Devo dizer-lhe que não vou
chorar. Embora eu pense todos os dias em você, ausentarei minhas lágrimas e as
trocarei pelo brejo que se faz no meu peito. Brejo convalescente que permite
ausentar os meus tédios e faz com que reapareça em mim o desejo. Mal desejo de
te esquecer perpetuamente. Do que se faz impossível na minha alma, então eu
canto. Retiro, em seguida, a maquiagem com demaquilante misturado com um choro
robusto, líquido inflamável. Retiro meu vestido mais lindo e nua eu reinicio
meus dados prediletos. Eu devo em poucos minutos cerrar minhas lágrimas, mas eu
não sou dona de mim e isto me aflige demais.
A gente se desespera quando não
se tem controle sobre os pensamentos. A gente peca sem querer e este pecado,
lavado e recebido eu sei lá se funciona. Mas devo dizer que não vou lhe dar nem
sequer um beijo curto, destes de despedida porque a minha vida está
abstantemente abatida.
Devo manter a compostura para não
sair do ritmo e nem descer do salto, sou mulher e meu útero me abriga. Não sou
mãe. Sou filha. Sou em seguida uma pilha de nervos de aço.
E os nostálgicos enganos, os
planos incertos, e aquele homem de camisa amarela? E aquela figura que me
espera? Nada espera, a chuva me inspira. Não sei de onde tiro tantas asneiras.
Bolino meu celular, depois o I-pod. Nada se sente em um dia sem sol.
Ligo no ramal 217, só chama.
Passo o dia inteiro a observar o trânsito da avenida que me nutre, me abastece
e me deixa a pensar em meu destino. O destino é uma surpresa, ainda que isso
seja pleonasmo, oras, que se repita dez mil vezes.
E se tenho tanto tempo para lhe
desejar palavras; o que são palavras senão um trânsito encardido como o da
Marginal Tietê? Palavras não são atos, são palavras, por isso iludem e se
contemplam por si só e nada mais. Os atos feitos, estes jamais serão esquecidos
porque ficam corrompidos e estilhaçados no inconsciente. E a memória por vezes
se reveste de uma seda, de pequenos flashes que fazem com que lembremos de
coisas mútuas instantaneamente.
Minha alegria se congestiona.
Perdi meu maiô. Fico sem graça. Não bebo nem fumo. Já não rio à toa. Mas mesmo
assim não me perco de mim. Sou tão sóbria que me aconchego na cozinha quentinha
em dias de inverno. Tento o ramal e nada. Atento a lua. Vou-me embora a
qualquer lugar. Não me iludo, porém, eu sei que ao dizer esta frase engano-me
ou me esqueço, me perdoe, eu sou humana.

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