
http://www.camarabrasileira.com/tt11-008.htm
Rua São Jorge, apartamento 108, praça Tiradentes. Inicia-se uma conversa do outro lado do apartamento que aos poucos vai aumentando sua tonalidade. Larissa inquieta no seu canto ouve sem querer ouvir estas vozes que dilaceram seu coração. Sai em prantos, abre a porta com uma pancada de solavanco e se manda rua abaixo. O chafariz entupido apenas acomoda-se indiscretamente revelando apenas mais um descompromisso da política com o cidadão. Seus cabelos ao vento e ela, graciosa com um sorriso embutido em lágrimas tortas. Continua seu trajeto sem olhar para trás. Chega enfim na Lancheria Alameda, pede uma sopa e uma taça de vinho, um pouco incômoda ainda por estar só e, do outro lado de sua mesa há um casal que se beija reciprocamente, saem do local depois de duas horas e se vão quem sabe a um motel próximo.
Larissa já na quinta taça projeta-se sob uma sombra oblíqua que não a leva a lugar nenhum, e sim, muito pelo contrário, a detona em cada esquina. Não quer voltar para casa tão cedo, o barulho infernal naquele lugar é antigo, o lugar passivo e as pessoas terroristas. Gritos, bafos, socos, empurrões, um caos que a inaugura em todo segundo. De preto, olhos pintados, cachecol bordô e uma blusa jeans que remete aos tempos de dantes. Caminha com um susto longínquo, como se estivesse num passado simples e que neste tempo não soubesse o que fazer. Apenas continua.
Ao passar pela XV de novembro três garotos a impedem o trajeto.
- Que foi tia? Passa a grana! Tira a roupa, vadia!
Então a menina, num desespero entrançado, repele com um silêncio solto:
- Não tenho dinheiro, moleque! – e retira a blusa jeans, depois a saia preta com os sapatos, retira o cachecol e corre enlouquecidamente pela rua com destino incerto. Grita e os malandros a perseguem até certa altura, porque ela entra numa farmácia que mesmo tarde da noite continua aberta.
Depois do fôlego recapitulado volta à rua. Caminha lentamente como se alguém estivesse à sua espreita. Chega novamente em casa, na Rua São Jorge, apartamento 108...por enquanto um leve som de música clássica, e no entanto aumenta gradativamente ao passo em que ela se aproxima da porta, como uma canção de Wagner que fere no momento oportuno.
Uma mão repele Larissa ao passar pela entrada de sua residência e logo ela tenta se segurar no vão da escada para não cair. A mão surgiu vagarosamente e do nada a derrubou. A mãe, caída ao chão agoniza ainda depressiva, rola sob o chão úmido do qual depende. A mão sumiu como num passe de mágica, a mesma mão que gritava anteriormente e que fez com que a mãe entrasse num desespero surdo.
Depois, não mais que dois ou três minutos a vizinha estava escondida sob a porta, observando com um olhar frio as caudalosas noites de angústia de Larissa que veio a ser mãe com seus 13 anos. A mão, dizem hoje em dia que era de Gabriela, sua filhinha e que, no momento do pranto um estrondo em seu apartamento ocorreu.
Hoje, ao passar pela Rua dos Golfinhos, sob um sol dilacerante e mudo, um mundo observa numa lápide da praça ali contido o cachecol bordô com uma frase: Foi-se o mundo em que a coragem era temida. Os moleques arruaceiros continuam a perpetuarem os cômodos vazios da cidade, a picharem os prédios abandonados e a esconderem-se da polícia em dias de futebol e, no mais por ventura, o ar que habita o lugar nos dias comuns é o mesmo, forte e tenebroso. O bordô das ruas se apaga da mesma forma que as lâmpadas são estilhaçadas por pedras corrompidas.
Larissa, a invenção da mãe que teve uma filhinha foi mantida presa por muito tempo em uma casa de recuperação. Não se sabe o que sucedeu.
Que lastimoso retrato de tantas gentes reais nessa nossa sociedade indiferente! Espetacular!
ResponderExcluir