segunda-feira, 8 de julho de 2013

A casa de um suicida



Era inverno e a comida já havia esfriado. Enquanto eu me envolvia no sofá junto de muitas cobertas também imaginava o quanto frio suportara do lado de fora daquela casa. Mas, não. Eu não entrara porque era de aço. Era uma casa nada engraçada. Sobre seu telhado havia um limbo verde musgo do qual eu me metia em medo constante. Aos fundos, com muitas árvores amedrontadoras e gélidas secas. Eu estava só e solto, não era mais dono de mim e, enquanto pensava o tempo regredia de forma vagarosa.
Em um determinado momento, ao passo que eu passava em frente daquela mansão, surgiu um homem de idade mais ou menos entre setenta a oitenta anos. Olhar cabisbaixo, lento e sôfrego. Tropeçando aos pouco em seus próprios passos e com um olhar de queixas. Era um homem preso, mas livre. Tentei um cumprimento somente com a cabeça, sem retorno algum.
Em seguida eu parei à rua deserta. Tentei fazer de conta que estava arrumando meus cadarços. Aquilo parecia-me loucura e mesmo assim eu continuava.
O senhor me observou, não sei ao certo se observou que eu estava a o observar ou somente a mim, sem mais nada além disso. Meu coração entrou em disparada num estágio conturbado e alucinado de esperança em lhe remeter uma palavra que pudesse, porém, não podia, pois eu não entendia o que me passava pela cabeça.
A casa ainda permanecia fechada. Era escura com paredes em tintas d'água descascada e antiga. Havia berais tornos e alguns até mesmo soltos. As janelas marrons davam uma tonicidade de ensejo e infortúnio. O gramado era alto, o que dava-me a impressão de que há tempos ninguém o cortava. Contudo, mesmo com estas imagens eu me ative. Eu estava meio tonto e de agora em diante, como um amante ou como um ledo espaço, procurava me atentar a cada passo que o pobre senhor dava.
Talvez eu fosse apenas o que ele um dia poderia ter sido. E agora, encostado sob o muro de meia altura lhe escorria uma lágrima do olho esquerdo. Fiquei sem ação. Pensei em ir ao seu encontro mas, não seria bondade de minha parte. Um homem quando está só, sente-se só, é só. Entretanto, não basta ser só, deve-se sofrer para somente depois tentar ser.
Eu fingia neste instante me apegar ao ponto de ônibus, só que não havia ônibus nem carros nem nada. O tempo era brusco, nublado e sujo. Eu era em mim um desejo pronto de estabelecer qualquer relação com aquele homem. Nada saia de mim. Nada eu aprendia. Nada mais sabia.
O dia se passou lento. A casa estava no mesmo lugar. As árvores também eram as mesmas. As luzes durante o entardecer deram-lhe um ar de mistério ainda maior. A neblina aumentou em um curto espaço de tempo e para minha sorte o ônibus ainda não tinha chegado. Adormeci.
No outro dia perguntava-me : “morri?”, não encontrava nenhuma voz em resposta, apenas um sussurro nos ouvidos, era uma mistura de sonho com realidade. Já não era sonho. Sim, eu estava debaixo do ponto de ônibus e um cachorro me lambia os ouvidos com um cheio de carne podre. Era um pobre cão da rua. Iniciei minha caminhada de forma sôfrega e ao adentrar em uma padaria percebi através do noticiário do telejornal das seis que um senhor se suicidara durante à noite gelada em Curitiba na Rua Nova Zelândia, nº 4222.
Eu tinha quase certeza de que era aquele senhor.
Agora, a única coisa que me passa pela mente é refletir sobre o que, talvez, ele refletia minutos antes de se atirar no ponto escuro do gelo da noite. Seu nome era João Augusto Novaes de Melo e seu corpo enterrar-se-ia às quatro da tarde deste mesmo dia triste e mudo. Cintilado e cruel para alguns. Louco e desesperador para outros.

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