quinta-feira, 2 de junho de 2011

Hora marcada


Alfredo chamou-me pelo nome pela primeira vez na vida. Eu fiquei toda sem jeito, sem saber o que fazer e no outro dia já contava este fato à Gabi, minha melhor amiga. O Alfredo sempre fora um homem tímido, mas a parte que eu mais gostava era das carícias que me fazia. Ele vinha sem graça, meio cabuloso e, com certa cautela, colocava a mão pra valer. Casamos no dia seguinte, logo após sua garganta arranhar meu nome. Estava eu de véu e grinalda, toda a família reunida, meus pais, avós, sobrinhos, tataravôs, pois me casei muito nova. As flautas se aqueciam de dentro da igreja quando o padre iniciou seu sermão. Em seguida, após a comemoração fomos bater algumas fotos no parque da Lagoa, coisa simples, porém, com muito sentido. Deitemos-nos no gramado e lá passamos uma eternidade que deve ter durado mais ou menos duas horas. Ele de terno ficou lindo, era noite de frio e sua voz, por mais rouca que parecesse, me esquentava e me aquecia, eu me arrepiava a cada novo segundo e aos poucos ele ia encaixando seus braços grossos em minhas costas e assim seguimos. A festa rolava e quando chegamos ao salão ouvimos palmas de todos os lados. Sorri com certo disfarce, meu vestido tinha alguma sujeita que tentei também esconder e, logo após, já me encontrava embriagada de vinho tinto seco. Casamos e em uma semana nos separamos. Alfredo achou outra menina, muito mais nova, muito mais delicada e breve. Eu segui minhas rotinas fatigadas e, conquanto, encontrei você, meu terapeuta particular que me acomete olhares sem surpresa, me ouve quando eu penso e me enxerga quando eu sinto notabilizar qualquer coisa do mundo real. Eu vivo com você há muito tempo e até hoje me surpreendo por nada ter acontecido entre nós. O teu diagnóstico é sempre o mesmo, estou cansada destes remédios, estou dopada. Cacete! Aonde vou chegar com isso? Responda-me! Este silêncio me atormenta. Não adianta mudar. Ontem me dei de frente com o calendário do ano passado, pensei que fosse novo e errei o dia do seu aniversário. Perdoe-me, mas, eu já não sei o que faço.
- Alô! Estou no trânsito da Rui Barbosa. Desculpe-me, mais uma vez, por este atraso. O calendário, de volta estava errado. Eu não sei o que anda acontecendo comigo. Em poucos minutos estarei no seu consultório, ta? Até logo.. ta?! (...) até breve...

(...)

- 19h45minh min [...] 21h43min...[...] 23h50min [...]

Um comentário:

  1. Maria Lúcia Martins2 de junho de 2011 às 16:13

    Gostei dela, senti-me um pouco vingada. kkkk... é que ultimamente todo médico atrasa a minha consulta, um descaso só.

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