sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Cela


Sou brasileiro portador de uma identidade velha e esquecida. Tenho trinta e quatro anos e tenho certeza que a esta hora da manhã o sol deve estar escaldante na Praça da Ucrânia. Penso muito o dia todo e, embora pensando, acho que fugir ainda seria a melhor atitude. Esquecer toda esta droga aqui. Se estou no quarto há sujeira, no banheiro nem se fala, é horrível. Não vejo a hora de estar passeando com meu cachorro, cultivando minha horta se é que ela ainda está lá.
Só vejo amiúde um pedaço do céu e agora chove lá fora, retomo Crime e Castigo, estou na página 30, isso é grande para diabos, sei lá quando o terminarei. Ah, mas aqui tenho todo tempo do mundo. Ou não tenho? Às vezes não sei ao certo quem sou, o que faço aqui, fico completamente perdido. Que droga.
Lembro-me da época em que andava por estas ruas de bike, fazia dos meus caprichos prediletos os mais belos momentos. As coisas mudam perante o tempo e este, a que chamamos instante, não passa de uma imagem abstrata que recompomos à mente. Parece que me deitei para dormir um pouco e, no fundo acredito, acordei-me hoje como se fossem dez anos depois. Minha cabeça está virada num tormento.
A comida me recompõe as energias. Sensatez é meu segundo nome. Tive tantos professores com os quais nada aprendi, apenas ensinaram-me o que não fazer. Aqui não me utilizo dos números, das palavras, não me utilizo nem mesmo dos atos. Aqui eu sou um mórbido homem esquecido e difamado por uma sociedade ínfima e devastadora. Repito: a sociedade não sabe o que faz.
Acredito, por fim, nos boys velozes dos dias de hoje, e amanhã serão velhos imbecis a debocharem do rock passado. Os garotos são estúpidos e aproveitam a vida da mais ridícula forma. Sentam-se em esquinas com putas devastadoras e não comovem a mais ninguém. Não há mais surpresas, não há mais paixão. Não há mais poemas.
Eu creio na donzela vestida de nada, com cabelos soltos nos ombros sobre uma concha milagrosa, uma deusa que reflete a mim, a esta história, uma ameaça de paixão. Não existe antídoto contra este mal, basta seguir contando os minutos e no final talvez nada aconteça.
Entre o que eu penso e a molecagem das ruas há uma disparidade infinita, quase que súmula. Por isso não sustento imbecis, faço minha política, faço minhas leis e delas sou confidente até mesmo nas incertezas e proezas. Penso se ainda tenho filho, onde ele estará? Sei que tive um filho com uma menina pobre na época de adolescente, hoje deve ter uns dezoito anos, se não estou enganado. Mas para que saber de filho uma hora assim? Novamente pego com a mão direita estendida o Crime e Castigo, deitado nesta cama suja envolvo-me com o cobertor marrom sobre a pele. O que será que Rodion Românovitch Raskólnikov pensava? Este cara era doido, eu acho. Mas, Dostoievski não era bobo.
Chega a noite ou vai-se embora o dia, isso acontece todas as vezes em que me encontro no estado de latência, porém, acredito que desde a última vez que vi o por do sol, nunca haverá outro como aquele. É estranho pensar nestas coisas. O meu delírio se ausenta à sorte de meu viver. Vejo a deusa de volta a passar por meus sonhos, parece estar ausente e feliz e fico feliz, embora eu creia que a felicidade é estado supérfluo.
Coloco meu fone de ouvidos, ouço Moonlight Sonata no último volume e, neste instante estático e límpido, ouço o barulho do vento lá fora, vejo um inseto a pousar lentamente sobre a mão esquerda que segura o MP3. Minha mente descansa de vez e aos poucos vou perdendo os sentidos, meus olhos se entorpecem de um sono robusto e pesado e, mesmo assim nesta ausência de sorte a música continua em notas brilhantes e soltas, o piano vai, volta, sola e enriquece no momento propício em que perco o sono. Beethoven produziu para alguma mulher, eu acho, deveria já estar surdo e com as vibrações fez uma bela arte sobre a qual o mundo se compadece nos dias atuais e hiperficiais.
Inicia-se a próxima, é Jesus bleibet meine Freude, de Bach. Os violinos, depois as múltiplas vozes e novamente os violinos a dançarem num salão liquefeito e vazio. Isso tudo preenche o vazio em meu peito e não há dor, nem sofrimento, já não há nada. Talvez neste momento eu já esteja em estado de dormência e não sei o que digo, nem o que faço neste sonho. Entretanto, a porta da cela na qual me vejo se abre, o policial me corresponde um olhar, sim, talvez queira hoje, enfim, soltar-me deste inferno. Não! Entra outra pessoa, uma companhia aos meus dias, um menino ainda na casa de seus dezoito anos. Eu sempre digo que essa rapaziada não sabe o que faz da vida. Termina a música. Termina o meu sono e infelizmente nada era sonho, estou perdido.

Um comentário:

  1. Perdido está todo indivíduo que culpa a sociedade da qual também é integrante; perdido está todo sujeito que perde-se justamente no período que deveria encontrar-se; perdido está toda pessoa que desaproveita a vida para encontrar limitação de liberdade e descobrir que fora livre; perdido está todo ser humano que ignora sua condição de ser racional e segue rumo ao perdimento sem razão consultada...

    Perdido está aquele que ainda não encontrou teus escritos, Guri!!!!! O universo humano vem até a superfície dos seres contemplados nos temas abordados e transborda-se teu talento!!!!

    Saudações!!!

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