua parceira de diálogo, a Dona Rebeca, senhora de mais ou menos oitenta anos, pelos quais ostentava uns cinqüenta; a chamada velha louca e gostosa ouvia-o pacientemente.
Até que em certo momento de sua fala, do Paulão, sua balinha tic-tac escapou da língua e foi parar no colo da velhinha. Dentro do ônibus, os dois lado a lado e ela, a de cabelos dourados e brancos olhou fixamente para a balinha e disse numa pergunta maliciosa:
- Menino do céu, isto que lhe escapou é um dente? Como pode? E meio cega, ainda tenta definir o objeto minúsculo sob o colo, percebe que junto foram relapsos de saliva, então o Paulão sem vergonha alguma reaparece no discurso, pede licença educadamente e retira devagar o tic-tac do colo da senhora.
Ontem no terminal rodoviário também. Estávamos nós a conversarmos entretidos sobre o campeonato brasileiro, enquanto o Paulo se exalta em sua análise futebolística, se irrita com a derrota de seu time preferido e lá se foi sua balinha... Saiu como ping-pong em direção ao busão amarelo que ia destino a Curitiba. Ele saiu capengando em busca da perda, pediu licença a um senhor que estava próximo da porta de entrada, catou a balinha tic-tac e a pôs no lixo.
Hoje, educada e respeitosamente, a partir desta crônica vivenciada, nos cumprimentamos da mesma forma, mas, a quem acha por acaso que ele desistiu do tic-tac persuade-se perfeitamente, porque no exato instante senti uma bolinha branca passar ping-pongueando pelo corredor e o seu Paulo atrás da infeliz dizendo: volta! Porra...volta...puta que pariu! Volta...

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Mudanças para 2012 (Do título original: changes)


Departamento Internacional de Vendas de acessórios. Sala: Diretoria. Reunião com todos os funcionários. O atual vice-diretor começa sua palestra de frente para um data show importado:

- Opa! Então as estatísticas são estas. Pô. Vamu lá... hehe...

Em seguida os atuais sócios empreendedores do compartimento ambiental demonstram seu atual interesse pelo negócio:

- Através de uma base sincrônica de estudos relacionados ao mercado atual, percebe-se um desgaste na economia nacional. Com este fator, entretanto, acreditamos sinceramente que dentro de sete dias iremos bombar.

Após este palavreado: palmas sem cessar.

Então, como de praxe, a Presidenta toma a palavra com atenção e meditação. Respira sem graça, depois com graça, puxa um fôlego com vergonha e depois sem vergonha. Anuncia os itens:

- Bem. Vocês, funcionários nojentos, são muitíssimo importantes para nossa equipe. Tipo assim, para somar, né?! E com isto, pensamos muito nas questões ambientais, né?! Hihihhihi... aiaiaiai... a vida é bela, né?! A partir de hoje, os nossos motores serão recicláveis, o uso será de um mês e voltarão para nós.

Segue-se o tempo sob um silêncio perpétuo, e ela continua a delinear sua esquizofrenia:

- Nossa missão continua: fazer muitos acessórios. Porque o nosso maior bem é o ser-humano. Informo que mudaremos de local. Iremos para Vila Velha, bem no topo, pois estamos sempre acima de tudo, né?! Nas montanhas ninguém nos incomodará. Gente!!!! É o paraíso, eu com o Joaquinzinho fomos ontem lá. Terá Kombi para levá-los e trazê-los durante a semana, né?! Comidinha caseira e tudo tudo o que precisarem, ta?! Não se preocupem porque esta crise pela qual passamos, foi só uma marolinha, coisa pouca, né?!

Ainda um silêncio...

Temos uma visão empresarial que mudará, agora olharemos as montanhas e isto será nossa inspiração. Através desta explanação, trabalharemos o máximo, feito condenados a pena perpétua, ta?!

Os prestadores de serviço baixam suas cabeças...e ela, a presidenta continua...

- Peço que batam palmas e nos abracemos neste momento tão especial.

Enquanto seus assessores continuam à sua volta, cabisbaixos e rindo mentalmente de suas asneiras. Ela bolina seus funcionários e por volta de meio dia pede um brinde à mudança.

A empresa esconde-se a partir de hoje nos morros a margem de Ponta Grossa, parece simpaticamente com castelos vikings, bem no topo da serra, longe de tudo, de todos... num local de mais ou menos mil metros quadrados que existe também a mais ou menos cinco mil anos.

Os funcionários continuam cabisbaixos, porém, bêbados com o champanhe envelhecido.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Vênus

http://www.youtube.com/watch?v=YzjZHBiuNPg&feature=related

Apenas, Vênus, porque canto
Estes maus versos em teus ouvidos?
Hei de pensar em teus sonhos e fazer
Deles parte enquanto estiveres a dormir.
Não te aproximes a meiga e singela nobreza
Do teu encanto sobre os meus ombros, mas, embora
Eu padeça as tardes de amor, escuta-me com os
Teus ouvidos que foram feitos para
O mais tenro sentido da vida.
Ouve-me ou louve-me, embora sem ausência
Que se aproxima de qualquer encanto.
Como teus olhos, como a tempestade que chega.
Como as coisas que se te mostram à vida.
Minha vista que não sossega.
Hei de te encarar frente a frente
E num beijo crucial, esplêndido
Assim como flores no campo, como estrelas no céu...
Muitas satisfações.
Menções.
Orações.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Palavras


Chego à conclusão de que não devo proclamar de forma cruel o que sinto. Devo somente ser liquefeito, porque sou humano e fugaz. De nada resolve querermos resolver tudo de uma só vez, porque a vida não basta e, embora curta, devemos nos emancipar daquilo que nos faz bem e reciprocamente, fará ao próximo. Acredito que de tudo o que digo, abstraio uma porcentagem suficiente de valores. O ser - humano é dotado a pensar em si próprio, produzir coisas aos outros tendo como intermédio, si próprio. Amar ao outro tendo por base, si próprio. Por isso é eloqüente e promíscuo. Age com imaturidade e não obstante reflete o outro como se fosse um espelho à sua frente.
As teorias surgem no mundo e na vida simplesmente para fundamentar uma prática, todavia, acredito que implacavelmente durante séculos de estudos, o mais difícil foi pôr em prática a letra de Cristo: “Amarás ao teu próximo”. Isto é a coisa mais fácil e mais difícil de fazer. Porque o próximo é diferente. Estabelece um vínculo comparativo pelo qual todo o mundo se irrita. A disparidade das coisas do mundo serve para elucidar e refletir um conteúdo social. “Cogito, ergo sun”, basicamente sou eu o dono do meu nariz, mas, de vez em quando tenho enorme vontade de comandar o nariz d’outro. O ser – humano é dotado de razão e capacidade, por este motivo é incapaz.
Chego à conclusão de que a idade traz o silêncio e neste silêncio, de forma constante surge um tom em alto timbre de piano e violinos de J. Pachelbe, enquanto abastece-se uma taça de Malbec que suja friamente a toalha branca. E de todas estas palavras que exprimo ao meu filho, eu acredito completamente por intermédio dos meus compatriotas que, ainda que eu tenha escrito bonito, não chego a lugar algum com minha insignificante poesia.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

O Sapateiro


Eu sempre imaginei que fosse virar poeta. Não destes que se tornam famosos depois da morte, pelo contrário, dos que morrem e deixam palavras dispersas sobre os ares, cheias de interrogações. Acredito, enfim, que o meu célebre objetivo não rendeu; não me dei por poeta nem coisa parecida. Sou sapateiro. Faço poesias com pregos e presilhas. Cola-quente, quem dirá. Aqui, ali e acolá. Prendo-me por uma eternidade quando deparo-me com um sapato fino, isso causa-me profunda nostalgia, essa imensa falta de alegria vem, eu acho, da vontade de um dia ter sido poeta sem nunca ser. Para ser sincero, eu as vezes até tento, inicio a droga do poema com palavras belas, rítmicas mas, cheio no meio do mar e a maré sobe, a tempestade chega e as palavras somem. “Foge-me a inspiração, sinto a alma deserta”. Uma vez fiz cursinho de haicai, produzi coisas que de haikai não tinha nada, tudo fora. Sem palavras necessárias, sem escansão, uma verdade desgraça. Depois me rumei para o romance, queria algo mais moderno, mais encorpado e complexo. Iniciei uma trama sobre uma menina que perdera os pais aos quinze anos de idade, porém, quando estava eu nas proximidades de dez páginas, esqueci-me do conteúdo e da base fundamental da obra. Parei. Consertar sapatos é o meu ofício, com muito orgulho me gabo. Se a vida não me quis poeta, ao menos aos caprichos de sapatos eu sirvo. Em tratando de minhas peripécias, sempre tive uma vontade absurda e absorta em não ficar parado. Sempre produzir um desenho, uma arte, seja ela qual for e a que mo conduziu à esta engrenagem foi o ofício de sapateiro. Conheci nos meus vinte e tantos uma moça chamada Surpresa, pela qual ainda hoje sou apaixonado. Com ela transo meus pensamentos, minhas sentinelas e meus tons apropriados. Andava encorajado na época e, ainda hoje, mesmo com uma falta imensa de rimas na vida, a encontro de vez em quando no bar, no café, na encruzilhada, nas bandas do sul. Meu trabalho despertou-me paixão imensa pelo que sei e, tudo o que eu sei, que posso lhe dizer, querido sapato, é que não aprendi a fazer poesia. Pra isso, infeliz, não tinha aula, embora o tentassem e tentem, pra isso meu amigo, é só matando o ser e o transformando numa obra de arte, que servirá ao mundo como a chuva serve à natureza. Dei-me por diversidade e hoje, com essa idade que a mim se conduz, sinto medo e compaixão, por isso sou leve como as folhas secas que se acomodam sobre o mar.

Chove...


Chove.
Delicadamente gotas de orvalho caem sobre o chão seco.
Pálido, o sol, tímido, some.
Chove.
Decididamente sombras enaltecem uma poeira de luz.
Tenso, o mar, louco, apura.
Chove.
Docemente uma agonia se aproxima como um furacão.
Perspicaz, quase morto, solto, o luar.
Chove.
Sinceramente sem perspectivas um estrondo: trovão!
Simpatia, lúcida, a trovoada, barulho.
Chove.
Pra falar a verdade, somente por orgulho.
Chove porque a ausência deu seu lugar pro tédio.
Simplesmente chove.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Aos teus olhos eternos


Conjugo-te versos
E destes versos convalesço-me.
Dos teus medos não esqueço
Nem dos medos meus
Que os dissipo.
Quase grito, surto.
Nem afere de um ourives
Cedo e solidão.
Amanheço-te séculos,
Beijo-te sobre o espelho
Abraço-te num laço vermelho
E ali ficamos segundos
Que são no fundo, eternos.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

versos brancos para Ingrid Junckes

Toda enfeite milagres em mim
Migalhas de amor poesias sem fim.
Meu amor, quanto tempo passara-se
Desde que o amor em mim rebentou o peito.
Inda te vejo delicadamente em meu espaço
Como aço, como solda, como solda, como emenda de meu enlace.
Inda vejo-me em teu espaço, teu céu, teu corpo inteiro sem fim.
Vejo eu a mim e a ti, veja-me sem o som do céu. Ouça, sou eu que te canta
Mais um poema como engate, case, enamore, ouça-me:
- Casemos os teus versos inteiros com os meus tristes versos e publiquemos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Fim de Mundo


http://www.camarabrasileira.com/contosdofimdomundo.htm

“O mundo não termina. As pessoas o detonam”.

21 de março de 1843, o mundo está sóbrio, nostálgico e sem nada para se fazer. Conheço Alissa, uma menina dengosa que acaba por gostar das minhas asneiras. A conheço e saímos juntos numa tarde de sol. A cidade do Rio anda movimentada mas, desculpe-me a expressão, estes trajes de banho não me tocam em nada, espero que em 2000 as coisas mudem e até lá, estarei vivo para ver. 21 de março de 1844 passa-se de relento com uma fina chuva em Copacabana. Não estou mais com a Alissa, sei lá aonde ela meteu-se. Estou sozinho e só continuarei até encontrar o grande amor de minha vida, antes disso o mundo não se acabará.
6 de setembro de 1994. O mundo ainda não se acabou, mas, prematuramente acabo de lembrar que amanhã completarei mais um belo ano de vida. Ando ficando velho, minhas rugas não cessam e, por incrível que pareça, ainda estou disposto a caminhar no Botafogo.
7 de julho de 2000. O mundo ainda não se acabou, pelo menos para mim, continua redondo em sua circunferência rachada indisposta e cheia de enganos, porém, continua. Vivo num mundo relaxado, meus amigos esqueceram-se de mim faz muito tempo, vivo totalmente isolado de tudo e de todos e, mesmo assim, mesmo com tantas promiscuidades, meu mundo continua intacto e sem transformações reais. Comparo-me a um grito, esvai-se ao rochedo e volta com um eco triste e reflexivo. Chamo-me Narciso, produzi o eco.
21 de março de 2002. Tarde ensolarada. Os trajes de banho melhoraram. Nada que eu o diga de forma clara porque ainda tem muita coisa feira por aí. Nada de concisão. Melhoro meu aspecto físico no espelho e me mando às Laranjeiras. Encontro-me com Alissa, meu silêncio se transforma em tremor de pernas e braços, o sangue que corre diante de mim se faz intacto e sem louvor, a cumprimento. Ela diz-me o quanto eu cresci e tornei-me agressivo, mas, como sabe tanto de mim? Se nem eu conheço-me a tamanha altivez? Desgrudo-me de meu I-pod e locomovo-me para o Arpoador a pé, com muita coragem me bando para aquele lado, onde tem mulheres e moças diferentes.
Entro em uma avenida desconhecida. Vejo-me de frente com um mendigo e ele interroga-me, pergunta o que faço ali, em seu espaço? Eu não tenho respostas no momento e no instante em que estou para abrir a boca, sou assaltado, levam-me tudo o que tenho e, em seguida, como num momento de êxtase eterno sou o assaltante, roubo uma senhora, levo sua bolsa, seus sapatos, sua saia, deixo-a de mãos abanando e já não me conheço mais. Minha miséria levou-me tudo o que eu creditava. Não tenho mais conta nem nome, Narciso esqueceu-se. Não sou dono de mim.
Mas, se tudo isso que aqui escrevo, diante dos fatos esclarecidos neste diário, acredito que eu mereça um tratamento do governo. Eu dependo dele porque não me viro só. Hoje é dia 22 de agosto de 2005, nada demais aconteceu. Eu ainda ando confuso por aí. Agora estou no Cosme Velho. Não tenho dinheiro para subir o morro, vou a pé. Ninguém me curva, eu não tenho culpa.
- Moço, aonde você vai? – esta voz vem lúcida e firme contra mim.
- Eu não sei – respondo também firme.
Continuo a caminhada. Chego ao Jardim Botânico. Concordo com os termos de acesso e me adentro. Ali têm muitas crianças a correr pelo mato, uma casa velha e algumas plantas. Aquele lugar é parte de mim porque sou eu a natureza que sobrevive ao nicho de meu habitat. Configuro-me diante de uma imagem de santa, não sou eu quem o diz, entretanto, das minhas mensagens extraídas e esbaforidas do meu lábio, argumento que o meu dia se acabou e, contudo, ainda o mundo está sólido, líquido, liquefeito, imóvel e complacente. Não admiro mais a poesia do elixir das nuvens nem do mar.
8 de setembro de 2011. Agora sim, estou a gostar de ver os trajes de banho. Cada vez mais curtos. Música alta e diamantes na calçada. Isto aqui tornou-se um paraíso. Arrependo-me não ter nascido antes. O mundo gira a 950 km por hora, é coisa de doido, agarro-me na terra, é velocidade sem fim, incontrolável e, ainda assim, as pessoas se obrigam a pagar o teatro municipal. Sei lá o que digo. Onde estou? Eu não sei com quem estou a falar, mas, este negócio está cada vez pior.
09 de julho de 2012. Acordo-me com uma mensagem louca no celular e um e-mail de spam. Estou sentado diante do meu computador a pensar em meus negócios, tudo volta ao normal, hoje é um dia normal também. Mando um e-mail de resposta ao Sérgio da imobiliária Mil. Sei lá o que ele pensará de mim. Abro as cortinas e deparo-me com um imenso mar da Barra, isto aqui é o paraíso. O mundo não se acaba.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Besteiras de batedeira


Perdoe-me pelas terceiras intenções
Perdoe-me meus olhos não são leis
Perdoe-me e me veja como um barco de papel
Que vai sumindo...indo sobre o mar até o céu.

Diga-me palavras que eu nunca pensei ouvir
Traga-me teus tenros sonhos até meu coração
Abrace-me tão forte que as nuvens se dissipem
E comece um vento solto em ablação

Chegue-me diante dos lábios e comente
Que o teu dia foi melhor do que pensava
Que o meu dia se ganhou como uma esperança,
Argumente que os teus pés estão sós
E necessitam de boa lembrança...

Perdoe-me pelas intenções que são levadas
Como folhas sobre o ar em um compêndio
Abrace-me como se eu fosse uma alvorada
Uma estrada...Uma noite de encanto lavada
Por milagres que não voltam nem que o dia acabe.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

histeria


Pálida sobre os meus ombros
Tangia o meu dia aquela moça
Mas eu, de ébrio desconhecia o nome que porventura
Chamou-me de louco. Solto a aplaudi entre o tumulto
Dentre os carros e festas que passavam e me atiravam
De cima como um arco de um prédio.
Depois de pouco menos de um dia
Trouxe-me uma cesta com frutas e sonhos
Junto duma nuvem de esperança para minha vida.
Foram-se ou esvaíram-se os vendavais
Conquanto uma tempestade que era miúda como a lua
Trouxeram n’outro tempo a esperança súbita e tremenda
De um novo porvir, uma luz que se atirou sobre os meus pés
Do tédio que me adornava.
Fui-me reinventando e chamando-me por mim
De um nome desclassificado dentre os nomes
Que continham na lista da pálida mulher
Que agora era e me admirava.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O meu filho


Chego manso num ambiente escuro. É uma história já contada. Encontro, sob a janela de madeira um vaso de flores puras, frescas e tímidas a morrerem de inverno. De longe, lá de fora vem Priscila a correr em minha direção. Abraçamo-nos e iniciamos juntos uma vida, nos casamos, enfim, enamoramos e temos um filho chamado Miguel. Arraigado, o filho parece o pai, mas, nunca sei ao certo se realmente o é, somente se parece. O filho de meu sangue cresce. Torna-se homem e lúcido. Eu torno-me bêbado de rua. Priscila encontra outro homem com quem terá três filhos homens. Seu ovário não resplandeceu o bastante para se ter uma mulher.
Aprendo a falar inglês e logo irei pros States solito. Lá terei muitos prazeres. Meu filho já é homem velho. Desenraizou-se, tornou-se melódico demais e casou-se com Jurema, com quem teve três filhos idos. São meus netos tidos. Alimento em mim uma paixão que vem do diafragma e me condena para o resto de minha existência. Vá-te homem, cala-te com tuas palavras soltas. Digo a mim mesmo estas palavras enclausuradas e me condeno. Mas não morro, eu sobrevivo no país de diamantes soltos, fora de eixo, fora das calças.
Calço meu sapato preto com uma fivela na frente e ando em direção ao centro. Encontro dois amigos e por ali ficamos. Depois disso tenho nuances na memória, encontro-me com Miguel, meu filho, chama-me de pai e lacrimeja seus olhos finos. Em seguida a polícia o leva, não sei por que razão, mas, admite, enfim, que mentiu a vida toda e sabia que não era meu filho. Eu tento exprimir qualquer coisa da boca, o ar se prende refratário em minha garganta e a única palavra que sai é “filho”.
Nunca mais soube da Priscila. Não fui atrás de ninguém. Perdi-me no caminho indigno que leva ao temor e angústia. Sou um dito cidadão desrespeitado sem ganhar um bendito tostão ao mês. Não fiz minha viagem, contudo, sou bilíngüe. Não vivo à custa das pessoas. Eu vivo a espera de uma pessoa, uma paixão reprimida que ainda há em meu peito. Não tenho fama nem sinto que as pessoas me conheçam.
Miguel fica preso 10 anos. Depois disso, sua absolvição ocorre às duas horas da tarde do dia 21 de abril de 2010. Torna-se um homem honesto no papel, assina meu sobre nome e não sabe o que diz, no fundo, realmente não sabe o que diz. Não é meu filho.
Apanho meu filho numa tarde ensolarada dando moda na Praça do Museu. Parece um desvairado e quando me percebe, finge não reconhecer a minha presença. Incomoda-me o seu jeito e, basicamente é tudo o que penso no momento. Minha cabeça vira um labirinto indiscutível de menções. Não acho nada interessante o que penso. Eu penso em tanta coisa.
Um colega de classe sempre me dizia que o mal vem atordoado de uma roupa rasgada, mente que é bom e o ser - humano, por causa da razão que não se conduz, cai na armadilha como rato. Por isso descreio do que me rodeia, descreio de minhas palavras também.
Agora, enfim, Miguel reaparece para mim, diz que vai se mudar. Mudou-se como homem, não faz mais parte de uma sociedade fajuta. Faz parte de uma toscana corja de assassinos que ficam de tocaia em frente ao Passeio público germinando e gerenciando prostituas dos mais variados tipos.
Eu soube por bocas de outros por aí que meu filho vive no norte do país, nunca mais me telefonou, não deu notícias. Sua mãe, a Priscila também desapareceu decididamente. Estou disposto a não querer saber mais nada deles, isso tudo só me chateou.
Meu filho telefona-me e encaro o aparelho com sofreguidão, convido-o para vir em minha casa e ouço do outro lado da linha a voz de uma mulher, uma voz rouca, meio múltipla de vogais soltas, diz de forma alterada “amor! O jantar está servido” e Miguel me informa que convive com outro mundo e que no lugar onde está todos desconhecem o seu passado, por isso tem a oportunidade diária de recomeçar a sua vida sem tragédias.
- Boa noite, meu filho. Eu espero, sinceramente, que amanhã pela manhã você acorde bem.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Se, sentido!


Quando sinto os teus versos
Lembro que a minha vida corre em boatos
Vozes soltas vozes nuas como as vozes loucas
Um paraíso em meu deserto ou um bocado de estrelas.
Se foi o dia em que eu aprendia em que deduzia em que seria ia.

Cimento. Ciúme. Celoma. Sinfonia.

Quando me apresento em passos
Compreendo entrenós tempos mal pasmados
Tempos tidos idos mutilados levantados quebrantos
E só resta ao mar a esperança do navio que o habita e um dilema
Quem será o redentor das estradas que me levam ao sol, se sou só um ar?

Alguém. Algo. Algas. Agora. ágora.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Que barulho é este na escada?


One day, when you would look back, you will see that the most beautiful days were those when you fought. Sigmund Freud

O tempo. O que há de ser o tempo senão um estágio pelo qual o corpo transgride? Já dizia estas palavras o sábio Galeão. O que há de ser a vida? Uma estrada perdida ou um labirinto? Não sei, só sei que o dia que ancorei meus pensamentos na filosofia atemporal acreditei, enfim, que necessitaria de um mastro, alguma coisa que me puxasse novamente à vida real. Comecei com pequenas leituras de livros de cabeceira. Depois aprendi física, fisiologia e métrica. Aprendi música, em seguida, com um menino conhecido. Ultrajado me dei por toda a vida e hoje, por incrível que pareça, ainda sou novo demais para esclarecer meus fatos mundanos. Deduzi que aprendi pouco e, deste pouco, compreendi pouco mais do que imaginava. Agora creio que sozinho sobre os meus pés, agüentarei meu corpo que se transvia acerca dos tempos. Chego, por fim, ao fim da estrada em labutas, confio na minha guerra interna, mas quero, devo e tenho desejo de sempre vencer. Meu instinto não me engana. Meu desejo é inefável e incompleto porque do homem vim. Sou filho ainda, um embrião perdido nas névoas de um parque. Cedo, quando me vejo no espelho eu me dou de frente com um sujeito incompleto porque me perdi de mim. O espelho mente, mente, me engana, porém, não me engano fácil. Acredito que as coisas são respostas do nosso estado de fissão. Se tenho libido não será defeito porque sou uma metade fora do eixo. Sou raiz própria, indulgente e ficção. Feito de trabalho, modo de ver. Coisa que se toque ou somente, entre minhas entrelinhas meramente ilusão.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Por um Brasil colorido!


Acho uma tremenda frescura essa coisa de marcha gay. É lógico que, principalmente eles são, de fato, frescos, mas, jovens e desesperados perdem o rumo e sentido de que almejam. Outra coisa, o Supremo Tribunal Federal é sinônimo de política, isto está em voga no momento atual, por esta razão é que se encontraram mais de quatro milhões de pessoas num núcleo de preleção, como rebeldes a lutar sob um equívoco mesclo e fajuto. O homossexualismo existe desde o princípio dos tempos, é o desejo incumbido através de uma inversão de papeis. Freud deduziu que a vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados. A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização. Sua essência reside no fato de os membros da comunidade se restringirem em suas possibilidades de satisfação, ao passo que o indivíduo desconhece tais restrições. Um homem só não é nada, mas, ao operar com tal força um objeto de luta, móvel e poderoso, tem em mãos uma ferramenta disciplinar ou não, que pode ser sua ameaça sobre valores e princípios. Para se ter ideia, a senadora de SP, Marta Suplicy e o deputado federal Jean Wyllys estavam presentes no tumulto. Isso deixa claro que a jogada é cruel; é marketing salgado e grosso. É coisa pesada, isso reflete uma ameaça à sociedade porque quem está no comando, mais uma vez, é o sistema. Este sistema está tão comum na era contemporânea quanto tratar de relatividade em teorias básicas de relacionamentos. É necessário se ter poder, contudo, este deve ser íntegro e não casual, poder como defesa de lei, rigidez e não ameaça. O jovem de hoje se veste de “piriguete” de arco-íris e pensa estar lutando contra o Estado, sendo que o próprio Estado é seu comparsa nesta presepada. Este jovem vive o agora sem objetivos e prefere o leite derramado ao método de trabalho e lucro. A herança deixada pelos pais é abandonada por uma força sem critérios.
Retirei um recorte do site Agência de notícias de Florianópolis, para se ter pequena ideia: "É um dia gostoso para se divertir com a mistura de raças e sexo", afirmou a auxiliar administrativa Ana Carolina Oliveira, 34, ao lado do filho de três anos e da filha de 15. Esse é o quinto ano que ela participa do evento. Já pensou levar os filhos para assistir a uma passeata gay? Talvez haja colocações de que eu seja preconceituoso, afinal, estou conotando tudo de forma um tanto quanto indigesta. Mas não é preconceito, não sou contra gays, mas, àqueles que mutilam o próprio corpo, se detonam como homens-bomba, estes não levam meu voto porque são no mais, abestalhados querendo se aparecer. Está na hora de tomar um pouco de consciência e vergonha na cara e trabalhar porque o Brasil já deu o que tinha de dar. Esgotou a teta. A democracia virou anarquia sem critérios. Para ser sincero, uma zona ao som de Lady Gaga, é chegada a hora de crescer e a infância tornar-se-á somente uma lembrança do passado.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

ausência


A minha poesia não explica nada.
Ela não veio para explanar nada.
Sem fonte nenhuma. Sem crucificação.
Uma fixação. Ficção: embora acredite: ficção.
Minha poesia não argumenta nada.
Não serve de nada.
Poesia simples sem rima.
A rima se perdeu como o tempo que passa.
Poesia metódica que não segue passos.
A minha poesia. Meramente falta de alegria.
Sem intuito sem paixão sem força.
A minha poesia não se arquiva.
É encontrada no nada.
No misterioso hall de entrada sem explicação.
Basta. Minha poesia. Apenas minha.
Não se explica o tédio nem o medo.
Nem a alforria nem a angústia.
Não se explica a ausência ainda que perturbe.
Nada explica esta puta danada poesia.
Uma verdadeira cagada.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Entre quatro paredes


Sou deputado no meu país. Trabalho dia e noite. Antes de ontem passei por minha terra, lá não canta mais sabiá nem bem-te-vi. A minha amada se escafedeu, não sei por hora o que houve, mas, que houve alguma coisa isso é fato. Passei ontem à noite por três cidades diferentes, embora eu pensasse que estivesse cansado, era somente o início de uma caminhada. Descobri campos, espaços vazios que se fazem cheios de doçura. As cidades são cheias de prédios que sobem desvairados como montanhas aos céus. Realizei, de fato, um tédio: cresci. Empolguei-me com isto e minha barba cresceu. Meus espinhos, meus santos e minhas lástimas. Acredito agora que, dentro de um cubículo cheio de germes eu encontre comida. Meu corpo é sempre parte de outro corpo. Como disse Aristófanes, eu creio superficialmente que estamos em busca de nossa outra parte. As nuvens derramam milagre na vida. As montanhas aumentam e o meu tempo, por incrível que pareça, o meu tempo se esvai. Não trabalho porque sou deputado no meu país. Eu sou meu maior advogado do meu destino. Ninguém comanda o que eu penso, nem mesmo eu. Sinto falta dos pesadelos e dos sonhos. Tenho a preeminência de estar ficando louco. Hoje passo pela Avenida das Torres num sol de lascar. As pessoas todas me observam ariscas como se eu fosse um andarilho qualquer. Não sabem um pingo sobre mim e pressupõem coisas toscas em suas cabeças. Dá-me pena. Eu sou um caro esperto, estudei, me formei, trabalhei, comi de tudo, viajei e hoje o que me resta é viajar. Sou refratário, não retardatário. Entro na Havan, com delicadeza chega-me um segurança:
- Senhor, queira se retirar?
Com minuciosa esperança respondo:
- Não, eu vou ficar aqui. Eu vou comprar – respondo inquieto.
O homem chama outro segurança, que chama outro e que chama outro. Então formam uma trilha de sete cabeças com sete espadas e sete ódios. Levam-me até a sala ao lado e chamam uma viatura. Outorgam-me como indigente por não ter identidade. O que interessa meu nome, se minha pessoa não faz a diferença?
Espero que isto lhe toque o coração, Senhor Juiz, porque estou aqui há muito tempo e não preciso de quatro paredes para caminhar em meu mundo. Não sei quando chove nem quando faz sol. As quatro paredes que me prendem impedem-me de ver. Eu enxergo ainda, mas é como se não enxergasse. Não sei se ainda consigo emitir algum som da garganta, mas ainda há esperança.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O Professor, por Jô Soares


É jovem, não tem experiência.
É velho, está superado.
Não tem automóvel, é um pobre coitado.
Tem automóvel, chora de "barriga cheia".
Fala em voz alta, vive gritando.
Fala em tom normal, ninguém escuta.
Não falta ao colégio, é um "Adesivo".
Precisa faltar, é um "turista".
Conversa com os outros professores, está "malhando" nos alunos.
Não conversa, é um desligado.
Dá muita matéria, não tem dó do aluno.
Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Não brinca com a turma, é um chato.
Chama a atenção, é um grosso.
Não chama a atenção, não se sabe impor.
A prova é longa, não dá tempo.
A prova é curta, tira as hipóteses do aluno.
Escreve muito, não explica.
Explica muito, o caderno não tem nada.
Fala correctamente, ninguém entende.
Fala a "língua" do aluno, não tem vocabulário.
Exige, é rude.
Elogia, é debochado.
O aluno é retido, é perseguição.
O aluno é aprovado, deitou "água-benta".
É! O professor está sempre errado, mas, se conseguiu ler até aqui, agradeça a ele.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Casos de família


Adelaide, a menina mais fofoqueira da cidade um dia se ferrou, engravidou do Joaquim, o homem mais travesso do bairro da lagoa. Deu no que falar, porque os pais da Laidinha, como era chamada, foram tirar satisfação com o Joca. Ao chegarem a sua casa, este logo foi perguntando o que estava acontecendo. Virou um carnaval dos infernos.
A mãe da Adelaide foi logo inferindo ao rapaz:
- Seu moleque do diabo, o que fez com minha filha?
- Ora! Eu é que pergunto o que ela fez comigo, uai! – responde Joaquim avulso.
Neste instante o pai de Adelaide, seu João, levanta a mão para enfiar na cara do rapaz e este, num ímpeto se abaixa, o braço do João passa em 360º fazendo o coruja virar mutuamente de um lado para o outro e estontear. Então o pai da menina pergunta:
- Está pensando o que seu sem vergonha... Você engravidou minha filha!
Neste instante escapa o vira-lata do Joaquim e acerta a bunda da mãe da Adelaide, o Joca tenta amansar a fera, mas quanto mais cutuca o animal mais ele aperta a dentadura sobre a poupança da velhota. Enfim, o cão larga seu filé e volta à casinha. Joaquim, ainda vermelho do calor que fazia acende um cigarro, olha timidamente para o céu e diz:
- Que é? O que vocês querem? Pô!
Então chega, para ajudar na intriga a Adelaide, fofocando e usurpando a boca sem gonorreia, sem timidez diz que queria mesmo engravidar do Joca e ninguém a impediria.
Os dois jovens então se casam. Vão morar junto dos pais. O filho nasce com o nome de Giulhinho. O Joaquim tornou-se empregado do seu João, o sogro. Adelaide, a menina fofoqueira tornou-se dona de casa sem casa, morando de favor com a mãe mas, comandando o resto da família. No final todos viveram felizes para sempre. O vira-lata do Joca continuou tomando conta da casa, emprenhou a cachorra da vizinha e teve sua casa própria, ao contrário do casal que se casou nas marras do tédio.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Romantismo conectado a mais de mil kbytes

Não consigo entender o que ela diz...
Não consigo não consigo não consigo
Não consigo não consigo não consigo
Não consigo não consigo não consigo
Não consigo não consigo não consigo
E isto me atinge como um trem de partida
Um trem gigante que desce Paranaguá!
Além meu bem existe um mundo
Que se imagina a todo instante, mas
Eu não consigo eu não persisto eu não atinjo
Eu não eu não eu não.
Soada punk do meu mundo instante
Meu mundo agora que se fez e meu Deus:
Sou eu me sou eu me tenho eu me tranco
Num quarto imaginário que invento
Para discernir meu bem meu mal um mau um bom
Um melhor traquejo e eu não entendo mesmo assim
A lida, esta estranha vida encalhada no meu sexo
No meu tédio. Se feixe dentro da sala de estar
E não diga que me ama: Se a tua mentira me comove,
Então a invente e a faça a luz de verdade.
Minha eterna idade não passa
E eu não entendo, mesmo assim, o que ela diz:
Não consigo não consigo não consigo
Não consigo não consigo não consigo
Não consigo não consigo não consigo
E isto me vem como um trem
Um site quebrando janelas tantas
Um mal do século um avanço luminoso
Em hertz em kbytes.
O meu poder não suporta tanta dor
E minha masculinidade transgride uma média
De manhã, revista, palpitada com um sorriso
De uma mulher que eu não compreendo nenhum olhar seu,
Eu não consigo eu não consigo mesmo,
Entender o que ela diz.
Mesmo no tédio eu vivo
Um reflexo no novo exame
De sentido e minha letra
E o teu dedo e teu ombro e teu olhar
E isso se vai indo e sei lá o que me dá...
Acabou-se o ar:
Saiba-me, a partir de agora, ler
Porque do pó vim e a poesia serei.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Hora marcada


Alfredo chamou-me pelo nome pela primeira vez na vida. Eu fiquei toda sem jeito, sem saber o que fazer e no outro dia já contava este fato à Gabi, minha melhor amiga. O Alfredo sempre fora um homem tímido, mas a parte que eu mais gostava era das carícias que me fazia. Ele vinha sem graça, meio cabuloso e, com certa cautela, colocava a mão pra valer. Casamos no dia seguinte, logo após sua garganta arranhar meu nome. Estava eu de véu e grinalda, toda a família reunida, meus pais, avós, sobrinhos, tataravôs, pois me casei muito nova. As flautas se aqueciam de dentro da igreja quando o padre iniciou seu sermão. Em seguida, após a comemoração fomos bater algumas fotos no parque da Lagoa, coisa simples, porém, com muito sentido. Deitemos-nos no gramado e lá passamos uma eternidade que deve ter durado mais ou menos duas horas. Ele de terno ficou lindo, era noite de frio e sua voz, por mais rouca que parecesse, me esquentava e me aquecia, eu me arrepiava a cada novo segundo e aos poucos ele ia encaixando seus braços grossos em minhas costas e assim seguimos. A festa rolava e quando chegamos ao salão ouvimos palmas de todos os lados. Sorri com certo disfarce, meu vestido tinha alguma sujeita que tentei também esconder e, logo após, já me encontrava embriagada de vinho tinto seco. Casamos e em uma semana nos separamos. Alfredo achou outra menina, muito mais nova, muito mais delicada e breve. Eu segui minhas rotinas fatigadas e, conquanto, encontrei você, meu terapeuta particular que me acomete olhares sem surpresa, me ouve quando eu penso e me enxerga quando eu sinto notabilizar qualquer coisa do mundo real. Eu vivo com você há muito tempo e até hoje me surpreendo por nada ter acontecido entre nós. O teu diagnóstico é sempre o mesmo, estou cansada destes remédios, estou dopada. Cacete! Aonde vou chegar com isso? Responda-me! Este silêncio me atormenta. Não adianta mudar. Ontem me dei de frente com o calendário do ano passado, pensei que fosse novo e errei o dia do seu aniversário. Perdoe-me, mas, eu já não sei o que faço.
- Alô! Estou no trânsito da Rui Barbosa. Desculpe-me, mais uma vez, por este atraso. O calendário, de volta estava errado. Eu não sei o que anda acontecendo comigo. Em poucos minutos estarei no seu consultório, ta? Até logo.. ta?! (...) até breve...

(...)

- 19h45minh min [...] 21h43min...[...] 23h50min [...]

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Ouvindo um pensamento

Grandioso amor minha face compreende
E uma pequena angústia me trinca os olhos,
Ardem dolorosamente sem senti-los ao piscar.
Meu corpo se faz de um tremor sem explicação
e sofro por ti, por isso, sofro por ti.
Amanheço em uma cama úmida e singela
Condigo-me, amarelo de padecimento,
Numa volúpia tangente que me desorienta
A cada encruzilhada.
Nestas noites que passo sobre
As vibrações dolorosas e penosas do fastio
Morro de tédio e paixão
Que pareço um animal feroz, mas que no fundo
É um manso bicho sem paz.
Então as flores com seus perfumes
Abrem-se num novo porvir
Sinto-as coloridas nas mãos:
- Eu enlouqueço.
Por instantes o teu olhar me incendeia,
O amor dos teus lábios me toma o corpo
E teus seios que palpitam sobre uma fenda no divã
Deixam-me à luz da lua a ver navios,
Coloco-me entre teus cabelos; mulher amada,
Rubros ou instantâneos, não sei ao certo
Mas são Obra de uma beleza infindável.

Poeira


A poesia me aniquilou
Tornou-me repulsivo
Não esqueço
Não me lembro
Se a coragem de poeta
Aconteceu ou se raiou.

Nas basta, poeta, apenas escrever:
- porque agora vives num mundo doido!
A doideira não passa de um intervalo
Entre uma geração e outra.

Acontece, criado mudo, sob os meus sonhos
Um turbilhão de estrelas
Que talvez já tenham sido apagadas,
Mas, mas... mas elas ainda iluminam
Por causa da longitude que demora a me chegar...

A poesia me repetiu de vez
Palavras surdas quase tortas
Mas palavras certas exatas...

Agora sou eu, poeta, imaginando-me
Parte desta poesia
Que se fez no inverno de dia alegria
Sou-me dentro dela quanto o fundo
Da vida é em meio ao ar.