quinta-feira, 17 de maio de 2012

De nihilo nihil




Era uma música que ia diminuindo aos poucos enquanto eu permanecia sentado no divã. Barba crescida, cabelos longos e uma xícara de chá na mão direita, com a esquerda segurando o pires que reluzia pela janela numa fria noite.
O disco se remexia na vitrola e eu notava que lá fora, além do gelo havia uma garoa fina e dispersa. Depois disso, ouvi crianças no parque, da mesma forma; um som que aos poucos ia diminuindo, um tom simples e longe, mas, eu, quase nulo fui diminuindo porque eram só memórias. E destas memórias sólidas guardadas em mim eu conseguia perceber que eram como uma virtude, pois me faziam feliz. Aquilo me tornava um homem-menino.
Reiniciava outra melodia, doce e fugaz como as outras, como a vida, mas sem despedidas. Apenas o reflexo dos carros que passavam em frete à minha rua davam um ar cinematográfico ao meu estar daquele momento único. Outro chá e, solitário, meio apreensivo dediquei-me a reler as capas dos discos. E, aos poucos, em cada nova oportunidade relia cartas, pequenos paraísos da existência, depois os acordes antigos de uma música sem fim, apenas um estágio. Em seguida compreendia caladamente os gritos das crianças do parque que diminuíam. A voz na canção também se apagava de vez em quando, tudo era um plano de fundo ao meu instante. Talvez fosse o mais perfeito possível, quem sabe?
O ser - humano, irrequieto, reflexivo faz de sua vida uma paisagem com naturezas vivas, prédios e sons, cheiros e tédios, depois medos e beijos, porque ele, o ser é uma cópia de si, ainda que se mude perpetuamente quem saberá por que razão, o homem ignora a sua natureza e se veste de uma roupa semelhante porém, que lhe serve de metáfora e não condiz com sua índole, muitas vezes.
E no delírio em que eu me encontrava não conseguia diferenciar um gesto de um abrigo. O perigo por perto, uma luz que aparecesse de verdade. No entanto, ainda como humilde garoto, sem saber as razões pelas quais me ausentava de tudo, eu continuava na solidão que me envolvia de lembranças doces, estas que me colocavam em um âmago da alegria, e a imagem ao falar destas palavras é a mais bela possível, uma imagem de entardecer de inverno, com um céu alaranjado embalsamado numa penumbra de sonhos com semelhanças de Deus.
Acreditei, enfim, que a noite acabaria, assim como o medo e o sofrimento. Apenas as imagens não se ausentariam porque a memória é a nossa vida numa lata de filme antigo que às vezes reaparece distante e outras vezes próxima demais que acabamos por quase acreditar que o passado é presente. Contudo, entre tantas razões escondidas, o presente somente existe porque existiu um passado e haverá de existir um futuro, a semelhança entre estes tempos são as coisas que fazemos ou deixamos de fazer, porque no fim teremos motivos para agradecer ou só lembrar de forma um pouco triste.
Retomava o chá na outra mão e o frio continuado, em timbre de solo, o disco a parar aos poucos e as vozes das crianças do parque sumidas. E eu era um novo homem por causa do passado e o passado me escondia entre cortinas de um palco de teatro, todos os atos se passavam ao vivo e eu, parecendo-me a um protagonista, devia ter vivido com mais intensidade aqueles tempos de paz. As coisas reapareciam na cabeça, enquanto as estrelas se faziam mais presentes. 

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