
Leio um anúncio no Jornal do Povo que me instiga. Dizia mais ou menos assim: “Venha conhecer os milagres do Reino Mundi, liberte-se”. E eu, nas alturas em que me encontro vou até o local. Uma igreja enorme, com estruturas funestas, arquitetura incomparável com vitrais reluzentes e cores diferentes. Ao chegar à porta um homem de preto, talvez segurança do local me questiona: “Identificação!”, eu deslocado me viro nos trinta, não compreendo e faço a ele um olhar de interrogação. Então volta com um chamado mais objetivo: “dez reais, moço”. Entendido. Pago e adentro-me no palácio.
Se fora era bonito, cá para nós, dentro o negócio é três vezes melhor, salas de jogos, piscinas, confraternizações e, ao centro, o local da pregação. Um homem, aparenta trinta anos fala quase rouco, grita, chora, esperneia, se contorce e chama deveras algumas pessoas ao palco para dar suas vivências à mostra.
- Agora quero chamar aquele senhor, isso, sim, este senhor, vem cá!
Um homem de mais ou menos sessenta anos sobe, vagarosamente, então se iniciam sessões de perguntas e respostas, uma famosa entrevista entre o legendário e o barroco. O pastor começa:
- Então o senhor dará sua dita!
- Sim, sim. Eu fui ao banco esta noite, quando não havia ninguém e lambuzei a porta com o óleo trunco, depois, depois, depois... no outro dia fui lá, pra ver minha dívida de trinta mil euros, então o gerente olhou-me e disse: Não, senhor. Não há dívida!
Toda plateia boquiaberta a babar sobre seus livros. Então o pastor repele:
- Palmas... Viram só? O óleo trunco o fez! O óleo trunco faz milagres. Este senhor devia ao banco e, passou o óleo nas portas e noutro dia foi até lá e nada mais devia. Palmas.
Eu, ainda com certo espanto em desacreditar do ocorrido, coço-me, olho para trás e há muita gente ali.
Ao final, o pastor segue com um olhar titubeante a todos dali e para justamente em mim, logo a mim! Chama-me, eu pergunto se sou eu e ele diz “sim, é você, venha”. Coloca as mãos em minha cabeça. Fala um árabe contínuo e pergunta-me: “o que quer?”. Respondo de pronto: “um carro zero”. E ele interpele: “pois terá ainda hoje”. E manda-me de volta ao meu lugar.
Então se acaba o evento e, depois da chamada, vou até a loja de conveniência da igreja, compro uma garrafinha do famoso óleo trunco. Saio do lugar ainda perplexo com tantas falações e diálogos. Chega a mim uma mulher linda e diz: “moço, este carro é seu”. Colo neste momento minha garrafinha no bolso. Ainda descreio daquilo, mas, ela entrega-me as chaves. Depois de um alvoroço danado, depois de minha gritaria e alegria, pego as chaves e saio de carro zero. Na primeira esquina da Desembargador Motta com a Carlos de Carvalho sou assaltado, levam-me o carro. Baixo minha cabeça. Chego a casa ainda triste, porém, suscitado com o milagre. Resolvo comer peixe. Pego então meu óleo trunco do bolso, ponho-o sobre a frigideira e faço peixe frito. E não é que este senhor óleo trunco é bom mesmo? Ficou divino.
A vida é uma piada!!!! kkkk... Assim como tantas manifestações religiosas... kkkk... Deu até vontade de provar o dito peixe ao óleo trunco!
ResponderExcluirBeijo e beijo, Guri!!!!