Aviso que na hora do grito ela chega toda molhada e escandalosa. Mulher louca dos gênios das quiçaças e, quem sabe, dos saraus. Saio de madrugada aos pulos porque ela me tira de casa, diz o tempo inteiro que tenho outra, mas, discordo, não tenho nada. Encontro-me com o Zé àquela hora, depois aparece Tonico, conversamos de futebol, nossos times não andam bem, bebemos uma cerveja, depois outro e quando notamos estamos na décima rodada, passamos o Campeonato brasileiro brincando.
O meu celular toca inesperadamente, vibra e cai do bolso,
apresso-me para pegá-lo. Estou sentado numa destas cadeiras maciças de plástico
amarelo de bar, alcanço o aparelho e derrubo-o novamente. É a mulher que me
liga. O Zé diz “deixa essa droga aí”, e eu faço o que ele me manda. Deixo o
celular que toque em seu último volume no chão.
Ao voltar a casa quase de manhazinha, ainda sinto uma leve
ardência nos lábios, os meus olhos estão murchos de sono e não consigo enxergar
muita coisa, tudo está nublado. Passo pelo parquinho da praça onde crianças
gritam e seus gritos me machucam porque meu filho não grita. Estou acabado,
roupas sujas, calça rasgada. Continuo em silêncio pela estrada que me leva a
uma amargura sem fim.
Depois de horas de um desespero errôneo encontro minha
mulher, passa e não me olha. Como se eu fosse invisível ela demora e depois de
duas horas vem em minha direção. Manda-me um tabefe na cara e sai pelejando, a
caminhar torta pelo acostamento da BR.
Depois vem a sogra, depois o sobrinho e por fim a prima,
ambos me condenam, dizem em alto tom que não presto. Enfim, presto minhas últimas
palavras ao contador de água que passa neste momento em frente a casa. Tem um
olhar por sobre os óculos, faz uma cara de medo com relação à mulher e continua
seu trabalho (a ser atacado por cães vira-latas).
Já é noite, encontro-me de volta com o Zé. Fala de futebol,
estou por fora, meu time está horrível. Depois de alguns instantes embriago-me,
estou servido de cachorros por todos os lados, amigos errados e condutas mal
esclarecidas. Sou um homem do asfalto, da pedra que se amassa diariamente sobre
a cidade, da água que evapora nas calçadas, da fumaça que se extingue pelas
fendas dos becos. Não sou o beco, sou o cerrado fora de casa. Perco tudo, mais
uma vez não me sobra nada.

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