
Sou deputado no meu país. Trabalho dia e noite. Antes de ontem passei por minha terra, lá não canta mais sabiá nem bem-te-vi. A minha amada se escafedeu, não sei por hora o que houve, mas, que houve alguma coisa isso é fato. Passei ontem à noite por três cidades diferentes, embora eu pensasse que estivesse cansado, era somente o início de uma caminhada. Descobri campos, espaços vazios que se fazem cheios de doçura. As cidades são cheias de prédios que sobem desvairados como montanhas aos céus. Realizei, de fato, um tédio: cresci. Empolguei-me com isto e minha barba cresceu. Meus espinhos, meus santos e minhas lástimas. Acredito agora que, dentro de um cubículo cheio de germes eu encontre comida. Meu corpo é sempre parte de outro corpo. Como disse Aristófanes, eu creio superficialmente que estamos em busca de nossa outra parte. As nuvens derramam milagre na vida. As montanhas aumentam e o meu tempo, por incrível que pareça, o meu tempo se esvai. Não trabalho porque sou deputado no meu país. Eu sou meu maior advogado do meu destino. Ninguém comanda o que eu penso, nem mesmo eu. Sinto falta dos pesadelos e dos sonhos. Tenho a preeminência de estar ficando louco. Hoje passo pela Avenida das Torres num sol de lascar. As pessoas todas me observam ariscas como se eu fosse um andarilho qualquer. Não sabem um pingo sobre mim e pressupõem coisas toscas em suas cabeças. Dá-me pena. Eu sou um caro esperto, estudei, me formei, trabalhei, comi de tudo, viajei e hoje o que me resta é viajar. Sou refratário, não retardatário. Entro na Havan, com delicadeza chega-me um segurança:
- Senhor, queira se retirar?
Com minuciosa esperança respondo:
- Não, eu vou ficar aqui. Eu vou comprar – respondo inquieto.
O homem chama outro segurança, que chama outro e que chama outro. Então formam uma trilha de sete cabeças com sete espadas e sete ódios. Levam-me até a sala ao lado e chamam uma viatura. Outorgam-me como indigente por não ter identidade. O que interessa meu nome, se minha pessoa não faz a diferença?
Espero que isto lhe toque o coração, Senhor Juiz, porque estou aqui há muito tempo e não preciso de quatro paredes para caminhar em meu mundo. Não sei quando chove nem quando faz sol. As quatro paredes que me prendem impedem-me de ver. Eu enxergo ainda, mas é como se não enxergasse. Não sei se ainda consigo emitir algum som da garganta, mas ainda há esperança.
Nenhum comentário:
Postar um comentário