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“O mundo não termina. As pessoas o detonam”.
21 de março de 1843, o mundo está sóbrio, nostálgico e sem nada para se fazer. Conheço Alissa, uma menina dengosa que acaba por gostar das minhas asneiras. A conheço e saímos juntos numa tarde de sol. A cidade do Rio anda movimentada mas, desculpe-me a expressão, estes trajes de banho não me tocam em nada, espero que em 2000 as coisas mudem e até lá, estarei vivo para ver. 21 de março de 1844 passa-se de relento com uma fina chuva em Copacabana. Não estou mais com a Alissa, sei lá aonde ela meteu-se. Estou sozinho e só continuarei até encontrar o grande amor de minha vida, antes disso o mundo não se acabará.
6 de setembro de 1994. O mundo ainda não se acabou, mas, prematuramente acabo de lembrar que amanhã completarei mais um belo ano de vida. Ando ficando velho, minhas rugas não cessam e, por incrível que pareça, ainda estou disposto a caminhar no Botafogo.
7 de julho de 2000. O mundo ainda não se acabou, pelo menos para mim, continua redondo em sua circunferência rachada indisposta e cheia de enganos, porém, continua. Vivo num mundo relaxado, meus amigos esqueceram-se de mim faz muito tempo, vivo totalmente isolado de tudo e de todos e, mesmo assim, mesmo com tantas promiscuidades, meu mundo continua intacto e sem transformações reais. Comparo-me a um grito, esvai-se ao rochedo e volta com um eco triste e reflexivo. Chamo-me Narciso, produzi o eco.
21 de março de 2002. Tarde ensolarada. Os trajes de banho melhoraram. Nada que eu o diga de forma clara porque ainda tem muita coisa feira por aí. Nada de concisão. Melhoro meu aspecto físico no espelho e me mando às Laranjeiras. Encontro-me com Alissa, meu silêncio se transforma em tremor de pernas e braços, o sangue que corre diante de mim se faz intacto e sem louvor, a cumprimento. Ela diz-me o quanto eu cresci e tornei-me agressivo, mas, como sabe tanto de mim? Se nem eu conheço-me a tamanha altivez? Desgrudo-me de meu I-pod e locomovo-me para o Arpoador a pé, com muita coragem me bando para aquele lado, onde tem mulheres e moças diferentes.
Entro em uma avenida desconhecida. Vejo-me de frente com um mendigo e ele interroga-me, pergunta o que faço ali, em seu espaço? Eu não tenho respostas no momento e no instante em que estou para abrir a boca, sou assaltado, levam-me tudo o que tenho e, em seguida, como num momento de êxtase eterno sou o assaltante, roubo uma senhora, levo sua bolsa, seus sapatos, sua saia, deixo-a de mãos abanando e já não me conheço mais. Minha miséria levou-me tudo o que eu creditava. Não tenho mais conta nem nome, Narciso esqueceu-se. Não sou dono de mim.
Mas, se tudo isso que aqui escrevo, diante dos fatos esclarecidos neste diário, acredito que eu mereça um tratamento do governo. Eu dependo dele porque não me viro só. Hoje é dia 22 de agosto de 2005, nada demais aconteceu. Eu ainda ando confuso por aí. Agora estou no Cosme Velho. Não tenho dinheiro para subir o morro, vou a pé. Ninguém me curva, eu não tenho culpa.
- Moço, aonde você vai? – esta voz vem lúcida e firme contra mim.
- Eu não sei – respondo também firme.
Continuo a caminhada. Chego ao Jardim Botânico. Concordo com os termos de acesso e me adentro. Ali têm muitas crianças a correr pelo mato, uma casa velha e algumas plantas. Aquele lugar é parte de mim porque sou eu a natureza que sobrevive ao nicho de meu habitat. Configuro-me diante de uma imagem de santa, não sou eu quem o diz, entretanto, das minhas mensagens extraídas e esbaforidas do meu lábio, argumento que o meu dia se acabou e, contudo, ainda o mundo está sólido, líquido, liquefeito, imóvel e complacente. Não admiro mais a poesia do elixir das nuvens nem do mar.
8 de setembro de 2011. Agora sim, estou a gostar de ver os trajes de banho. Cada vez mais curtos. Música alta e diamantes na calçada. Isto aqui tornou-se um paraíso. Arrependo-me não ter nascido antes. O mundo gira a 950 km por hora, é coisa de doido, agarro-me na terra, é velocidade sem fim, incontrolável e, ainda assim, as pessoas se obrigam a pagar o teatro municipal. Sei lá o que digo. Onde estou? Eu não sei com quem estou a falar, mas, este negócio está cada vez pior.
09 de julho de 2012. Acordo-me com uma mensagem louca no celular e um e-mail de spam. Estou sentado diante do meu computador a pensar em meus negócios, tudo volta ao normal, hoje é um dia normal também. Mando um e-mail de resposta ao Sérgio da imobiliária Mil. Sei lá o que ele pensará de mim. Abro as cortinas e deparo-me com um imenso mar da Barra, isto aqui é o paraíso. O mundo não se acaba.
UAU!
ResponderExcluirFiquei sem palavras, ainda estou processando.
Abraços!