
Chego manso num ambiente escuro. É uma história já contada. Encontro, sob a janela de madeira um vaso de flores puras, frescas e tímidas a morrerem de inverno. De longe, lá de fora vem Priscila a correr em minha direção. Abraçamo-nos e iniciamos juntos uma vida, nos casamos, enfim, enamoramos e temos um filho chamado Miguel. Arraigado, o filho parece o pai, mas, nunca sei ao certo se realmente o é, somente se parece. O filho de meu sangue cresce. Torna-se homem e lúcido. Eu torno-me bêbado de rua. Priscila encontra outro homem com quem terá três filhos homens. Seu ovário não resplandeceu o bastante para se ter uma mulher.
Aprendo a falar inglês e logo irei pros States solito. Lá terei muitos prazeres. Meu filho já é homem velho. Desenraizou-se, tornou-se melódico demais e casou-se com Jurema, com quem teve três filhos idos. São meus netos tidos. Alimento em mim uma paixão que vem do diafragma e me condena para o resto de minha existência. Vá-te homem, cala-te com tuas palavras soltas. Digo a mim mesmo estas palavras enclausuradas e me condeno. Mas não morro, eu sobrevivo no país de diamantes soltos, fora de eixo, fora das calças.
Calço meu sapato preto com uma fivela na frente e ando em direção ao centro. Encontro dois amigos e por ali ficamos. Depois disso tenho nuances na memória, encontro-me com Miguel, meu filho, chama-me de pai e lacrimeja seus olhos finos. Em seguida a polícia o leva, não sei por que razão, mas, admite, enfim, que mentiu a vida toda e sabia que não era meu filho. Eu tento exprimir qualquer coisa da boca, o ar se prende refratário em minha garganta e a única palavra que sai é “filho”.
Nunca mais soube da Priscila. Não fui atrás de ninguém. Perdi-me no caminho indigno que leva ao temor e angústia. Sou um dito cidadão desrespeitado sem ganhar um bendito tostão ao mês. Não fiz minha viagem, contudo, sou bilíngüe. Não vivo à custa das pessoas. Eu vivo a espera de uma pessoa, uma paixão reprimida que ainda há em meu peito. Não tenho fama nem sinto que as pessoas me conheçam.
Miguel fica preso 10 anos. Depois disso, sua absolvição ocorre às duas horas da tarde do dia 21 de abril de 2010. Torna-se um homem honesto no papel, assina meu sobre nome e não sabe o que diz, no fundo, realmente não sabe o que diz. Não é meu filho.
Apanho meu filho numa tarde ensolarada dando moda na Praça do Museu. Parece um desvairado e quando me percebe, finge não reconhecer a minha presença. Incomoda-me o seu jeito e, basicamente é tudo o que penso no momento. Minha cabeça vira um labirinto indiscutível de menções. Não acho nada interessante o que penso. Eu penso em tanta coisa.
Um colega de classe sempre me dizia que o mal vem atordoado de uma roupa rasgada, mente que é bom e o ser - humano, por causa da razão que não se conduz, cai na armadilha como rato. Por isso descreio do que me rodeia, descreio de minhas palavras também.
Agora, enfim, Miguel reaparece para mim, diz que vai se mudar. Mudou-se como homem, não faz mais parte de uma sociedade fajuta. Faz parte de uma toscana corja de assassinos que ficam de tocaia em frente ao Passeio público germinando e gerenciando prostituas dos mais variados tipos.
Eu soube por bocas de outros por aí que meu filho vive no norte do país, nunca mais me telefonou, não deu notícias. Sua mãe, a Priscila também desapareceu decididamente. Estou disposto a não querer saber mais nada deles, isso tudo só me chateou.
Meu filho telefona-me e encaro o aparelho com sofreguidão, convido-o para vir em minha casa e ouço do outro lado da linha a voz de uma mulher, uma voz rouca, meio múltipla de vogais soltas, diz de forma alterada “amor! O jantar está servido” e Miguel me informa que convive com outro mundo e que no lugar onde está todos desconhecem o seu passado, por isso tem a oportunidade diária de recomeçar a sua vida sem tragédias.
- Boa noite, meu filho. Eu espero, sinceramente, que amanhã pela manhã você acorde bem.
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