sexta-feira, 6 de julho de 2012

Vidas




“Bom dia” – vinha dizendo a moça pela estrada.
”ora, bom dia aos diabos” – o homem de cavanhaque. O rapaz da esquina parado em frente à farmácia, com a perna direita recostada à parede e um cigarro na mão esquerda – “se dane”.
A moça era Gislene, vinha feliz, sorrindo e correndo porque havia se distraído a semana toda, já não lembrava de sentir-se mal porque acabara de encontrar um amor, assim ela o chamava.
Trabalhava na firma da Concritude, onde as belas meias de algodão eram exportadas. O auxiliar Gusmão de nome reconhecido era intermediário quanto às façanhas aprontadas em horários de disfunção, cada um tinha um apelido e
Gusmão passava sempre a ser chamado de charlatão, por entregar quem se alimentava no expediente.
A moça conhecida, a tal de Gislene, há quatro dias estava namorando, havia descoberto a tampa da frigideira, dizia estar ausente de corpo, mas de alma era inteira. O rapaz, seu namorado, não sei o que dizer, pois não sei motivos, minhas relíquias de pensamento não absorvem tanto quanto pudesse abster de pecados, contraignorância supérflua, ao que diz é respeito e o que diz é um repito.
Lá do rapaz de cima, de cavanhaque a vida era inconstante, ele havia perdido o emprego há três horas e pensava no que faria para tratar das filhinhas de pequenas idades. O rapaz da farmácia perdera a namorada para outro em apenas duas horas, estava disposto a dar fim na vida, mas via que no outdoor de frente da calçada estagnava um aviso: Cuide bem do seu amor, seja quem e como for. Era a música dos Paralamas.
A identificação aconteceu à soberba, e sobrou espaço para o café da sesta.
Na Concritude tudo ia bem, Não pelo fato de as coisas serem todas concretas, mas, pela estagnação de cada membro que funcionava em braços lá dentro, o barulho da sirene pela manhã dava o aviso: “comecem!” No horário de almoço à ruaça, os funcionários saiam para pagarem suas contas e tirarem suas conversas da caixa presa. Uma da tarde, e ao fim desta tarde, outra buzina inacabada que parecia um trem, fim do expediente, todos saiam na melhor ora do capitalismo humano. Gislene com as companheiras e as companheiras também felizes.
 Na rua uma velhinha de mais ou menos oitenta e cinco anos pedia alguns trocados, quando recebia, logo respondia: “Deus abençoe”.
Na avenida Urbana um palhaço fazia malabaris, as crianças todas achavam aquilo impossível, por isso mesmo é que abriam tanto suas bocas. Os pais sentados no parquinho apenas conversavam sobre os futebóis e as novelas.
Atrás da esquina da panificadora tinha um senhor de guarda-chuva. O menino que passava junto a sua mãe dizia: “olha, olha mãe, é o Papai Noel”, e a mulher já lhe entregava uma palmada na orelha. O velhinho apenas se dava por louco e ia olhando até o fim da calçada, aonde quase fora atropelado por um ciclista que vinha de cima.
Mas Gusmão da fábrica também consegue esconder suas bolachinhas, apenas se dá por biruta, mas é mais esperto que muitos da Concritude. A salvação de cada indivíduo de lá é que as vendas vão bem, porque senão estaria tudo perdido como o trigo foi aos milênios de tempos na antiga Grécia.
O amor de Gislene é um homem honesto, acredito porque ela diz, e quando ela diz é porque acredito. Tudo o que uma mulher como ela diz é verdade, e caso seja mentira, tudo muda de lugar e torna-se verdade. Gislene é calma e abusiva, mas às vezes impaciente e atrativa, talvez esses sejam motivos para escrever qualquer coisa sobre uma pessoa como ela, que merece uma gratificação do fundo d’alma.
Na rua, no sábado, todos os seres humanos passam como se fossem à guerra, uns pisam nos pés dos outros, outros chutam a obra ditosa da caverna, as obras todas são constituídas de títulos, e os títulos reverenciados aos autores das respectivas. Ao fim de tarde, a mesma possibilidade de desventura da face incapacitada de supostos cidadãos.
Em quase anoitecer, passam uns pelos outros e não se reconhecem, ao final de mente em alma e corpo. Gislene se encontra com seu namorado Adalberto, que passam pelo cemitério São Joaquim e encontram um velório do homem que era encostado à farmácia e perdera sua namorada. Passam também pela rua Justina, na qual um homem chora junto a sua mulher e filhas, o de cavanhaque, berra e se agita, os armários estão todos vazios e não há comida nem emprego.
Ao finzinho deste mesmo dia, a sabiá e o canarinho da terra ainda cantam explorando o axioma da revelação da vida.

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